Festival do Rio: “Amuleto” defende a importância do verdadeiro cinema independente brasileiro

texto de Leandro Luz

“Amuleto”, longa-metragem realizado pela trupe do Mate com Angu (cineclube e coletivo audiovisual nascido em 2002), com Heraldo HB e Igor Barradas conduzindo o repente, é um documentário que conta a história da produção de “O Amuleto de Ogum”, milagre de Nelson Pereira dos Santos lançado em 1974 a partir do ponto de vista de Duque de Caxias. Para quem nunca frequentou a Baixada Fluminense, bloco com 13 municípios situados na Região Metropolitana do Rio de Janeiro do qual Caxias e o Mate fazem parte, é fundamental dizer que este é um território com uma personalidade única no estado, com uma história complexa, fundamental para a fundação do Rio de Janeiro como o conhecemos hoje. Não há como separar, portanto, este documentário de suas raízes territoriais. HB e Barradas sabem muito bem disso, e trazem para o jogo dimensões múltiplas que tornaram possível a existência do clássico filme de um dos fundadores do Cinema Novo e, claro, da própria efervescência do cinema contemporâneo baixadense.

São muitas as histórias e inúmeros os fatores que levam um filme a ser sonhado, planejado, realizado e mostrado ao público. “Amuleto”, ao contar a história de “O Amuleto de Ogum”, passa a revelar também os mistérios de sua própria existência, que levou onze anos (por baixo) para finalmente tomar o seu lugar de direito: a tela grande. E que barato é assistir a um filme tão vivo em uma sala de cinema, com pessoas ao redor vibrando na mesma intensidade da obra. O documentário começa com o ceguinho-flâneur-violeiro-cantador se direcionando ao dono de um bar e anunciando que contará uma história que acabara de inventar. Ecos de Jards Macalé. Em um piscar de olhos e um par de rimas, um intervalo de 50 anos se torna quase nada. Estamos situados no mesmo tempo e espaço, anos 1970 e anos 2020.

Francisco “Chico” Santos, ator e cineasta pernambucano, mas radicado em Duque de Caxias, abre e encerra o documentário. Além de atuar no próprio “O Amuleto de Ogum”, ele também foi quem teve a ideia original para a obra e quem escreveu a primeira versão do argumento, ainda com o título de “O Amuleto da Morte” que, segundo ele, teria sido ainda mais eficiente para a divulgação da fita. HB e Barradas resgatam uma entrevista de 2024 com Santos e contam com os filhos, Ângela e Rui, e com a neta, Flávia, para terem acesso a um material de arquivo fundamental para a materialização de toda a sua trajetória. Santos colocou no papel parte de sua própria vida para chegar na história de Gabriel, que com o corpo fechado enfrenta uma dezena de pistoleiros. Ao chegar no Rio de Janeiro, Santos trabalhou como motorista para o então deputado Tenório Cavalcanti, conhecido pela alcunha de o “Homem da Capa Preta” e por estar sempre acompanhado de sua submetralhadora chamada “Lurdinha”. Uma personagem absolutamente original e assustadora da história do Brasil que também rendeu, posteriormente, uma famosa interpretação de José Wilker para o cinema, em “O Homem da Capa Preta” (1986), de Sérgio Rezende. Diziam que Cavalcanti tinha uma proteção que o impedia de ser ferido, crença na qual Chico Santos se baseou para desenhar o seu filme.

Em termos de produção, “Amuleto” é um típico filme brasileiro que só existe graças ao empenho e à antecipação de seus realizadores. Apesar de, na reta final de sua feitura, o longa-metragem ter ganhado um edital da Lei Paulo Gustavo, grande parte de sua filmagem foi realizada sem qualquer tipo de financiamento. Se a equipe tivesse esperado a entrada de recursos para começar a filmar, não teria conversado, por exemplo, com Nelson Pereira dos Santos, personagem cabal para o relato dessas histórias, que estava com 86 anos quando concedeu, em 2014, a sua entrevista. Outras figuras importantes como os atores Erley José, Ney Santanna e Jards Macalé (que também foi o compositor da trilha sonora ao lado do lendário baterista Edison Machado) também contribuem muito com histórias engraçadas e até então pouco conhecidas do grande público – como a de que Machado teria composto toda a parte de bateria do filme no improviso e à base das substâncias da cannabis sativa; ou a de quando Erley José chegou a ser confundido com uma autoridade religiosa da umbanda na interpretação de seu papel. Tizuka Yamasaki e Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, também acrescentam bons causos a respeito das locações e do espírito meio hippie e mambembe da produção, algo típico do perfil improvisador de Nelson Pereira dos Santos e daquele momento específico que vivia o cinema brasileiro.

Uma das grandes contribuições aqui é dada pelo montador Severino Dadá, que à época era apenas um iniciante na arte da montagem. Dadá (apelido dado pelo próprio Nelson) nunca havia montado um longa-metragem sozinho, mas ganhou a confiança do diretor pela sua sensibilidade para o corte – o jogo fino de “campo e contracampo” exigido pelas cenas de tiroteio – e pelo seu conhecimento autodidata da linguagem cinematográfica. Por sua vez, chama a atenção o fato da montagem do próprio “Amuleto”, assinada por Barradas e Josenstein, deixar os cacos de produção aparecerem no corte final. Alguns movimentos que, em geral, costumam ser deixados de fora de documentários mais convencionais são abundantes aqui: os diretores aparecem em constante movimento, interagindo com outras pessoas da equipe e entrevistados, a pequena equipe é revelada em ação, o microfone boom onipresente compõe o quadro. Aliás, esse caráter coletivo evidencia o que o filme tem de melhor. Afinal de contas, cinema não se faz sozinho.

As imagens de arquivo selecionadas, sejam elas do acervo reunido por Chico Santos ao longo da vida ou as que revelam uma Duque de Caxias histórica, são muito bem aproveitadas pela montagem, que intercala livremente os vários ramos desta grande árvore-memória que é o filme. A presença pontual de Jean-Claude Bernardet também engrandece esse amontoado de causos. O crítico (falecido em julho deste ano) caminha pelo comércio da cidade, interage com equipe e personagens do filme, e concede o seu depoimento como testemunha-ocular da história do cinema. A sua recepção fresca ao filme do Nelson em 1974 é absolutamente valiosa para entendermos o seu impacto, ontem e hoje. O documentário, ao reunir todas essas perspectivas, demonstra cuidado e sagacidade diante de tantos compromissos, e defende com unhas e dentes a importância do verdadeiro cinema independente brasileiro.

“Amuleto” foi exibido no Festival do Rio em uma dobradinha com o curta-metragem “Laudelina e a Felicidade Guerreira”, dirigido por Milena Manfredini, cujo estilo vem sendo burilado ao longo dos anos, pelo menos desde o seu “Eu Preciso Destas Palavras Escritas” (2017), filme que se concentra em construir uma imagem possível do artista plástico Arthur Bispo do Rosário. Em seus últimos trabalhos, a força da moldura se impõe, como se a diretora quisesse demarcar a relação próxima entre o cinema e as artes visuais. A razão de aspecto, nos filmes de Manfredini, não é definida apenas em função do que está dentro do quadro ou de um objetivo dramático que passa pela imagem materializada. Sobretudo, serve para dar a ver o que está fora, o que é da ordem do invisível. Contraditoriamente, assistir aos filmes da diretora na tela grande do cinema, com a falta de controle característica de uma sessão na qual o espectador se contenta em espectar, onde não lhe é permitida a interrupção, é o que dá a esta forma de arte a sua maior força. “Laudelina e a Felicidade Guerreira”, assim como os demais filmes de Manfredini, é muito marcado pela pesquisa. Não apenas temática, mas também a formal. A atriz, o texto, o arquivo, os sons e as imagens. Laudelina de Campos Mello foi pioneira na luta pelos direitos das empregadas domésticas no Brasil. Daquelas figuras que mereciam há muito tempo o reconhecimento do mundo, pecado que o filme trata de começar a reparar.

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– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.





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