entrevista de Danilo Souza
O Festival Suíça Bahiana (FSB), um dos grandes do interior da Bahia e de todo o Nordeste, completa 15 anos em 2025. Fortalecendo a cena alternativa e independente, o FSB mescla música regional com grandes nomes da música brasileira. Na edição programada para acontecer em 18 e 19 de outubro na cidade de Vitória da Conquista, por exemplo, o line-up destaca Nenhum de Nós, Vivendo do Ócio, Black Pantera, Tiquequê e até um nome internacional, o nigeriano ChingyKlean, ao lado de nomes como Pipa, Cayarí, Laiô e Oderiê Y as Flechas.
Para Gilmar Dantas, organizador do FSB, o Suíça Bahiana cumpre uma missão importante ao lado do Feira Noise, de Feira de Santana, por ser um palco que amplia a visibilidade dos artistas locais. “Você vê um estado com 411 municípios e só tem dois festivais no interior inteiro com essa pegada… é muito difícil achar um festival de Salvador que tenha essa mesma pegada, essa representatividade e esse público que o Sul e Sudoeste baiano tem, então ouso dizer que são os dois festivais autorais mais importantes para a cena independente da Bahia”, ele opina.
No seu aniversário de 15 anos, o festival recebe um presente mais que especial: uma apresentação de Elomar, nascido em Vitória da Conquista: “Elomar é uma lenda! E ele nunca se apresentou em um festival independente, seja o Abril Pro Rock, em Recife, seja o Festival Dosol, em Natal, enfim, tem milhares de festivais no Brasil e nenhum deles teve Elomar. E aí, pensamos: ‘pô, o Elomar mora aqui em Vitória da Conquista, então… se não for a gente, não vai ser ninguém que vai conseguir”’, conta Dantas.
Na conversa abaixo, Gilmar Dantas fala mais sobre a história do festival e o que esperar da edição deste ano.

Nesta edição, o Festival Suíça Bahiana vai comemorar 15 anos de história. Qual era o sonho inicial deste projeto quando ele nasceu? O que você pretendia trazer de diferencial para a cena da cidade?
Todo festival começa com uma cena e a cena do [Festival] Suíça Bahiana nasceu quando começamos a fazer o Noites Fora do Eixo. A gente imaginava que tinha muitas bandas indo tocar em Salvador nas sextas-feiras e nos sábados e pensamos que podíamos aproveitar essas bandas para se apresentar aqui em Vitória da Conquista nas quintas-feiras. Eram shows que recebiam sempre uma banda de fora e uma banda local e a gente fazia toda quinta, faça chuva ou faça sol. Tinha dia que iam 50 pessoas, tinha dia que iam 100… então, no final de 2010, pensamos: “e se a gente conseguisse reunir esse público juntando várias dessas bandas que mais se destacaram ao longo do ano e outras que ainda não vieram na cidade em um festival?”
O Festival Suíça Bahiana foi como uma “grande festa da firma” do Noites Fora do Eixo, digamos assim, e deu muito certo! Tão certo que, no ano seguinte, a prefeitura nos chamou para dialogar e patrocinar o festival porque queria que ele crescesse. A gente continuou a fazer essas Noites Fora do Eixo toda quinta feira, mas, em 2011, com o apoio da prefeitura, o festival cresceu muito, e já veio uma mega edição logo de cara com Emicida, Ratos de Porão, Marcelo Jeneci, BNegão, Autoramas, Marechal, Rashid… um elenco de estrelas, além de todas as bandas baianas que estavam se destacando na época, como a Maglore.
Hoje, já é certo afirmar que o festival se consolidou como um dos principais do interior da Bahia. O que ele representa para a cena cultural alternativa de Vitória da Conquista?
No interior da Bahia, o Festival Feira Noise [de Feira de Santana] e o Festival Suíça Bahiana são dois gigantes, não dá para dizer nem qual é o mais importante, eles são do mesmo tamanho e da mesma importância porque é uma grande chance de uma banda baiana se apresentar em um festival autoral no interior da Bahia. Você vê um estado com 411 municípios e só tem dois festivais no interior inteiro com essa pegada… é muito difícil achar um festival de Salvador que tenha essa mesma pegada, essa representatividade e esse público que o Sul e Sudoeste baiano tem, então ouso dizer que são os dois festivais autorais mais importantes para a cena independente da Bahia.
Organizar um festival no interior do Nordeste, fora do eixo Rio-São Paulo, traz desafios específicos. Quais foram os maiores obstáculos nesses 15 anos?
É o mesmo desafio que qualquer grande festival independente brasileiro e eu incluo até os das capitais, como Salvador e Recife: continuidade. Manter uma regularidade de financiamento e de captação de recursos todo ano é um trabalho muito cansativo, repetitivo e difícil. Muitas vezes o festival não consegue captar. Olha o Abril Pro Rock, por exemplo, com trinta anos de história e que não aconteceu esse ano porque não conseguiu captar recursos – e estamos falando de Recife, uma capital gigantesca do Nordeste, importantíssima e com histórico. Esse é o grande desafio e acho que isso está muito ligado a falta de políticas públicas para festivais e para cultura em geral, porque a única política pública que acaba chegando são editais e isso é muito injusto, porque ninguém vai conseguir ganhar edital todo ano. Você pode ganhar um aqui ou outro ali, mas isso não vai garantir sua sobrevivência, porque o edital vai dar conta de apenas uma edição e na próxima você volta para a luta.

O festival sempre buscou ser plural, e isso fica bem claro no line-up deste ano, que vai desde o rock pesado, com a Black Pantera, passando pela música regional, com Elomar, e chegando a uma atração infantil, com a banda Tiquequê. Qual mensagem vocês quiseram passar ao reunir artistas tão diferentes no mesmo palco?
A gente preza a inclusão em todos os eixos. Nós estávamos tendo muita dificuldade em ter artistas negros participando da produção da programação, por exemplo, e neste ano vamos ter sete. Também teremos três artistas indígenas participando, além de um edital para bandas que tenham mulheres participando. É um festival que começa cedo [às 14h], porque aqui na cidade há uma dificuldade de eventos para o público infantil e a única coisa que tem para os pais levarem os filhos é o shopping. Então, para a gente, é muito importante incluir esse público e também o público idoso, que não tem muita opção na cidade… os eventos começam às 22h ou 23h, quando o idoso já está indo dormir. Um festival à tarde e gratuito é justamente para facilitar o acesso desse público, porque sabemos que tem muita gente que quer ir, mas não tem dinheiro… e acontece em um lugar centralizado, que é o Centro de Cultura [Camillo de Jesus Lima], para facilitar o deslocamento das pessoas. A curadoria passa muito por essa questão da inclusão. Já na música, a curadoria do festival é baseada no autoral e nas variedades de ritmos que refletem a riqueza da música brasileira, que é muito plural. Essa inclusão também é regional, já que tem artistas da região Norte, Nordeste, Sul, Sudoeste e Centro Oeste. Tudo isso é proposital, não é coincidência. Nós colocamos isso no papel para entregar o festival mais inclusivo possível.
Agora aprofundando sobre essas atrações, o Elomar é um dos maiores símbolos culturais de Vitória da Conquista. Como é para o festival receber um artista tão emblemático justamente nessa edição de 15 anos?
Elomar é uma lenda! E ele nunca se apresentou em um festival independente, seja o Abril Pro Rock, em Recife, seja o Festival Dosol, em Natal, enfim, tem milhares de festivais no Brasil e nenhum deles teve Elomar. E aí, pensamos: “pô, o Elomar mora aqui em Vitória da Conquista, então… se não for a gente, não vai ser ninguém que vai conseguir. Por que não tentar?”. Sabíamos que era muito difícil e quase impossível, mas era uma obrigação nossa tentar. Fomos pra cima! Tivemos várias reuniões com a produção, explicamos o festival, os artistas que vão tocar, o horário, as condições… depois de muito tempo e muita negociação, nós conseguimos a aprovação e ficamos muito felizes. É histórico! Podemos dizer que, aos 87 anos, Elomar se apresentará pela primeira vez em um festival independente. Isso abre um espaço, assim como foi a Armandinho no ano passado, e já cria um conceito. Em toda edição do festival nós queremos ter uma grande atração brasileira abrindo acompanhado da Orquestra [Conquista Sinfônica]. Já estou até pensando aqui qual é o próximo grande nome da música brasileira que eu vou chamar (risos).
O rock ficou bem representado para a edição deste ano, né? Tem a Vivendo do Ócio, que representa uma nova geração do rock da Bahia, ao mesmo tempo que tem Nenhum de Nós, um grupo clássico e super conhecido. Como você enxerga esse diálogo entre passado e presente?
Estamos vendo uma renovação nacional do rock depois de muito tempo. A gente ouvia muito que “o rock está morto” e não sei o quê, mas hoje claramente há uma nova geração chegando e lotando eventos novamente com um discurso novo, não são bandas que estão copiando as bandas dos anos oitenta. Estamos trazendo a Nenhum de Nós justamente para mostrar como é diferente o rock dos anos oitenta com o rock atual. Gostamos de mostrar nesta edição a diversidade que o novo rock brasileiro está fazendo e sem deixar de reverenciar os grandes ícones, que nesse caso é o Nenhum de Nós, uma banda inédita na cidade, temos que ressaltar isso, né? São 37 anos de banda e agora será a primeira vez em Vitória da Conquista, então, ficamos muito felizes em realizar esse feito. O Suíça Bahiana preza sempre o ineditismo. Para nós, não faz sentido ter um Paralamas do Sucesso no festival porque é uma banda que costuma vir por outras vias, como o Festival de Inverno Bahia (FIB). A gente sabe qual é o nicho que devemos atacar, até onde devemos ir sem invadir os espaços do coleguinha. Nós aproveitamos essa brecha para apresentar a banda aqui pela primeira vez na cidade, mas isso não quer dizer que estamos migrando para um festival mainstream nem nada do tipo, não.

Além deles dois, ainda tem a Black Pantera, que é bastante engajada neste discurso da diversidade e da resistência, características que moldam o propósito do Festival. Qual a importância de trazer esse tipo de mensagem para um evento que recebe um público de todas as idades?
Nós temos que mostrar para o público mais jovem que o rock tem essa conexão com a política, com a força e a expressividade. É preciso que os shows tenham um contexto, então, trazer o Black Pantera significa colocar o festival dentro do contexto atual e de um discurso. Não é que a gente quer que o público concorde ou não com o discurso do Black Pantera, mas, querendo ou não, é importante mostrar um posicionamento e é isso que estamos trazendo agora, uma banda conectada com seu tempo, com o que está acontecendo, com pautas delicadas e que precisam ser discutidas. Se um festival não tem um propósito político, se torna apenas uma festa de entretenimento.
Nesta edição vocês conseguiram uma atração internacional, que é o nigeriano ChingyKlean. Como foi feita essa conexão entre vocês?
Uma das metas nessa edição de 2025 era um headliner internacional. Só que era uma meta muito difícil, então tínhamos umas outras metas, como um headliner pro público infantil, o que a gente conseguiu com a Tiquequê. Não conseguimos todas, mas nos aproximamos delas. Trazer uma atração internacional, mesmo que não seja como um headliner, compôs bem a programação. O ChingyKlean foi um artista que assistimos na Semana Internacional da Música, em São Paulo, e foi uma coisa natural, porque achamos que é muito importante essa conexão da Bahia com os países africanos. A música africana é uma música muito rica e vários estilos baianos têm se apropriado e adaptado dela.
E o que o público pode esperar desta edição comemorativa? Algum diferencial em relação às anteriores?
É muito difícil apresentar coisas novas relacionadas à estrutura porque é um festival que ainda tem um orçamento bem pequeno. Não dá para prometer grandes inovações em termos estruturais, até porque a edição do ano passado foi a primeira neste formato com dois palcos e shows intercalados no Centro de Cultura, utilizando a área externa do espaço e ela já deu um funcionamento inicial muito bom, é um formato muito novo para já mudar de cara. Eu acho interessante, inclusive, manter esse mesmo formato para consolidá-lo e testar ainda mais as suas potencialidades e aí, nos próximos anos, pensar em mais e mais invenções e mais novidades para apresentar para o público.

Chegar aos 15 anos já é uma conquista rara no cenário musical independente. Quais são os próximos sonhos para o festival?
A gente não pensa em uma expansividade muito grande em termos de público, porque três mil pessoas por dia em um festival de música autoral já é um público muito grande. Mas talvez ir para o [Espaço Cultural] Glauber Rocha nas próximas edições seja um caminho muito interessante para que a gente possa desenvolver essas ações para além da música, porque o Centro de Cultura é muito apertadinho e não tem nem como colocar muitas ações, tudo que a gente coloca ali pode diminuir a capacidade de público no espaço. Se eu coloco um estande, já são cem pessoas a menos que eu vou poder colocar na capacidade. E como eu falei, uma das grandes pretensões para as próximas edições é um headliner internacional. Acho que Vitória da Conquista tem um potencial para receber essas atrações internacionais, nem que seja uma por edição, e nós temos tudo para conseguir fazer isso.
E quais nomes estão no radar para ser esse headliner internacional?
Tem vários, e inclusive já estamos em contato para ver a possibilidade. Julian Marley [filho de Bob Marley] seria incrível para a gente. Tem a Mayra Andrade, que é uma artista de Cabo Verde que também está muito conectada com a nossa proposta e que já fez outros shows em Salvador, há alguns contatos com esses artistas. E também artistas do metal, nós já tivemos experiências bem sucedidas nessa linguagem, mas com um headliner ainda não. Nós temos diálogos com Nightwish e a com Sonata Arctica, que são bandas que tem um público gigantesco no metal e é um estilo que vem se renovando também. São algumas das possibilidades…

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo.
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