Na despedida de Porto Alegre, Planet Hemp toca clássicos e recebe no palco Da Guedes e Edu K (Defalla)

texto de Homero Pivotto Jr.
fotos de Billy Valdez

A chance de vermos novamente o Planet Hemp ao vivo esgota-se, em princípio, com o fim da “Última Ponta” – nome apropriadamente escolhido para a derradeira turnê, que está enfumaçando o Brasil desde setembro. Mas, enquanto a chama não se apaga – ou a baga não queima o beiço (embora hoje em dia isso ocorra com menos frequência, já que geral usa piteira e assemelhados) -, os maconheiros mais famosos do Brasil percorrem o território nacional com a gira que precede o encerramento das atividades.

Em Porto Alegre, o emblemático grupo de rap-rock’n roll-psicodelia-hardcore-ragga promoveu barulho & brisa pela última vez na noite de 4 de outubro, na KTO Arena. O local é o antigo Pepsi on Stage, palco de uma das reuniões do conjunto, em 2012, em meio ao hiato intermitente desde a primeira pausa nos trabalhos, no já longínquo 2001. De lá pra cá, o Planet protagonizou outros três retornos (2003, 2010 e 2016). Agora, conforme declarações, ainda que os cães sigam ladrando, a caravana vai parar.

“É nosso último show em Porto Alegre e é um dia importante pra caralho. Essa cidade é importante pra gente”, lascou o vocalista Marcelo D2, em algum momento das mais de duas horas de apresentação na capital gaúcha.

Para seguir com esta resenha, o escriba parafraseia – e adapta – os sagazes homens-fumaça: acenda um e leia o que eu vou lhe escrever. ‘Dig Dig Dig’ (faixa da qual foi tirada a citação da frase anterior), inclusive, foi a que abriu o show. Antes de o conjunto tocar, os telões exibiram uma espécie de retrospectiva. Eram imagens de momentos marcantes da história (como a ditadura no Brasil e outros regimes totalitários) e da cultura pop (cenas do filme “Cheech & Chong”, por exemplo) que se cruzam com a trajetória do Planet Hemp. Foram cerca de 20 minutos de conteúdo na tela – o que pareceu um tanto demasiado in loco.

Enquanto o vídeo mostrava essa miscelânea de informações e algumas explicações, o áudio rodava bandas que são influência para as estrelas da noite (como Sonic Youth e Beastie Boys). Aliás, outras homenagens a artistas que ajudaram a moldar a estética sonora e visual do grupo foram feitas, como destacado mais além aqui no texto. Durante o espetáculo, além das projeções dos músicos tocando – captadas e exibidas ao vivo –, ainda rolaram outras intervenções com narrador e/ou vídeo (uma delas foi de um famoso telejornal anunciando a prisão do Planet em Brasília, no ano de 1997).

Em ação, D2 e os comparsas BNegão (vocal), Formigão (baixo), Nobru (guitarra), Pedrinho (bateria) e Daniel Ganjaman (produtor e multi-instrumentista) mostraram desenvoltura e entrosamento, com formação complementada por percussionista, DJ e um trio de metais – o que conferiu peso e autenticidade para a mistura sonora do grupo, com alguns arranjos diferentes das versões originais.

O palco, assim como na última passagem pela capital (leia aqui), foi simples e funcional: só os instrumentos, um sofá e uma iluminação muito bem pensada e executada, com equipamentos de luz bem posicionados. Isso realçou a força da performance e a consequente animação do público.

O repertório foi um desfile de hits de todos os quatro álbuns: “Usuário” (1995), “Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára” (1997), “A Invasão do Sagaz Homem Fumaça” (2000) e “Jardineiros” (2022) – este último vencedor do Melhores do Ano Scream & Yell e também de dois Grammys latinos em 2023 (Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa e Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa).

Teve “Ex-quadrilha da fumaça”, “Fazendo a cabeça”, “Distopia”, “Taca Fogo”, “Adoled”, “Cadê o Isqueiro”, “Queimando Tudo”, “Stab”, “A Culpa é de Quem”, “Mantenha o Respeito” e outras tantas composições que ainda fazem a cabeça da galera. Destaque para os momentos hardcore com alta rotação nas rodas punk ao som de “100% Hardcore”, “Seus Amigos”, “Procedência C.D” e “Salve, Kalunga”.

O diferencial da apresentação em POA foram as participações especiais/homenagens. Os rappers locais do Da Guedes dividiram o microfone com o Planet em “Zerovinteum” e ainda ganharam espaço para as autorais “POA” (“mais uma noite em Porto Alegre e tá tudo bem / O relógio tic-tac, a hora eu não sei”) e “Bem Nessa” (“Chega, respeita! Chega e representa!”).

Em seguida, foi a vez de Edu K participar do baile. Diretamente do gargarejo, o cantor do DeFalla subiu ao palco, puxado por D2, para cantar dois clássicos de sua antiga banda, o Defalla: “Não Me Mande Flores” e “It’s Fucking Boring to Death”. Outro tributo foi a já tradicional releitura de “Samba Makossa”, de Chico Science & Nação Zumbi, responsável por uma atmosfera emocionante.

O Planet Hemp continua queimando tudo até 15 de novembro, na cidade de São Paulo, quando incendeia o Allianz Parque com a gig final. Há datas em Florianópolis (12/10), Goiânia (17/10), Brasília (18/10), Belo Horizonte (31/10) e Rio de Janeiro (8/11).

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.
– Billy Valdez é pai da Kaáka, fotógrafo, videomaker, integrante do Coletivo Catarse e baixista da Diokane

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