texto de Fabio Machado
fotos de Fernando Yokota
Aos 52 anos e com uma história que junta pioneirismo musical, protesto, festas e tretas, o hip hop segue firme e forte como trilha sonora de diferentes gerações. Uma amostra disso foi vista na Audio (SP), que já estava cheia bem antes de começar o show do De La Soul, conjunto lendário por subverter os próprios limites estéticos do estilo ao criar clássicos como “3 Feet High and Rising” (1989). Ainda no começo da noite, muitos já ocupavam a pista, decorada por telas de LED que mostravam imagens e fotos dos integrantes do De La Soul, enquanto outros ainda estavam no “esquenta” do lado de fora da casa. A abertura começou com DJ Nuts, que incluiu em seu set sons de nomes como Snoop Dogg, Notorious BIG e Beastie Boys. Às 21h52, o logo de Zudizilla já estava no telão da Audio. O rapper gaúcho subiu acompanhado apenas pelas pickups de DJ Nyack, e teve o desafio de animar um público quase que totalmente interessado na atração principal.
Mas Zudizilla é também fã (inclusive confidenciando que trouxe LPs para serem autografados pelo De La Soul), e se mostrou honrado e feliz por estar celebrando a continuidade do hip hop, numa tradição que pode ter começado nos Estados Unidos, mas que hoje em dia tem nomes do Brasil e do resto do mundo criando e agregando coisas novas ao estilo. “Quem acha que não tem hip Hop novo tá ouvindo as coisas erradas” afirmou em certo momento, numa pausa entre temas próprios como “Thetahealing” e “Matrix”, que aos poucos foram contagiando os presentes.
No fim das contas, era uma grande celebração à cultura hip hop, o que se mostrou ainda mais evidente quando Zudizilla chamou ao palco a rapper paulistana Stefanie para uma participação. Nascida e criada em Santo André (SP), ela trouxe uma bem-vinda dose de energia no palco, com destaque para “Mulher MC”, que fala justamente sobre a escolha de Stefanie por sua profissão de fé na música. Igualmente satisfeita por estar trazendo seu trabalho em uma noite histórica, ela reforçou a parceria com o rapper gaúcho e trouxe um belo fechamento para a primeira apresentação.

Já passavam das 23h e por enquanto nada de De La Soul, mas a pista estava entretida com o segundo set de DJ Nuts, com mais clássicos por vir: “Jump Around” (House of Pain) realmente fez todo mundo sair pulando. A essa altura a casa já estava lotada e esfumaçada aguardando os norte-americanos, mas após alguns minutos o set do DJ Maseo já estava a postos, e o próprio (nascido Vincent Lamont Mason Jr.) iniciou os trabalhos da noite perguntando: “Vocês estão prontos para festejar com o De La Soul essa noite?” A resposta foi a animação generalizada de todas as pessoas na pista, e com a chegada de Posdnuos no palco, a Audio virou uma grande festa, que já começou com “Change in Speak”, “Eye Know” (com seu sample tirado de “Peg”, do Steely Dan) e “Say No Go”, canções que fazem parte do “3 Feet High and Rising” e que provavelmente emocionaram muitos ali que eram jovens quando o disco saiu.
O espírito de festa é um lance levado a sério pelo grupo a todo momento, se dirigindo ao público como “party people” e reforçando a importância de se divertir naquela noite. Até mesmo um “FUCK TRUMP” não abalou Posdnuos, que desconversou sobre as implicações políticas em vigor no seu país (que infelizmente afetam o resto do mundo) e seguiu o baile mantendo todos os clichês da interação público-artista: botem suas mãos pro ar, vocês estão animados hoje, e por aí vai. Não que isso seja uma crítica: num ano como 2025, talvez seja necessário ter uma pausa de tempos em tempos para respirar e lembrar como é se divertir curtindo um som.

E a diversão veio, com temas de outros cantos da discografia como “Pass the Plugs”, “The Grind Date” e “Oooh”. Era quase meia-noite quando a dupla se fez trio novamente, com a chegada do convidado Talib Kweli – mais um representante da nova escola do hip hop e autodeclarado fã do De La Soul, que estava ali para formar o “número mágico” que representa a formação inicial, com Trugoy the Dove (falecido em 2023). Kweli seguiu no palco até o final, somando em “Stakes is High”, “A Roller Skating Jam Named Saturdays” e em outras músicas de sua autoria.
O clima era de festa no palco, mas na pista alguns já demonstraram cansaço e começaram a sair do local. Afinal, a essa altura passou da meia-noite (o show foi agendado para uma quinta-feira) e daqui a algumas horas boa parte ali iria levantar cedo para trabalhar, certo? A comunicação de Posdnuos também não ajudou muito, com algumas piadas e pedidos não sendo bem compreendidos de cara pelos presentes, como na interação entre homens e mulheres em “Dinninit”. Mas tudo bem, ainda tinha muita gente dançando e aguardando o restante do setlist, pois ainda havia outros clássicos de fora.
E não demorou muito para eles surgirem: “Rock Co.Kane Flow” e “Me, Myself and I” foram alguns dos pontos altos da noite, levantando quem estava cansado e preparando os espíritos para o encerramento com a essencial “The Magic Number”. Antes disso, ainda houve tempo para comemorar o aniversário de 50 anos de Talib Kweli, com direito a parabéns cantado pela platéia.Foi uma grande comemoração do início ao fim, que atesta não só a força do De La Soul, como representa a longevidade do hip hop, que segue firme e forte, “vivão e vivendo” pelas rimas de quem estava lá no início…

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/