texto de Ismael Machado
Nova minissérie da HBO/Max, “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” (2025) é um dos projetos audiovisuais brasileiros mais impactantes desse ano. Dirigida por Marcelo Gomes e Carol Minêm, com roteiro de Patrícia Corso e Leonardo Moreira, a produção resgata um momento da história recente do Brasil que costuma ser silenciado: a epidemia de AIDS nos anos 1980, tratada aqui não apenas como uma crise sanitária, mas como um campo de batalha político, afetivo e social.
O enredo acompanha Fernando (Johnny Massaro), um comissário de bordo diagnosticado com HIV, e seu grupo de amigos que, diante da negligência do Estado, decide contrabandear o AZT — único medicamento capaz de atenuar os efeitos do vírus na época. A partir dessa trama, a minissérie constrói um retrato duro e, ao mesmo tempo, profundamente humano de uma geração que precisou inventar formas de cuidado e solidariedade em meio ao preconceito e à omissão institucional.

O mérito maior da obra está na sua sensibilidade estética. Não há exploração melodramática da dor para além de seus limites (o que costuma ser raro), tampouco romantização da tragédia. A narrativa aposta em uma atmosfera quase documental, intercalando texturas visuais que evocam o período — como o uso de referências a VHS e 16mm — com uma direção de arte precisa, que coloca o espectador dentro de uma década marcada tanto pelo avanço da modernização quanto pela sombra do medo. O resultado é um equilíbrio raro entre rigor histórico e delicadeza emocional.
Outro ponto alto é a construção dos personagens. Mais do que vítimas de uma epidemia, eles são apresentados em sua complexidade. São jovens que amam, riem, dançam, trabalham e desejam — e que, por isso mesmo, tornam o drama ainda mais tocante. A atuação de Johnny Massaro é especialmente comovente, sustentada por um elenco que valoriza as nuances do afeto coletivo.
Entretanto, a minissérie não está isenta de fragilidades. Em alguns momentos, o ritmo se estende além do necessário, e certas passagens se repetem em sua tentativa de reforçar o peso da negligência estatal. Além disso, há a tendência em se buscar sempre atender a demandas identitárias para além do que pede a trama, como por exemplo, o inicio do romance entre as personagens de Bruna Linzemeyer e Duda Matte, ao final da série, que soa forçado e desnecessário. Ainda assim, essas pequenas quebras não comprometem o impacto geral da obra, que permanece vigorosa e necessária.

Ao fim e ao cabo, a minissérie tem uma importância que transcende a esfera audiovisual. Ao revisitar a luta contra a AIDS nos anos 80, “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” estabelece diálogos diretos com o presente: a persistência do estigma em torno do HIV, a precariedade do acesso à saúde em camadas marginalizadas e a forma como o descaso público amplifica tragédias coletivas. E nos lembra também descasos como o ocorrido durante a pandemia de Covid-19 pelo governo de extrema-direita brasileiro.
No fim, a minissérie não é apenas um exercício de memória. É um gesto político. Ela recorda que o cuidado e a solidariedade não “caem automaticamente” do céu nem do Estado, pois são construções sociais que exigem coragem, resistência e empatia.
“Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” é, portanto, mais do que uma minissérie — é uma obra de memória, denúncia e afeto, que se coloca como importante ponto de inflexão do audiovisual brasileiro contemporâneo.
– Ismael Machado é escritor, jornalista e, por que não, cineasta. Publicou cinco livros e é ganhador de 12 prêmios jornalísticos. Roteirista dos longas documentários “Soldados do Araguaia” e “Na Fronteira do Fim do Mundo” e da série documental “Ubuntu, a partilha quilombola“.