por Homero Pivotto Jr.
Já pode despertar o Billie Joe Armstrong do Green Day (lembram que ele fez um som chamado “Wake Me Up When September Ends”?). Bueno, como não temos o contato do cara, deixamos para outra pessoa a tarefa de avisar o frontman que o mês nove findou. Por aqui, damos continuidade à nossa saga de divulgar a produção autoral de música do Rio Grande do Sul para além dos pagos de origem. Reforcemos que focar em composições criadas em terras gaúchas é porque trata-se de um recorte mais factível de cobrirmos, já que estamos inseridos nele. Abaixo, listamos alguns dos lançamentos que destacamos em mais esta edição da coluna mensal do Novo Rock Gáucho no Scream & Yell (e a nossa playlist)
– “Clichê”, da Demure – O quarteto pop punk Demure, de Rio Grande, disponibilizou “Clichê”, single de personalidade que mostra as referências melódicas costuradas com um conceito bacana. Alguns podem achar lugar comum versar sobre sentimentos, ainda que de forma poética e subjetiva, mas isso ainda é ousadia para os que têm coragem. Eis o que a banda tem a dizer sobre a música:
“Cliché” nasceu de estudo, trabalho, colaboração e da química que só acontece quando uma banda inteira está conectada. É uma música que cresce nos ensaios, que surge do momento, mas carrega um pouco de cada um dos integrantes. A letra, escrita pelo guitarrista Edemar Falcão, fala sobre relações platônicas, sobre a espera e sobre não querer estragar o tempo das coisas, mas ainda assim sentir. É aquela sensação de ficar preso aos pensamentos sobre alguém, mesmo sabendo que provavelmente nada acontecerá. É o clichê que muita gente já viveu: se perder nos sentimentos e nas lembranças de algo que talvez nunca tenha existido, mas que ainda assim pesa no peito. É um desabafo que não dava para mandar na DM – só podia sair em música. Meio brega, meio intenso, mas exatamente como Edemar se sente.”
– “Duelo”, de Jimi Barba – Mais recente lançamento do músico Jimi Barba, de Caxias do Sul, “Duelo” é uma música instrumental que transita entre o rock e o blues. Na faixa, Jimi Barba toca guitarra, violão, contrabaixo e bateria. O som foi gravado em 2018 para a trilha da peça de teatro “Um Cidadão de Bem”, de Leandro Coimbra, trabalho apresentado na Casa da Praça, em Novo Hamburgo, e no Festival de Teatro Art In Vento, em Osório.
– “Alucinação”, da Pedra Lunar – O quarteto psicodélico Pedra Lunar lançou o single “Alucinação”, o terceiro de sua trajetória.
– “Quem por Nós?”, de Matheu Corrêa – “Quem por nós?” é um questionamento sobre engajamento e ideia de coletividade a partir de vivências de um artista que habita a periferia da região metropolitana de Porto Alegre. A produção musical é de Edo Portugal e conta com bateria de Felipe Santos Pinto, baixo de Filipe Narcizo, sopapo (tambor típico da cultura afro-gaúcha) de Edu do Nascimento e teclado de Maurício Tubs. A faixa conta com videoclipe dirigido por Luiz Argimon e fotografia de Fabrício Costa Cantanhede, e foi viabilizado por meio do Edital n° 001 / 2024 – Fomento Direto à Execução de Projetos Culturais de Audiovisual pela Secretaria de Cultura de Viamão. O videoclipe é uma imersão no trajeto que vai do centro de Porto Alegre até a divisa com a cidade de Viamão. Ao longo do caminho transbordam as vivências e questões do artista.
– “Entre o Real e a Ilusão”, da Lençol de Mosca – Acelerado, sujo, curto e direto ao ponto! Assim é “Entre o Real e a Ilusão”, EP de estreia da banda Lençol de Mosca (Canoas). São quatro sons em menos de cinco minutos. Misturando punk e hardcore, principalmente da safra nacional dos anos 1980 (tome como referência Cólera e os primeiros registros do RDP), o registro destila raiva em forma de som, com discurso consciente – e contundente. A gravação foi realizada este ano, no Trilha Hub Cultural, em Sapucaia do Sul. Segundo o vocalista e baixista Felipe Arnt, a captação foi feita com a banda tocando junto, ao vivo, apenas com as vozes registradas em separado. A produção, mixagem e masterização são de Jeferson Marchetto “Bolha” e Rodrigo Rysdyk.
– “Ciclos”, de Carlos Zanettini – Carlos Zanettini é figura instigante no cenário independente da Portinho (nem tão) Alegre. Com um som que, grosso modo, transita de Swans a Nick Cave, o artista extravasa em suas composições – musico e liricamente – a intempestividade da vida hodierna. Em “Ciclos”, novo single, não é diferente. Sobre a faixa, Zane esclarece:
“Ciclos” é o segundo single do próximo álbum de Carlos Zanettini, dessa vez acompanhado da banda Zanettini, formada por Leonardo de Oliveira (guitarra), Maria Benincá (teclado) e Álcio Villalobos (bateria). “Ciclos”, especificamente, trata daqueles momentos em que mudar já não é mais uma opção, é uma condição sine qua non para sobrevivência. É um rock tenso, pós-punk, mas que exala uma energia de quem segue há anos no underground e já não tem mais os arroubos de outrora. É sobre encontrar conforto em meio ao caos e não se deixar sugar por ele.”
– “PU”, da Viana Moog – A Viana Moog marca sua volta à cena com o lançamento de um novo EP, reunindo faixas que trazem sua sonoridade característica, agora mais madura, consistente, contida e marcada por uma perspectiva introspectiva. Intitulado “PU”, palavra que significa “barulho” em tupi, o EP apresenta quatro canções (incluindo os dois singles já lançados, “Íris” e “És”) de noise-pop com letras-slogan sobre paixão, psiquismo e relações humanas além do mundo virtual. “Talvez possamos dizer que o assunto do disco seja: apesar das câmeras. Eu não me importo em me machucar e quero viver”, resume Cidade. Gravado da forma mais natural possível no Estúdio Meia Boca, em São Leopoldo, “PU” transmite a mesma intensidade das apresentações ao vivo da banda. A produção foi realizada em parceria com o produtor Mario Arruda (guitarrista e vocalista da Supervão), responsável também pela mixagem, masterização e pela regravação de vocais em alguns trechos. O projeto gráfico é assinado por Diego Gerlach.
– “AVGN ao Vivo na Rádio Agulha”, da Supervão – A banda Supervão lançou o EP “AVGN ao Vivo na Rádio Agulha”, com quatro faixas gravadas nos túneis subterrâneos de Porto Alegre, debaixo da antiga chaminé do Shopping Total — local que hoje abriga a Rádio Agulha. O registro foi feito antes de a rádio existir oficialmente, mas no mesmo espaço, e marca a primeira vez que a formação atual com quatro integrantes foi captada ao vivo, trazendo versões de músicas do álbum “Amores e Vícios da Geração Nostalgia” (2024). O disco de estúdio mais recente da Supervão entrou na lista dos 20 melhores álbuns nacionais do ano pelo Minuto Indie, apareceu entre os 50 melhores no Hits Perdidos e foi destacado em quarto lugar no ranking nacional da Popload.
– “Nem Tudo É Sobre Amor”, da banda Quem É Você Alice? – A banda Quem É Você Alice? lançou o álbum “Nem tudo é sobre amor”.
– “Ana Plá, Você Tem que Parar” – O documentário “Ana Plá, Você Tem que Parar” conta um pouca da história de Ana Plá, vocalista e líder da banda Transmissão Beta, que está despontando no cenário alternativo nacional. A produção audiovisual é dirigida pela jornalista Ananda Zambi
– “Punk Rock na Viola”, da banda ICH – A ICH, de Canoas, lançou o single “Punk Rock na Viola”. O som foi captado e produzido por Davi Pacote no Estúdio Hill Valey e tem participação especial de Denis Cardoso (da CxFxC) no backing vocal A arte, carregada de símbolos que representam algumas das inspirações que permeiam composições da bandam, é de Adilson Lima – artista com o qual o grupo mantém uma parceria há alguns anos.
– “Brazapunk”, da Flor ET – A Flor ET, banda porto-alegrense hoje radicada em São Paulo, lançou seu segundo álbum. “Brazapunk” traz 10 faixas e, segundo a banda, “é uma celebração à liberdade artística e uma provocação ao mercado”, bem como “um chamado à transgressão dos padrões, à experimentação e à originalidade”. O registro é cheio de riffs de guitarra e saxofone, sintetizadores imersivos e groove marcante que criam um universo único, potente e vibrante que balança até headbangers. A música ‘QSF’, que abre o disco, mescla rock, surf music e rap. Dá espaço ainda para um solo eletrizante de hammond com boas pitadas de blues. A letra ácida, narra os fatos ocorridos no dia 8 de janeiro de 2023, data a qual a gangue do “surto coletivo” invadiu o planalto central impulsionados pela manipulação daqueles que ferem a nossa democracia. É do disco também o single, “O Corre”, que marcou a estréia da nova fase do banda, o qual manteve a temática de luta nas composições, agora agregando mais punch ao “tropicalismo punkeado” do grupo. “Cansada”, single mais recente tem o mesmo “tom”, mas trazendo de forma mais subjetiva a dor de pessoas enquadradas como minorias e também de todo trabalhador desprovido de “sobrenome”. A produção é assinada por Alexandre Birck (Estúdio Sangha/RS) e Barral Lima (Ultra Estúdio/MG).
– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.