entrevista de Marcelo Costa
Após três edições elogiadas, o Circuito Nova Música, Novos Caminhos, prepara mais uma maratona de quatro dias, quatro shows em quatro cidades. Dessa vez, o roteiro se inicia em São Paulo (9/10 no Cineclube Cortina) e irá passar por Sorocaba (10/10 no Asteroid Bar), Americana (11/10 no Espaço GNU) e Campinas (12/10 no Tetriz Pub). No bonde da quarta edição estarão presentes Pelados, Nina Maia feat. Francisca Barreto e Chococorn and the Sugarcanes, além de Kim & Dramma (São Paulo), Pobre Orfeu (Sorocaba), Lighthouse (Americana) e Paralelo ao Fim (Campinas).
Como adiantou Lucio Ribeiro, curador e um dos sócios do Circuito, em conversa com o Scream & Yell em abril, a gênese do projeto nasceu em uma viagem que o jornalista fez em 2023 para a Alemanha, visando não apenas conhecer a cena local, mas observar como ela funcionava, e o que poderia ser replicado no Brasil. Colocado em prática em janeiro de 2025 (com Madre, Batata Boy e Supervão), e replicado em abril (com Jadsa, Fausto Fawcett e Maré Tardia) e agosto (com Dora Morelenbaum, Vera Fischer Era Clubber e Iorigun), o Circuito Nova Música, Novos Caminhos é, nas palavras de Lúcio, “um aprendizado constante”.
Na conversa abaixo, Lucio Ribeiro conta como está sendo a experiência de gerenciar esse projeto mutante (“Não sei se dá essa sensação pra quem está de fora, mas pra gente a coisa vai sempre mudando”, explica), e afirma que “o Circuito nasceu pra ser o começo de uma coisa maior do que ele é”. O curador ainda detalha as motivações que o fizeram escolher Pelados, Nina Maia feat. Francisca Barreto e Chococorn and the Sugarcanes, lista alguns shows favoritos das edições anteriores, mas faz questão de reforçar: a riqueza do Circuito está conectada muito mais a experiência de colocar bandas para circular juntas por quatro dias, e tudo que acontece nesses encontros. Leia o papo!

O Circuito debutou em janeiro e agora está chegando a sua quarta edição. Antes de falar da edição que acontece a partir de 9 de outubro, conta um pouco de como foram essas três primeiras edições: era tudo aquilo que você estava imaginando? Como foi rodar com esses nove artistas e quais shows mais te surpreenderam?
Está sendo um aprendizado de todos os lados, porque é um projeto que começou do zero. Eu nunca tinha feito essa experimentação de viagem, de trip, com banda… que é algo super diferente das coisas do Popload. E está sendo incrível. E é engraçado porque da primeira para a segunda edição, a gente teve vários problemas, mas melhorou um tanto. Da segunda para a terceira a gente melhorou ainda mais, ainda com outros problemas novos e talvez alguns antigos. Só que a gente foi se aprimorando e crescendo, aprimorando e crescendo. Teve mais gente, mais experimentações, experimentações de logística. Porque o Circuito não é apenas você escalar bandas e as bandas tocarem. Tem toda uma lógica enorme por trás.
Antes de começar o projeto, a gente meio que fez um desenho: “A gente pode fazer isso aqui com site, a gente pode fazer isso aqui com tal coisa, a gente pode fazer isso aqui com sessions, a gente pode…”. Só que muita coisa escapou da mão, do pensamento, e surgiram outras novas. Então é um aprendizado constante. E agora, na pré-produção dessa quarta edição, um pouco antes dela acontecer, a gente já sente que já vai ser diferente. É uma coisa de crescimento mesmo. E está todo mundo crescendo junto, a cena em volta do Circuito está crescendo junto. Está sendo muito legal tudo, exatamente tudo.
Sobre os shows que mais me surpreenderam, na verdade, é assim… Obviamente, a gente escala bandas que a gente conhece, já viu o show, já experimentou, imaginou como poderia ser dentro desse esquema Circuito, de estar três bandas juntas viajando, mais uma banda local, uma noite com quatro shows… Mas, talvez, (o que importa) não (é) um show que tenha me marcado nominal, o que acho a riqueza do Circuito é a coisa de você, por exemplo, na primeira noite, quatro shows, as bandas… se encontram, todo mundo ainda no começo do rolê, um pouquinho de estranhamento, uma banda com a outra, uma banda com a produção, a gente com as bandas, todo mundo tateando, (tentando entender) como vai ser esse relacionamento, afinal além dessa primeira noite, tem mais três… e como vai ser isso?
Na segunda noite, o show já é mais legal que na primeira. Sempre o primeiro show é legal, ok, mas ainda não é “o show”, sabe? E vai crescendo do terceiro para o quarto. E chega no quarto, as bandas já poderiam sair de lá e ir para um palco bem maior ou ir para um festivalzão! Acho que já falei isso alguma vez… É isso que eu acho legal, a banda cresce nessa coisa! É tipo futebol, treinar, jogar, treinar, jogar, treinar, jogar, você vai crescendo, você vai criando o negócio.
Essa coisa das quatro noites seguidas é impressionante! Se um dia você puder, vai na primeira noite e na quarta, pra você sentir como eles evoluíram, como eles se entenderam, como eles têm uma exigência de si mesmos, de coisas tão frescas quanto as três noites anteriores, no caso do quarto show. Isso é o que eu acho legal. Agora, a gente fez shows maravilhosos e é até injusto citar alguns e deixar outros de fora, mas Jadsa fez um show maravilhoso! Dora Morellenbaum, que não é um show mega hiper do meu feitio, eu olhei e falei, “cacete, que coisa legal”, sabe? A molecada do rock que abre é sempre legal. A Supervão foi absurda, a Maré Tardia, o Fausto Fawcett, Vera Fischer… é injusto citar um. Mas (quero reforçar) essa evolução deles como banda, do primeiro ao quarto show, porque isso é uma função do Circuito que é legal, botar a banda pra ir pra rua, turnê mesmo, sabe? Acho que falta isso, muito por oportunidade, grana, e organização mesmo das bandas fazerem turnês mais apertadas. Lá fora, velhas bandas fazem 28 shows em 30 dias. Isso é muito legal.
A partir do dia 9 de outubro vocês iniciam uma nova maratona de quatro dias, quatro cidades e quatro shows por noite. Como foi chegar ao line-up dessa edição?
Ele vai sendo construído. Não é uma coisa que eu sento e falo três bandas… Por exemplo, eu gostava da Pelados, mas não tinha noção do quanto eu gostava deles, e daí me deram o disco novo (“Contato”, 2025, ouça acima), e eu fui ouvindo no caminho para a Circuito 3, em São José dos Campos, e achei um absurdo o disco na primeira ouvida! Terminei de ouvir adorando. Dai voltei pra São Paulo ouvindo e, no dia seguinte, fui pra Americana e, na estrada, o disco da Pelados de novo. E já fiquei pensando “como pode ser isso ao vivo? Acho que vi uns um ou dois shows da Pelados, lá atrás”, eu nem lembrava direito, mas falei, “putz, já quero a Pelados, pronto”.
Aí vamos pra próxima: estou querendo colocar a Chococorn (no Circuito) faz um tempo! Eu até já tenho uma história engraçada com eles porque eles são uma banda da Mais Um Hits, que pertence ao cara que é meu sócio no Circuito, e eles nunca pediram pra eu colocar o Chococorn – nem eles e nenhuma das outras bandas do selo deles, que seria super natural colocar, porque se ela está no selo, você confia, não requer muita conversação, mas eles não entraram no primeiro, no segundo e nem no terceiro, e quando chegou nesse, pensei na Chococorn, porque eu os vi ao vivo várias vezes. Inclusive, devido a essa minha proximidade com a Mais Um Hits, os caras me convidaram pra eu ir ver a Chococorn em Maceió e em João Pessoa, e aceitei na hora. Imagina o quão bizarro é você pegar uma banda super nova, do interior de São Paulo, de Santa Bárbara do Oeste, e vê-la tocando em Maceió e Aracaju!!! Eu precisava ver isso, e fui correndo!
A Chococorn me surpreende, eu aprendo com eles, chega a ser uma coisa de você confrontar tudo o que você sabe, desde os anos 90, a cena nova… eu sou um tremendo veterano, que trago os meus conhecimentos, minha bagagem, mas às vezes sou confrontado com alguma coisa do meu metiê que está acontecendo, e que eu falo “peraí, não tô entendendo direito isso aqui, deixa eu prestar atenção”, sabe. E a Chococorn é um instrumento meu de atualização do novo rock! Não que eles façam um som revolucionário, uma coisa que eu ache “uau, que foda”, mas é retrato de uma época, sabe, zeitgeist. E aí eu vou ver quatro moleques de Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo, autodenominado emo caipira, tocando em Maceió e João Pessoa, numa magnitude com os locais, numa representatividade nacional, e tudo faz sentido! E daí você vê uma pessoa e pergunta: “De onde você é?”. E ela responde: “Ah, sou de Recife, vim aqui em Maceió ver a Chococorn”. E você pensa: “Pera, tem alguma coisa acontecendo aqui. Está na hora de convidá-los para o Circuito”…
Dai, já tinha duas bandas de rock, cada uma no seu estilo, e achei que precisava de algo feminino, como sempre tem no Circuito, e algo que quebrasse isso do rock. E a gente pensou na Nina (Maia). Lembro que quando a vi pela primeira vez, foi no Studio SP logo no começo do pós-pandemia, quando as coisas ainda estavam meio esquisitas, e eu não tinha ideia de quem era ela, e a Francisca (Barreto) estava tocando violoncelo nesse show. Na hora pensei: “Nossa, o que está acontecendo aqui? Essa mina com essa voz, com a outra tocando violoncelo, que coisa bonita, que coisa indie, indie cult, alto nível”, sabe?
E foi legal que a Francisca Barreto tomou uma proporção diferente depois desse show que eu vi delas no Studio SP, as carreiras das duas tomaram proporções grandes, elas continuaram superamigas, mas cada uma com a sua carreira, alguns encontros, participações em disco, em show, mas tomaram um sentido diferente. Mas daí eu pensei: por que não juntar as duas de novo e refazer aquele show? Uma coisa legal do Circuito é que são quatro shows em quatro dias, e o artista não precisa estar com o show fechado, com a banda completa, é mais um recado mesmo (que ele vai passar ao público). Como são quatro bandas por noite, não tem como ser show de uma hora, uma hora e meia, porque tem muita banda pra tocar, e o recado precisa ser rápido. É diferente do que seria num Sesc ou no Lollapalooza.
Então cheguei pra Nina e convidei: “Que tal você tocar no Circuito?”. E ela achou demais! E emendei: “Que tal você levar a Chica?”. E ela foi falar com a Francisca e super rolou. É isso, temos um line-up!
Essa edição em outubro encerra o calendário da Circuito em 2025? E já olhando para o futuro, como você imagina a Circuito em 2026? O que vocês almejam conquistar?
Acho que mais do que imaginar que vira um ano, é imaginar que vai ter uma outra edição, e que a gente cresceu do primeiro pro segundo, do segundo pro terceiro, do terceiro pro quarto, e cresceu não fazendo mil shows com bandas gigantes, cresceu a gente mesmo, cresceu o conceito, cresceu a marca, dentro do que é o nosso tamanho, do que a gente se propõe. A gente mudou muita coisa, de bastidores mesmo. E as vezes a gente bate cabeça aqui, acerta ali, acerta onde não esperava acertar, erra onde tinha certeza que ia ser legal, e eu acho que a quinto edição vai refinar o que é o quarto, que já é um refino do que foi os outros três.
A gente tem uns certos planinhos, mas claro que tudo depende, estamos no Brasil, depende de grana, depende de acertos, depende de oportunidades, que a gente vai estar sempre atrás, mas a gente sempre cresce um pouquinho de algum lado ou de outro. O que posso dizer é que o Circuito nasceu pra ser o começo de uma coisa maior do que ele é, então é isso que a gente sempre vai buscar, seja pra conquistar uma coisa mais nacional, seja pra fazer ele em outros lugares, seja pra ele ser o esboço de algo que a gente ainda não enxergou, mas que a gente sabe que vai enxergar, porque ele é mega mutante. É impressionante e eu não sei se dá essa sensação pra quem está de fora, mas pra gente a coisa vai sempre mudando, é sempre um negócio mutante mesmo, nós somos os mutantes.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.