Entrevista: “Nossos inimigos são reais”, avisa o Violator, que retorna com o rápido e violento “Unholy Retribution”

entrevista de Bruno Lisboa

Em 2004, quando lançaram seu primeiro EP, “Violent Mosh”, o Violator foi apontado em review na respeitada Encyclopaedia Metallum como “uma das melhores bandas do revival thrash metal old-school”. Agora, quando apresentam “Unholy Retribution” (2025), seu terceiro álbum, a Metallum mantém os elogios à banda (“É um lançamento muito sólido e um dos melhores álbuns de thrash metal dos últimos anos”, observa o texto), mas pontua: “O Violator nunca recebeu o reconhecimento que realmente merece (…) e lançar álbuns com intervalos de 7 e 12 anos também não ajuda”.

Formado em Brasília em 2002, o Violator soma três álbuns (o anterior, “Scenarios of Brutality”, saiu em 2013), três EPs e alguns splits além de turnês que passaram por França, Paraguai, Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela, Japão, Bélgica e Itália. Se o ataque sonoro angariou fãs ao redor do mundo em 23 anos de história (o portal russo Ultimate Guitar chegou a apontar o Violator como a 30ª melhor banda de rock do Brasil em 2019), o texto afiado também merece atenção abordando do colapso de um mundo em ruínas à urgência de resistir às ideologias de extrema-direita.

“Acredito que esse novo disco, cujos temas giram em torno da vingança, só pode ser plenamente compreendido a partir desse trauma coletivo que foi a ascensão da extrema-direita fundamentalista no Brasil e do morticínio que a acompanhou”, avalia Poney Ret “Crucifier” (baixo e vocais), que tem como companheiros de banda Cambito “Chains Killer” (guitarra), Batera “Bone Crusher” (bateria) e Capaça “Bloody Nightmare” (guitarra), que estava vivendo na Europa quando “Unholy Retribution” foi composto “em parcos ensaios em algum vilarejo antes de um festival gringo”.

Unholy Retribution” foi produzido pelo belga Yarne Heylen (que tem um currículo extenso de trabalhos com bandas de death metal) e ganhou lançamento pelo selo Kill Again Records, tradicional na cena underground nacional. Na conversa que você lê abaixo, feita por e-mail, Poney fala do novo disco, confessa otimismo com o underground (“Por um momento parecia que nós e os dentistas de Harley Davidson íamos ser os últimos roqueiros – risos. Mas têm uma molecadinha chegando”) e diz que ainda se emociona “ao sair da minha cidade com minha banda, meus irmãos, minha gangue. É o Heavy Metal”.

Ouça o disco na integra abaixo e leia a entrevista!

“Unholy Retribution” marca o retorno da banda com um novo álbum cheio após um longo período. Como foi o processo interno – emocional e político – de construção desse trabalho em um momento tão turbulento para o Brasil e o mundo?
Acredito que esse novo disco, cujos temas giram em torno da vingança, só pode ser plenamente compreendido a partir desse trauma coletivo que foi a ascensão da extrema-direita fundamentalista no Brasil e do morticínio que a acompanhou. Ao mesmo tempo que esse período sinistro nos forçou a continuar com novas configurações (Capaça estava fora do país e boa parte das músicas foram feitas com um oceano de distância em parcos ensaios em algum vilarejo antes de um festival gringo), toda essa desgraça também foi combustível de fúria, que esperamos seja sentida no disco. É curioso você abrir com essa pergunta, porque da maneira que vejo, a história recente do país está completamente imbrincada com o disco. Também celebramos a derrota deles e o fim da pandemia, o ano de 2023 foi de muita viagem pela Sudamérica, o que pavimentou todo o caminho pra volta do Capaça e a gravação do novo disco em 2024. De toda forma, parece que chegamos em 2025 com esse sentimento da ameaça neofascista ainda viva e de um acerto de contas que não ocorreu plenamente, então acredito que o disco faz mais sentido do que nunca.

A escolha de trabalhar novamente com o Andrei Bouzikov na arte do disco dá uma sensação de continuidade estética. Como foi o diálogo com ele nesse processo? Que mensagem vocês queriam passar visualmente?
Interessante você comentar isso, porque a princípio não buscávamos essa continuidade e o Andrei não foi nossa primeira opção. De uma forma totalmente acidental, esbarramos em uma arte dele de uma igreja que passava exatamente o clima “classic metal” que buscávamos e percebemos que repetir a parceria era a opção mais acertada para a nova capa. Então, além dessa aura clássica, que pudesse remeter a discos do Slayer e Bathory, a gente buscava uma alegoria dessa “vingança do inferno” em uma cena que não tivesse o menor recato em agredir visualmente com clichês do heavy metal. Demônios, cruz de cabeça pra baixo, o que incomodar. Aquela capa pra você ficar ressabiado de mostrar pros colegas de trabalho ou na reunião de família (risos).

A produção ficou a cargo do Yarne Heylen. O que motivou essa escolha e como essa parceria influenciou o resultado final do disco?
A escolha (acertada) do Yarne veio das audições que Capaça fazia das bandas de death metal europeias, especialmente porque ele morava lá e estava vivendo e tocando nessa cena. Foi uma grata surpresa descobrir que Yarne era consideravelmente mais jovem que a gente, acredito que foi uma das forças dessa parceria que podem ser sentidas no disco: novas perspectivas de novas gerações e nossa abertura a isso. A presença (física) dele no estúdio foi um diferencial absoluto em toda a sonoridade. Em tempos de virtualidade total, foi uma alegria comprovar que o nosso ofício depende de pessoas de verdade, ouvindo, sentindo, fazendo. A gente sonhava muito em repetir a mítica do “Beneath the Remains”, de trazer um produtor gringo pra trabalhar com a gente no Brasil. Yarne morou duas semanas lá em casa e essa convivência intensa resultou nesse trabalho intenso. Agradecemos demais a Kill Again Records por bancar essa loucura nossa, mas acho que o resultado valeu a pena.

Vocês sempre se posicionaram à esquerda, de maneira clara e sem rodeios. Em um país marcado por retrocessos sociais e crescimento da extrema-direita, como vocês veem o papel do metal — e da arte de maneira geral — na resistência política?
Eu costumo dizer que nosso posicionamento foi uma ‘não-opção’, uma questão de dignidade. Crescer e envelhecer na periferia do capitalismo e não se dar conta da necessidade de tomar uma posição e se engajar em alguma ação coletiva me parece de uma alienação vergonhosa. Por outro lado, seria também ingenuidade acreditar num poder de transformação social de uma contracultura como heavy metal. Somos um gueto e gostamos de estar nele. De toda forma, ainda vale a máxima parafraseada do Paulo Freire: “música não muda o mundo, mas muda pessoas e pessoas mudam o mundo”. Fico feliz em usar o Violator como um instrumento que ajuda a amplificar nossas vozes sobre o que consideramos justo e a criar laços de comunidade. Isso já vale.

Muita gente ainda enxerga o metal como um espaço “neutro” ou até conservador, quando não abertamente reacionário. Como é militar artisticamente dentro de uma cena que muitas vezes se contradiz ideologicamente?
Acho que existe muito conservadorismo porque muitos coroas (da minha idade inclusive!) viraram tiozões conservadores. É mais uma questão geracional do que estilística, acredito. De toda forma, já estamos na peleja com esses bostas há muito tempo (a treta do “Foda-se Jair” foi em 2016, dois anos antes da eleição) e a verdade é que depois desse acirramento tudo ao redor da banda nesse período só melhorou. Os shows ficaram mais animados, meninas se sentiram mais a vontade pra colar e agitar, uma juventude diversa abraçou o Violator e uma verdadeira comunidade se formou ao redor da banda. Os cuzões ou aqueles meio suspeitos ideologicamente (nazi no armário, risos) pularam fora. E ainda tiramos onda com a cara deles. Então, valeu demais se posicionar.

O Brasil vive um momento peculiar no campo cultural: há incentivos e ao mesmo tempo censuras, há espaços para resistência, mas também silenciamentos. Como tem sido dialogar com esse Brasil atual a partir do underground?
Talvez eu seja um otimista irrecuperável, mas eu vejo com ótimos olhos o atual momento da produção underground que vivemos. Por um motivo em particular: há renovação. Por um momento parecia que nós e os dentistas de Harley Davidson íamos ser os últimos roqueiros (risos). Mas não, da pandemia pra cá estamos vendo uma molecadinha chegando, formando banda e tomando de conta. É isso que nossa (contra)cultura precisa. Empolgação da juventude e realismo dos velhos (mais risos). Digo realismo no sentido de ter tranquilidade de entender (e explicar aos mais jovens) que o heavy metal e punk sempre serão marginais no Brasil, ninguém vai fazer grandes fundos ou fama com isso e tudo bem, porque fazemos o que fazemos por amor. E tudo isso se realiza na ética do faça-você-mesmo, sem muita pretensão ou expectativa. Um outro aspecto da sua pergunta seria sobre apoios estatais, leis de incentivo e outras políticas culturais. Nós nunca fomos fãs de misturar o heavy metal com essas coisas e estamos de boa em continuar assim. Que esse incentivo seja muito bem gasto, merecidamente, com a Cultura Popular, o nosso barulho nossa comunidade dá conta.

Vocês já tocaram pelo mundo todo, mas Brasília segue sendo a base da banda. O quanto a cidade — com toda a sua carga simbólica e contraditória — ainda influencia na música e nas letras do Violator?
Excelente. Uma influência maior até do que eu poderia descrever, eu diria. Acredito que essa cidade, com todas as contradições evidentes, tem uma centralidade absoluta pra se entender o Violator. Pelas razões mais óbvias, de que aqui é o centro do poder e todo o teatro podre da política pode ser visto mais de perto por aqui. Nesses episódios recentes da tragédia da democracia brasileira fomos testemunhas oculares muitas vezes em corpo presente na Esplanada dos Ministérios. Mas para além disso, há também essa paixão por Brasília, um lugar de comunhão das pessoas de todos os lugares do país (em que o preconceito contra o Nordeste do próprio país parece mais diluído), um lugar que preserva ainda uma radicalidade de uma invenção disruptiva, mas totalmente brasileira, antropofágica. Eu gostaria que o Violas (Violator) representasse isso também em seus melhores momentos. E por fim, também porque acho que somos radicalmente brasilienses (mesmo os nascidos no Chile e no Ceará): maconheiros que não querem muita confusão (risos).

A cena metal brasileira atual tem mostrado sinais de renovação, com bandas novas surgindo e outras veteranas retomando atividades. Como vocês veem esse momento? Há uma nova geração disposta a somar forças ou ainda falta coesão?
Acho que pelas minhas respostas anteriores dá pra perceber como eu acredito totalmente nessa renovação. Em Brasília, há muitas bandas novas maneiras como AXION, MORBID DEVOURMENT, MURDERESS, ALCOHOLIC VORTEX, KCC… que boa parte dos integrantes é mais nova que o Violator.

Capa de “Unholy Retribution”

Voltando ao novo disco, o título “Unholy Retribution” carrega um tom de vingança, julgamento, algo que parece flertar com o apocalíptico — mas também com a justiça. O que motivou esse nome e como ele se conecta com as faixas do álbum?
Esse título é mesmo a síntese do álbum. Legal que ele foi dado pelo Roldão da Kill Again Records e não por alguém da banda. Foi uma grande leitura e tradução de um conceito, que às vezes a gente precisa que venha de uma perspectiva de fora mesmo. Como comentado no começo da nossa conversa, é um álbum sobre vingança. Se “Hidden Face” era um disco sobre o temor dessa ascensão fascista, de um exército que exalta a morte, “Unholy Retribution” é a perspectiva daqueles que viveram esse avanço, sobreviveram e querem dar o troco. Dentro desse arco são trabalhados temas específicos, do sionismo, aos experimentos nazistas de médicos na pandemia. O disco busca corporificar a revanche do inferno que esses crentes fundamentalistas mais temem (risos).

Muito se fala sobre a “volta do thrash”, mas o Violator nunca deixou de fazer música extrema, engajada e atual. Como vocês enxergam essa rotulação e qual é o desafio de manter a relevância sem abrir mão da identidade?
A gente abraça totalmente o rótulo (ou identidade, ou como queira chamar) thrash metal. O compromisso com a energia, a radicalidade, a intensidade desse subgênero está na gênese dessa banda e abrir mão disso seria abrir mão do próprio sentido do conjunto. Não inventamos nada e não queremos liderar nenhuma inovação. Inclusive a politização, algo de muito antes da gente. É thrash metal, é old school. É um som bronco de gente bronca? Tudo bem, aceitamos todas as limitações dessas escolhas. De toda forma, há um desafio muito interessante a partir desse ponto de partida que é como fazer um riff interessante, uma música relevante, em um estilo em que toda a gramática já está escrita e você não quer desrespeitar as regras. A diferença entre uma nova canção thrash boa de verdade e algo genérico. É quase intangível, difícil de explicar, mas fácil de sentir. Se a gente consegue ou não, cabe a quem ouve dizer.

Vocês sempre buscaram levantar questões maiores — sobre desigualdade, violência estatal, destruição ambiental. Como equilibrar o discurso político com a potência sonora?
Da maneira como enxergo, se feito com verdade, uma coisa alimenta a outra. A fúria do thrash vem de uma “união dos fracos contra os fortes”, tem a ver com a energia dos rejeitados, dos explorados, dos esquecidos. Quando mensagem e música entram em simbiose pra criar violência contra os opressores é quando o thrash mais brilha. Mesmo com toda a fantasia do heavy metal, nosso estilo tem os pés fincados na realidade. Não teria o mesmo efeito com nossos inimigos sendo dragões ou outras europezices medievais (risos). Nossos inimigos são reais, nós vivemos esses conflitos como brasileiros viventes nesse tempo e as letras expressam sentimentos reais. Então não há divergência entre música e mensagem, antes o contrário. As grandes bandas do hardcore-punk sempre tiveram essa força, carregar a mensagem com verdade, mesmo que algo juvenil. E a violência (e magia) da música acontecem nessa comunhão entre som e palavra.

Num tempo em que a música foi plataformizada, comodificada e muitas vezes reduzida a métricas de streaming, como é para o Violator compor canções que desafiam essa lógica e preservam intensidade, urgência e sentido político?
Obrigado pelos elogios. Os tempos são ruins (os piores em todo nosso tempo de vida) e na minha cabeça isso deveria ser um combustível danado para a nossa produção subterrânea. Infelizmente, o que parece mais comum é uma apatia generalizada frente a uma superprodução e superexposição na internet em tudo (um disco? Uma morte? Uma revolução?) perde seu valor dragado nesse mar de novidades inúteis e instantâneas. Acredito que se emancipar dessas redes e plataformas (controladas por 5 bilionários gringos) é o maior desafio do underground nos próximos anos. Eu não saberia apontar qual o melhor caminho pra isso, acho que esse é um desafio coletivo de toda uma nova geração e a resposta vai surgir dessa coletividade. Da minha parte, fico muito feliz e aliviado do Violas já ser uma banda de uma geração mais velha que não precisa gravar selfie de vídeo nem tentar ser influenciador, e torço pra esse momento passar logo.

Para além do disco, há planos para turnê nacional ou internacional? Como está a expectativa de colocar “Unholy Retribution” no palco?
Devemos fazer os primeiros shows de lançamento em Brasília e São Paulo em dezembro de 2025. Estamos muito animados, acho que vamos conseguir fazer algo realmente especial nas duas cidades pra que esse momento seja celebrado à altura. Ainda estamos desenhando a “Unholy Tour”, que deve rodar a Sudamérica em 2026. Começar tocando pelo nosso querido continente e naquele ritmo dos 40 anos, então não deve ser muito, vamos com calma (risos). Eu gostaria muito de levar esse disco (e a banda) a continentes que nunca passamos, como América Central, África e Sudeste Asiático. Mas isso ainda são sonhos que eu declaro aqui mais lançando uma flecha ao futuro.

Por fim, o que ainda motiva o Violator em 2025? O que ainda arde dentro de vocês e faz com que sigam na ativa?
São 23 anos depois e eu ainda me pego com sangue fervendo quando escuto um riff do Capaça e a entrada do Batera. Eu ainda me emociono ao sair da minha cidade com minha banda, meus irmãos, minha gangue. Pra gente encontrar outros como nós, pra gente tacar fogo no mundo por aí. E ainda sinto uma satisfação gigante quando vejo os ataques histéricos dos bolsonaristas (ou mais recente de gringos sionistas) e essa diferença grita: nós não somos como vocês. É uma paixão irracional, que talvez não valha tentar explicar com palavras (mais do que usei até aqui). É o Heavy Metal.

  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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