Crítica: “Rainy Sunday Afternoon”, do Divine Comedy, é um álbum pesado sobre o sentido da vida

texto de Matteo Maioli

Neil Hannon ainda é uma aposta certa. Na capa de “Rainy Sunday Afternoon” (mais um retrato fantástico de Kevin Westenberg), seu 13º álbum, lançado em setembro, o vemos pensativo, mas calmo, tomando um café, extremamente elegante, um dândi maduro. Afinal, na era pós-Covid-19, ele compôs a música de dois filmes de sucesso, “Máquina do Tempo” (2022) e, principalmente, “Wonka” (2023), o que lhe garantiu o orçamento para gravar o novo álbum do Divine Comedy em Abbey Road. “Rainy Sunday Afternoon” é um disco pesado sobre o sentido da vida.

Foram dez dias de ensaios e dez dias de gravação, supervisionados por Tom Bailey. Cerca de trinta músicos estão envolvidos em uma obra menos eclética e animada do que “Office Politics”, de 2019. Colocadas lado a lado, parecem fases diferentes da vida: o experimental Hannon dá lugar ao cantor mais no estilo de Scott Walker e Burt Bacharach, que fala de amor, perda e da passagem do tempo e do destino, como na abertura “Achilles”. Em paralelo com o épico grego (veja o clipe abaixo), a dramática história do poeta Patrick Shawn-Stewart, que morreu lutando na Primeira Guerra Mundial, é contada. Musicalmente, porém, a canção é animada, anos 60, como se concebida por Lee Hazlewood.

Outra história, mais pessoal e cruel, é a de um pai com Alzheimer, protagonista de “The Last Time I Saw the Old Man”: o arranjo destaca atmosferas barrocas e jazzísticas à la Air e Serge Gainsbourg, com um magnífico solo de flugelhorn, para letras chorosas: “His hands seemed so fragile and grey / I was worried I might break them […] He was talking very strangely / In ever decreasing circles.”

A faixa seguinte, “The Man Who Turned Into a Chair”, embala o ouvinte como se estivesse passeando às margens do Rio Sena e discutindo com sua amada, enquanto “I Want You” é guiada pelo piano de Andrew Skeet em direção a um coro de rara intensidade que destaca a voz comovente de Hannon em um floreio final de harpas, violinos e metais.

A faixa-título, com pegada radiofônica e ao estilo McCartney, abre uma seção intermediária do álbum, mais cinematográfica (a excelente “Down the Rabbit Hole”, uma mistura de glam e psicodelia) e até infantil (“All the Pretty Lights”, também conhecida como Christmas in London), antes do exotismo new wave de “Mar-a-Lago By the Sea”, uma mistura de Magnetic Fields e Style Council. Você já deve ter notado que é impossível não mencionar todas as músicas: no entanto, são as últimas que realmente se destacam…

Chegamos à faixa número 9, “The Heart Is a Lonely Hunter”, que traz o nome de um romance de 1940 da escritora norte-americana Carson McCullers, adaptado para um filme que foi indicado a dois Oscars em 1968 (“Por Que Tem que Ser Assim?, de Robert Ellis Miller).

Aqui estão cinco minutos igualmente perfeitos. Lento e acústico, cada segundo calibrado para o próximo. Palavras simples sobre o amor que todos nós já experimentamos, “The Heart Is A Lonely Hunter / Battling The Wind And Rain / How Far Must We Wander / How Long Must We Wait”, e uma tensão liberada em uma coda instrumental arrepiante, um loop imperdível, que encapsula o significado de toda a obra.

A delicada “Can’t Let Go” se conecta com “Invisible Thread”, que remete a Laurel Canyon no começo, transita para Pulp e finalmente se torna uma sinfonia folk-pop de um amor capaz de superar todas as batalhas e distâncias. Sua filha Willow participa do microfone. Tudo muito lindo: obrigado, Neil.

Ps. A versão deluxe de “Rainy Sunday Afternoon” traz canções ao vivo em Londres e Paris

Texto publicado originalmente no site italiano Kalporz, parceiro de conteúdo do Scream & Yell. 

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