texto de Davi Caro
Pergunte a qualquer fã de “The Office”, e a resposta vai ser a mesma: o aproveitamento da série estadunidense criada por Greg Daniels (como uma adaptação do conceito original dos britânicos Ricky Gervais e Stephen Merchant, iniciada em 2005 e finalizada em 2013) é diretamente proporcional à sua capacidade de atravessar a complicada, constrangedora – e, em retrospecto, inferior – primeira temporada. Para além da vergonha alheia, elemento tão proeminente no cotidiano da empresa de papel Dunder Mifflin, o segredo é, sem dúvida, o magnetismo cativante de personagens como Michael Scott (Steve Carell), Dwight Schrute (Rainn Wilson) e Pam Beesly (Jenna Fischer), não apenas conforme estes navegam idiossincrasias que chamam a atenção mesmo daqueles pouco (ou nada) familiares com a típica rotina corporativa. Mais do que isso: a humanidade por trás da mecanizada rotina empresarial, e da monotonia do cotidiano, é o elemento ímpar que faz com que “The Office” conquiste cada vez mais fãs, mesmo dez anos após seu fim.
A promessa de canalizar o mesmo tipo de energia em um outro projeto seria capaz de aniquilar o potencial de qualquer produção – o que apenas faz com que o resultado final de “The Paper” (2025) seja ainda mais impressionante. A nova série, capitaneada mais uma vez por Greg Daniels (aqui dividindo a responsa com Michael Korman) poderia facilmente se escorar nos mesmos arquétipos exitosos do passado. É muito bom, assim, poder dizer que a nova produção escolhe um caminho bastante diferente: sem negar seu caráter de “spin-off” e incorporando pontuais, e bem pensadas, referências ao projeto que sucede, o novo projeto (que agora chega ao público brasileiro via HBO Max após um discreto adiamento) brilha em seu potencial para se tornar, ao menos, tão memorável quanto a icônica série que o antecedeu.

O primeiro dos muitos acertos de “The Paper” é mudar ligeiramente seu foco: em vez de abordarem a calcificada dinâmica hierárquica e rotineira de uma empresa estabelecida em seu foco, os dez episódios que formam esta nova temporada lidam com novos tipos de dilemas. Saindo da pacata e pouco expressiva Scranton, e tomando forma na igualmente bucólica Toledo, no estado de Ohio, a série apresenta sua audiência à equipe do jornal Toledo Truth Teller, uma publicação muito distante de seus dias de glória. Adquirido pela corporação Enervate – que, o piloto revela, também incorporou a agora inexistente Dunder Mifflin – o jornal, cuja rotina passa a ser acompanhada pela mesma equipe de filmagem responsável pelos registros documentais vistos em “The Office”, segue agora uma existência quase moribunda, capitaneado pela fútil e egocêntrica editora Esmeralda Grand (Sabrina Impacciatore). Os prospectos do Truth Teller começam a mudar, no entanto, com a chegada de Ned Sampson (Domhnall Gleeson), um antigo funcionário da Enervate (e da Softees, o braço especializado em papel higiênico no conglomerado), agora disposto a recuperar o prestígio do periódico com uma nova, idealista, e radical proposta editorial.
Esta “nova proposta” é recebida, por sua vez, de tantas formas diferentes quanto possível: ao mesmo tempo em que membros da empresa, que inclui repórteres experientes, como Mare Pritti (Chelsea Frei) ou nem tanto, como Nicole Lee (Ramona Young) se mostram abertos a ideia, e motivados em recuperar o prestígio de outrora (e, ao mesmo tempo, se opor à futilidade da administração prévia de Esmeralda), outros, como Detrick Moore (Melvin Gregg) veem as mudanças com uma certa dose de reticência – senão como uma ameaça efetiva, como no caso de Ken Davies (Tim Key), o maior aliado da antiga editora, e, assim, maior beneficiado pelo antigo modelo de trabalho. E, é claro, há Oscar Martinez (Oscar Nunez), antigo funcionário de contabilidade da Dunder Mifflin, que tem que lidar com o hilário stress pós-traumático de ter sua rotina diária, mais uma vez, na mira da mesma equipe que registrou a surreal trajetória de sua antiga empresa. Além, claro, de se ver envolvido em mais uma série de contratempos, confusões e conflitos interpessoais, em uma conjuntura muito, muito diferente – e, ao mesmo tempo, muito parecida.
Não é preciso pensar muito para se desvendar o motivo pelo qual “The Paper” funciona tão bem: ainda que seja possível identificar uma linha criativa lógica reminiscente de “The Office”, a nova série é muito, muito diferente do fenômeno que veio antes. A começar pelo roteiro, que, logicamente, se diferencia da sutil arte de achar graça no corporativismo monótono ao centrar os holofotes em um ramo e profissão cuja relevância ainda é infelizmente questionada por mentes mais estreitas (o jornalismo). E, logicamente, o mesmo vale para o surpreendente elenco, cravado de personagens carismáticos, e genuinamente apaixonantes (e enervantes): desde a carente e extravagante Esmeralda, vivida pela italiana Sabrina Impacciatore, cuja necessidade de atenção e busca por protagonismo revelam uma intérprete ímpar, até o paranoico e tímido Ned de Domhnall Gleeson.
A ingenuidade do novo editor é o centro narrativo dos episódios, que se dedicam a desenvolver a química do quase-protagonista com o restante das valiosas figuras de apoio do enredo – e sobretudo com Mare, interpretada à perfeição por Chelsea Frei. A combinação da história, que discorre à medida que a equipe do Truth Teller aprende (ou não) na prática sobre o que é fazer jornalismo, com toda uma gama de coadjuvantes com suas próprias histórias pregressas é, ao fim, o segredo para uma produção que não se escora nas glórias de um celebrado passado para criar seu próprio legado. As intervenções de Oscar, aliás, passam muito longe de ser uma mera tentativa de atrelar o personagem, que se destacou ao longo das temporadas de “The Office” e conquistou lugar cativo no coração dos fãs, a uma simples conexão com o passado. Agora, as missões e desafios são outros, e as passagens mais hilárias ajudam a evidenciar o aspecto mais humano e sensível de personagens tão familiares e, ao mesmo tempo, tão singulares.
É natural esperar que “The Paper” tenha que vencer certa dose de má-vontade da parte dos fãs da famosa produção-irmã da série. Os últimos anos, aliás, não foram totalmente desprovidos de tentativas de ressuscitar os triunfos de “The Office”: um projeto no Kickstarter chegou a ser promovido pelo ator Leslie David Baker para a produção de “Uncle Stan”, no qual este retornaria ao papel de Stanley Hudson, que havia interpretado a partir de 2005. A ideia acabou, no entanto, descartada, e acabou desembocando em uma campanha de marketing para um grande banco digital estrelando Baker (e filmada, em grande parte, no Brasil). Mais recentemente, em 2024, um remake australiano de “The Office” chegou ao Prime Video, com Felicity Ward no papel de uma chefe excêntrica e desesperada pelo apreço de seus colegas e subordinados, em uma empresa que luta para se adaptar ao mundo pós-pandemia de 2020. Os oito episódios lançados, entretanto, foram recebidos com impressões negativas provenientes não da qualidade do elenco, e sim de um roteiro absurdamente derivativo, calcado em repetir os mesmos arquétipos, e pouco interessado em originalidade. Não é o mesmo fim que o destino deve reservar, com sorte, para “The Paper”: a mudança, afinal, é parte inerente da graça de viver, e da natureza humana como um todo. Abraçar a vinda do novo, por maiores que sejam as semelhanças com o antigo, é fundamental para saber aproveitar, e representar, a beleza por trás do mais cinzento, pessimista, e maçante dos cotidianos.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.