entrevista de Marcelo Costa
Figura fácil de se encontrar na noite paulistana desses anos 20 pós pandemia, seja cantando, vocalizando, declamando, experimentando ou comandando a mesa de som, Anna Vis estreia em setembro um novo projeto, o QUINTA LAPA , que surge abrigado na galeria lapa, Lapa (Rua Afonso Sardinha, 326), “uma sobreloja de pé direito alto, uma varanda com janelas grandes, um eco bonito”, explica Anna, que propõe “um encontro entre dois cancionistas que experimentem misturar suas linguagens pra criar uma nova”.
Anna Vis lançou seu disco de estreia, “Como Um Bicho Vê”, em 2023 (presente na lista de 50 melhores discos da APCA), mas antes, em 2019, já tinha publicado seu primeiro livro, “Máquina orgânica”, pela Editora Primata, Para ela, que ainda se divide entre a sonoplastia, a engenharia de som e a astrologia, “as músicas brasileiras são experimentais de nascença e isso ressoa nas nossas canções”. A ideia, neste primeiro momento do QUINTA LAPA, é mirar no improviso para mostrar “o quanto uma coisa não é separada da outra no Brasil”.
“Os shows vão acontecer a cada quinze dias, às quintas-feiras, e a lotação é bem limitada, é pra ver o show pertinho”, adianta Anna, que assina curadoria e produção da QUINTA LAPA (Marcela Katz assina instalação de luz e iluminação, Gabriel assessoria de imprensa e produção do espaço, Otto Dardenne design e cartazes). Negro Leo e Giovani Cidreira são os convidados da noite de estreia (25/9), e Anna adianta que Juçara Marçal, Juliana Perdigão, Marcelo Cabral e Sophia Chablau estão nos planos. “Vai ter muito encontro absurdo”, promete.
Abaixo, ela fala mais sobre o QUINTA LAPA.

Anna, do começo: como surgiu a ideia da QUINTA LAPA? O que você busca com esses encontros?
Quando conheci a galeria lapa, Lapa, me encantei com o espaço, uma sobreloja de pé direito alto, uma varanda com janelas grandes, um eco bonito. Já imaginei um show em formato acústico ali. Daí, numa noite de sinuca no bar da Loira aqui na Lapa, contei a ideia pra Giovani Cidreira e Filipe Castro e ali mesmo levantamos grande parte de quem eu convidaria, o dia da semana, o formato de duo. Em agosto encontrei com o Gabriel, idealizador da galeria, pra falar do projeto e ele pirou, era algo que ele já estava cogitando, uma programação de música, aí syncou certinho com minha proposta.
Pra essa primeira temporada de 2025, proponho um encontro entre dois cancionistas que experimentem misturar suas linguagens pra criar uma nova, mirando sempre no improviso, no que pintar a partir desse encontro, por isso estou trazendo um pessoal mais da canção e um pessoal mais da improvisação. No fim, quero defender o quanto uma coisa não é separada da outra aqui no Brasil, as músicas brasileiras são experimentais de nascença e isso ressoa nas nossas canções. É isso que quero com esse primeiro momento das noites QUINTA LAPA, além de fomentar a cena do bairro, claro, “fazer a lapa ferver!” como disse Ava Rocha esses dias.
Para a abertura do projeto você terá Negro Leo e Giovani Cidreira. Como você chegou a esses dois nomes e o que você pode adiantar do que vem por ai na QUINTA LAPA?
Quando eu convido um artista pra fazer parte, primeiro explico a proposta e depois pergunto se tem alguém que essa pessoa gostaria de tocar dentro desse formato, no caso do Gio ele pensou no Leo, imagina que coisa linda, topei na hora. Se a pessoa não tiver alguém em mente, eu jogo o nome que pensei em somar com ela. Vamos soltar a programação completa desse ano muito em breve, mas posso adiantar que vai ter muito encontro absurdo, tem Juçara Marçal, Juliana Perdigão, Marcelo Cabral, Sophia Chablau, está bonito demais!
Você tem circulado bastante na noite seja com sua carreira solo, seja com os projetos experimentais Fogo Fogo e Enchante, entre outros, seja como engenheira de som ou mesmo como público, assistindo a apresentações de outros artistas. Por isso eu queria esse olhar seu, essa percepção de como você vê esse momento da noite paulistana?
Eu circulo na noite paulistana há 5 anos só, nesse meio tempo conheci muita gente que faz a cena acontecer no mínimo há dez anos. Na minha experiência, vejo que depois da pandemia muita casa de show teve que fechar ou se reinventar, foi um período bem difícil pra fazer as coisas de maneira mais independente. Faz um ou dois anos que começaram a abrir espaços menores que vão e vem, com outros formatos, bar, galeria, loja de disco, livraria, todos tentando sobreviver no meio dessa dificuldade toda que é produzir show sem ter apoio de edital, de investimento privado ou estatal, né.
O mais difícil na noite é conseguir produzir shows pagos com artistas novos, projetos experimentais, projetos de poesia. Pô, em festival tem quem tope pagar 800 pila pra ver um monte de coisa pausterizada, e quando chega numa casa de show independente, não quer pagar 30 reais um ingresso, acho doidera isso, pois justamente são essas casas e esses projetos os que mais precisam de suporte, que não tem patrocínio e tudo mais. Acho importantíssimo que as cenas independentes se valorizem e sejam valorizadas, a gente faz por amor à música, à poesia e é lindo de ver quando a coisa dá retorno pra todo mundo. Colem nas produções dessa galera, estejam presentes, paguem os ingressos sugeridos, é assim que a gente fortalece a cena independente.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de Liliane Callegari