entrevista de Danilo Souza
A vida do multi artista baiano Guilherme Nogueira pode ser dividida em dois momentos. Um em Vitória da Conquista, na Bahia, cidade onde nasceu, cresceu e se percebeu gay, e outro em Goiânia, em Goiás, local em que deu seus primeiros passos como Guilhotina Guinle, a drag queen que é a personagem principal desta entrevista e que está lançando o seu disco de estreia, “Jogo da Bixa” (2025), onde conta sobre sua própria história de resistência e descoberta da sexualidade.
“Tentei muito fazer uma carreira na música como Guilherme”, conta a artista. “Cantei muito tempo em casamento, trabalhei com música de outras formas, mas não tinha a cara que eu precisava para ter potência e para fazer um trabalho autoral. Acho que a existência da Guilhotina na minha vida mudou muito o percurso, tanto artístico, quanto pessoal, pois me sinto mais bonita e mais forte para fazer as coisas, parece que agora elas fazem mais sentido para mim por tudo e por todo meu processo”, revela.
A sua saída de Vitória da Conquista foi uma fuga, o que ela mesmo admite, mas assume que guarda sentimentos positivos sobre a cidade e gosta de voltar quando consegue ter tempo na sua rotina, agora ambientada em São Paulo. “Eu precisava sair de Vitória da Conquista porque estava sufocante e foi importante eu ter ido para Goiânia morar sozinho, me descobrir drag e conseguir executar minha arte para poder voltar [para Vitória da Conquista] de um outro jeito. Agora, toda vez que eu volto, é uma sensação gostosa e não tem mais o peso que tinha antes. Voltar como Guilhotina é como se fosse a Tieta, toda bonita e gostosa (risos)”.
“Jogo da Bixa” é um projeto ousado em todos os sentidos. Começando por seu nome, que faz referência ao jogo do bicho… “fiquei pensando ‘gente, como que o 24 virou o número do viado?’. 24 se liga diretamente aos gays porque no jogo do bicho é o número do veado, ‘ganhamos’ esse número na nossa vida. Como que ninguém nunca pensou em fazer o ‘jogo da bicha’ pegando esse 24, ressignificando essa história e o que era pejorativo (bicha, viado…) e trazer pra gente?”, argumenta Guilhotina.
As referências para a sonoridade e a composição vão desde divas pop como Britney Spears até grandes artistas como Ivete Sangalo e BaianaSystem. Guilhotina define o seu disco como “pop baiano”: “O que eu sempre falei com meu produtor é que eu queria que tivesse guitarra baiana e percussão, isso que ia comandar o álbum. De fato, essa condução pela Bahia é o que tem em comum em quase todas as músicas”, explica. Leia abaixo a entrevista completa.
O Guilherme nasceu em Vitória da Conquista, mas a Guilhotina Guinle, essa personagem que une música, maquiagem, figurino e videoclipes, foi criada em Goiânia. Como essas duas personalidades se interligam e se complementam?
A Guilhotina é uma realização dos sonhos do Guilherme. Minhas referências sempre foram divas pop, a maior delas é a Britney Spears, a minha grande referência da infância, e, na Bahia, Ivete Sangalo também é uma grande referência que trago muito nos meus shows e no meu trabalho. Sempre foram mulheres fortes, então, a Guilhotina acaba sendo uma realização desses sonhos e desses desejos. Tentei muito fazer uma carreira na música como Guilherme, cantei muito tempo em casamento, trabalhei com música de outras formas, mas não tinha a cara que eu precisava para ter potência e para fazer um trabalho autoral. Acho que a existência da Guilhotina na minha vida mudou muito o percurso, tanto artístico, quanto pessoal, pois me sinto mais bonita e mais forte mesmo para fazer as coisas, parece que agora elas fazem mais sentido para mim por tudo e por todo meu processo. Eu sempre tinha que cortar meu cabelo e não podia deixar crescer, não podia brincar com bonecas e hoje tenho uma coleção gigantesca de bonecas… Então, a Guilhotina abriu portas para minha vida pessoal para ter coragem de fazer coisas que não fazia antes.
E de que forma essa conexão entre as duas cidades, Vitória da Conquista e Goiânia, influenciaram a sua identidade artística?
Vitória da Conquista é onde eu nasci, é a minha terra, e Goiânia foi onde a Guilhotina aconteceu e foi um momento de libertação também, porque em Vitória da Conquista houve esse momento de me entender como gay e dos problemas com a minha família. Eu precisava sair de Vitória da Conquista porque estava sufocante e foi importante eu ter ido para Goiânia morar sozinho, me descobrir drag e conseguir executar minha arte para poder voltar [para Vitória da Conquista] de um outro jeito. Agora, toda vez que eu volto, é uma sensação gostosa e não tem mais o peso que tinha antes. Voltar como Guilhotina é como se fosse a Tieta, toda bonita e gostosa, agora pode falar, quero que falem de mim mesmo (risos).
A cena drag cresceu muito no Brasil nos últimos anos. Em que medida isso abriu caminhos para trabalhos como o seu?
Sou completamente influenciado por esse movimento, que, na verdade, veio por conta de RuPaul. No Brasil, [a cena Drag Queen] era sempre muito marginalizada e tratada meio que como chacota ou então nichada dentro das baladas. O [reality show] “RuPaul’s Drag Race” foi um boom mundial para ter drag no mainstream, produzindo, fazendo música, estando na televisão de outras formas, né? Eu já conhecia a Gloria Groove, abri um show dela lá em Goiânia, em 2022, e pude falar para ela que só existe a Guilhotina por conta da Gloria Groove. Também sou “GG” [Guilhotina Guinle], assim como ela, porque estava nesse processo de entender a minha música e como queria me apresentar. Quando a Glória veio com uma sonoridade diferente, que não era só pop, me brilhou os olhos.
Como artista, você sente que a Guilhotina é como um “espaço de liberdade” para o Guilherme se expressar de formas que, talvez, antes, não eram possíveis?
É isso, sim. Acho que eu não tinha essa liberdade para fazer o meu trabalho, enquanto Guilherme, e a Guilhotina que abriu essa possibilidade de fazer. Cantei durante dez anos em festas de casamentos, em Goiânia, de paletó e gravata e cantando a música que a noiva escolhia, o que me deu uma grande bagagem de repertório, de aprendizado e de técnica vocal. A Guilhotina deve muito a esse momento. Mas [com a Guilhotina] consegui fazer a minha arte, falar da minha vida e da minha história. Se ela não existisse, talvez eu não estivesse trabalhando com música do jeito que eu trabalho hoje e estaria no backstage ou só fazendo audiovisual.
Agora falando de sua música, o seu primeiro single, “Sou Perfeita”, saiu em 2019. Mas só agora, depois de seis anos, que você está realizando o lançamento de um grande projeto – neste caso, o disco de estreia. O que mudou de lá pra cá?
Nossa, muita coisa. Comecei a me montar em 2018, foi a primeira vez que pintei minha cara e foi um tempo de incubação para me entender como drag, aprender a me maquiar, ter coragem de sair e de pensar nisso como uma carreira. Foi quando pensei “agora tenho um nome, eu sou a Guilhotina, quero fazer música e fazer essa carreira acontecer”. Daí veio a “Sou Perfeita, PT. 1”, que fiquei o ano inteiro produzindo. Na verdade, era pra ser só uma versão para o YouTube, não era para ter sido o primeiro single, tanto que fiz a versão em cima da base [instrumental] da Billie [Ellish], nem tinha produzido um beat próprio. Acho que a diferença de lá pra cá é que hoje eu sei quem é a Guilhotina e o que ela gosta. Sei administrar melhor os gostos do Guilherme com a Guilhotina para saber o que é que vai vender e o que não vai e as partes do meu gosto pessoal que posso trazer para minha arte.
Uma das faixas do disco, a “Sou Perfeita, Pt. 2” é justamente uma continuação do single de 2019. Por qual motivo você decidiu revisitar o passado da sua própria discografia e trazer para esse álbum?
Fiquei pensando “nossa, ‘Sou Perfeita’ não vai caber no álbum porque ela é antiga…”, mas eu sempre gostei muito da ideia da Guilhotina perfeita, sabe? Isso ainda é importante na minha carreira. No “Jogo da Bixa” fui resgatando várias coisas da minha carreira, ele é um compilado da minha história pessoal e também da resistência da Guilhotina na minha vida. Por isso que eu falei “pô, quero fazer ‘Sou Perfeita’ de novo, agora a parte dois, mais moderna e que tem mais a ver com meu momento atual, mas que ainda lembre a primeira música. Não podia faltar no meu álbum de forma alguma.
“Jogo da Bixa” é um disco difícil de colocar numa caixinha e definir um estilo musical. Há uma mistura de ritmos, como pop, axé, pagode, arrocha e sertanejo ao longo das dez faixas. Pode-se dizer que isso é resultado das suas vivências nesse trajeto Bahia – Goiânia – São Paulo? O que você trouxe de cada estado para suas canções?
Tem muito a ver com a minha trajetória. Em “Jogo da Bixa”, conto uma parte da minha história na Bahia e em Goiânia, mas não conto a minha existência em São Paulo. Acho que estou executando essa minha história em São Paulo e as minhas experiências estão acontecendo ainda. Musicalmente, [o disco] é um misturado das minhas referências, porque tem referências da Britney, de BaianaSystem, de Ivete [Sangalo], tem “Duas Doses de Gin”, que não é um sertanejo, mas meu sonho é que ela vire porque era uma música em que eu queria homenagear Goiânia. Fico brincando que defino o álbum como um “pop baiano” – não sei se existe essa definição ainda. O que eu sempre falei com meu produtor é que eu queria que tivesse guitarra baiana e percussão, isso que ia comandar o álbum. De fato, essa condução pela Bahia é o que tem em comum em quase todas as músicas.
Inclusive, o título “Jogo da Bixa” é muito bom (risos). De onde você tirou esse nome pro disco?
O “Jogo da Bixa” é um projeto que já teve outros nomes. Sempre tive a ideia de fazer um álbum visual que contasse a minha história através de um olhar do corpo gordo e das coisas que a gente nunca vê, tipo gente gorda se beijando na televisão e nos clipes. Quando têm pessoas sensualizando, geralmente são pessoas magras, malhadas. A gente não tem muito essa referência, inclusive, eu mesmo não tinha para colocar ali na minha planilha, sabe? Queria falar da minha história, mas partindo desse lugar, especialmente do corpo gordo, porque o corpo gordo não é um corpo que é passível de ser amado sempre.
É um álbum que conta essa coisa da relação de “não-troca”, a relação não correspondida, todo mundo passa por isso, não é só gente gorda, mas eu quis botar a partir desse olhar porque é a minha vivência. E aí, quando eu estava no processo de escrever, comecei a compor as músicas e quando começamos a produzir veio [o nome “Jogo da Bixa”]. Fiquei pensando: “Gente, como que o 24 virou o número do viado?”. 24 se liga diretamente aos gays porque no jogo do bicho é o número do veado, ganhamos esse número na nossa vida. Como que ninguém nunca pensou em fazer o jogo da bicha pegando esse 24, ressignificando essa história e o que era pejorativo [bicha, viado…] e trazer pra gente?
Depois desse álbum, o que você enxerga como próximos desafios ou desejos para a Guilhotina Guinle?
Hoje a produtora da Guilhotina sou eu. Produzo tudo, corro atrás… tenho muitos amigos que apoiam, com ou sem dinheiro, então, tem gente que me filma há muito tempo, tem gente que tira minhas fotos, tem uma base de amigos em Goiânia que eu consigo fazer um clipe rapidamente. Estou bem cercado, mas falta ser visto. O que está faltando agora na minha carreira é visibilidade mesmo, de estar na mídia e as pessoas ouvirem as músicas… o trabalho está pronto e, modéstia à parte, está bem executado e com muito tipo de material e conteúdo para chamar pessoas diferentes.
Os próximos projetos com certeza estão na mente. Quero muito fazer um projeto de arrocha, o “Tina do Arrocha” (risos) e um projeto de remixes do “Jogo da Bixa” – esse provavelmente será o próximo. Mas primeiro quero vender esse show [respectivo ao álbum] e no ano que vem, no primeiro semestre, queria muito gravar esse álbum de remixes, com novas novas parcerias, com DJs, algo diferente, sabe?
Por último, fazendo uma brincadeira com o nome do seu disco, quero te propor um jogo. Defina o Guilherme, a Guilhotina e o “Jogo da Bixa” com apenas uma palavra para representar cada um deles.
O Guilherme é o passado, a Guilhotina é o presente e o Jogo da Bixa é o futuro.
– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo.