Crítica: Adaptação fiel de obra escrita por Stephen King há 46 anos, “A Longa Marcha” funciona como metáfora premonitória

texto de João Paulo Barreto

Em 1977, o então desconhecido autor literário Richard Bachman ganhou uma notoriedade curiosa. Naquele ano, ele lançou o livro “Rage”, traduzido no Brasil como “Fúria”. Tal notoriedade passou a rimar com desconfiança quando seus três livros seguintes chegaram às livrarias, sendo estes “A Longa Marcha”, lançado em 1979, “A Autorestrada”, livro de 1981 e “O Sobrevivente”, de 1982.

Lançados entre um curto espaço de tempo, os livros de Bachman logo se tornariam um sucesso de vendas. Em uma época na qual a informação demorava a ser espalhada em massa, a similaridade de sua escrita com a de outro autor bestseller, porém, foi o que gerou desconfiança. Não tardou a se perceber que Richard Bachman não existia, e que se tratava de um pseudônimo adotado por Stephen King, escritor já consagrado por obras como “Carrie” (1974) e “O Iluminado” (1977). O fato só foi amplamente divulgado em 1985, quando os quatro livros foram reunidos em um único volume sob o nome de King, um prefácio intitulado de “Porque fui Bachman” e batizado precisamente de… “Os Livros de Bachman”.

A desconfiança do público em relação à similaridade da escrita de Richard Bachman com a de Stephen King se justificava, principalmente por “A Longa Marcha”, o segundo livro. Com uma trama supostamente simples que narrava uma caminhada de um grupo de pessoas até a exaustão enquanto são escoltadas por um carro militar e mantidas sob a mira de uma arma, o texto, apesar de sua violência, conseguia reunir diversos temas voltados para uma análise da relação humana, dos laços de afeto, do instinto de sobrevivência e do suporte emocional construído entre as pessoas que convivem juntas durante uma guerra. Mas para além disso, a obra trazia uma outra análise mais aprofundada.

Junto a tal abordagem humana, o livro tecia uma profunda crítica com aspectos políticos, destacando a ascensão de um governo fascista que baseava sua propaganda bélica na necessidade de um suposto retorno a seus tempos áureos econômicos (qualquer semelhança a um slogan político estadunidense é – ou somente pode ser? – uma mera coincidência). Na citada relação humana entre seus personagens centrais, no caso o grupo de jovens que precisa caminhar por uma auto-estrada sem um limite estabelecido de tempo até que apenas um esteja vivo, Stephen King reunia elementos marcantes de sua escrita, como a percepção de uma mudança drástica de um comportamento afetivo para o de total desespero circunstancial perante um acontecimento assombroso e trágico. Além disso, claro, tais assombrosas situações surgem do modo gráfico e apavorante, características básicas de um autor notório por seu domínio do choque distante da banalidade.

Em “A Longa Marcha: Caminhe ou Morra” (“The Long Walk”, 2025), sua transição do texto de King para o cinema, JT Mollner traz para seu roteiro muito dessa proposta do escritor. E a tradução em imagens feita pelo diretor Francis Lawrence, que já havia provado essa capacidade de abordar futuros apocalípticos e atmosferas fascistas em trabalhos como, respectivamente, “Eu sou a Lenda” (2007) e com os filmes da série “Jogos Vorazes”, aqui, capta com uma crueza pontual o gradativo esfacelar físico e emocional de seus personagens.

Utilizando os poucos elementos visuais e narrativos que possui à mão, no caso, uma auto-estrada e seu entorno áspero, como carros em sucata e uma vegetação seca, mas inserindo vislumbres de um mundo calcado em uma indiferença e uma normalização diante do brutal, o diretor Francis Lawrence destaca com precisão um gradativo esfacelamento físico e psicológico do seus personagens centrais. E junto a isso, essa mesma indiferença desse novo mundo é perceptível nas câmeras que acompanham os andarilhos em uma transmissão televisiva simultânea de seu sofrimento.

Nesse mergulho no vínculo de amizade que os jovens que seguem por aquela estrada infinita criam entre si, alimentando naquele laço a ilusão de um vestígio final de civilidade, encontramos o cerne do texto de Stephen King através do roteiro de Mollner. É na junção da brutalidade de sua premissa e na contínua desesperança com a qual seus personagens passam a lidar que reside a construção de “A Longa Marcha”. E de maneira oposta, o filme trata a desconstrução mental daqueles indivíduos que caminham em direção ao próprio colapso físico.

Dentre esses jovens no percurso do asfalto está Raymond Garraty (Cooper Hoffman, provando a herança genética talentosa do pai, Philip Seymour), também chamado simplesmente de 47, em uma evidente referência à perda de identidade de um cidadão vítima de um sistema. E essa perda também é sutilmente referenciada no momento em que o jovem chega ao local onde começará a prova e tem seu documento de identificação apreendido. Ao seu lado, Peter McVries (David Jonsson, emocionalmente indo para além da proposital ausência de expressão do seu papel de maior destaque: o andróide Andy, de “Alien: Romulus”), jovem carismático, mas cuja cicatriz no rosto esconde um passado tenebroso. A interação entre ambos e suas histórias pregressas os conectam, mas delineiam a inevitável tragicidade para os dois. Isso, porém, não sem antes um plano de vingança ser proposto.

No centro desse plano de vingança está a figura tirânica do major vivido por Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker em seu segundo filme baseado em uma obra de Stephen King e provando, mais uma vez, seu talento na criação de diferentes vozes. Sua imposição militar e manipuladora inicialmente vista como algo louvável pela ingenuidade dos jovens a seguir na marcha (em uma clara referência ao patriotismo barato e poder de influência das forças armadas), gradativamente começa a se perder entre os andarilhos perante a dura e brutal realidade daquela prova imposta a eles por essa falácia patriótica e pelo militarismo opressor, mas disfarçado como necessário.

“A Longa Marcha” se encerra com uma reposta firme a essa não aceitação de um destino imposto por opressores. Em sua ideia de desesperança, a obra acaba por trazer uma resposta utópica, porém, imprescindível em uma luta contra a opressão. Uma luta que parece perdida, mas não está.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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