entrevista de Bruno Lisboa
Trey Spruance é um cara versátil. Ok, esse é um adjetivo batido, usado tantas vezes de maneira equivocada que seu significado foi se diluindo com o tempo, mas Trey está aqui para honrá-lo: ele é um músico californiano que toca guitarra, baixo, teclado, sintetizador, cítara, trompete, banjo, ağlama, rabab, dumbek e pipa, entre muitos outros talentos que ele divide, principalmente, entre as bandas Secret Chiefs 3 (e seus sete grupos “satélites”), que ele criou em 1996, e o Mr. Bungle, que ele cofundou com Mike Patton e Trevor Dunn em 1985.
A extensa ficha corrida de Spruance ainda destaca uma passagem pelo Faith No More nos anos 1990 (registrada no disco “King for a Day… Fool for a Lifetime”, de 1996) além de projetos como Faxed Head (death metal experimental) e Weird Little Boy, grupo de jazz/dark ambient que capitaneou junto a John Zorn e o próprio Mike Patton. Aliás, a exemplo de Patton, que fundou a Ipecac Recordings (com Greg Werckman), Trey Spruance também tem seu próprio selo independente, o Web of Mimicry, tornando-se um curador de artistas que compartilham da mesma inquietação estética e da recusa em se submeter a rótulos.
Após duas décadas sem lançamentos com o Mr. Bungle, Trey Spruance (guitarra, teclados), Mike Patton (voz, teclados, samples) e Trevor Dunn (baixo) convidaram Scott Ian (guitarrista confundador do Anthrax) e Dave Lombardo (baterista cofundador do Slayer e colaborador de Patton no Fantômas e no Dead Cross) para revisitar (e expandir) a primeira demo da banda, “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo”, e cair na estrada.
Na conversa abaixo, feita por e-mail, Trey Spruance demonstra que é bastante prolixo. Ele estende as respostas, filosofa, aparentemente foge da questão e, quando você imagina que ele não irá voltar ao tema… eureka, ele encontra o caminho. E provoca: “É preciso errar para ganhar inspiração. É preciso vacilar”. Para Trey, “não há mais desculpa (nem sequer motivo) para fazer música chata. Isso é ótimo. Se a IA está destruindo o campo de jogo da mediocridade, ÓTIMO. Que os mortos enterrem os malditos mortos!”. Ainda há muito espaço na entrevista para falar sobre Mr. Bungle (“Sou apenas o guitarrista. E isso é maravilhoso”) e Brasil: “Uma grande parte do meu coração foi roubada pelo Brasil — e agora eu vivo num estado constante de saudades. Obrigado”.
Prepare-se que lá vem conversa boa. Com você, Trey Spruance!
Ouça o álbum “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo” na integra abaixo
Olhando para a sua trajetória, desde os primeiros dias em Eureka (Califórnia) até agora, como você mapeia a evolução da sua visão artística? O que permanece no núcleo da sua música depois de todos esses anos?
Ainda é uma batalha contra a imposição de muros, muros de prisão, onde deveria haver espaço aberto. Não sei por que existe essa paixão em forçar o espírito humano, expresso através da música, a esses corredores estreitos, claustrofóbicos, que foram praticamente pré-fabricados por oligarcas. Ou aspirantes a oligarcas. Será que existem pessoas suficientes que querem ser oligarcas a ponto de seus números representarem a maioria da audiência? Será que eles querem tanto esse desfecho, acreditam nisso tão apaixonadamente, têm tanta fé que aceitam o confinamento atual em uma cela conceitual cujas paredes estão sempre se fechando, e ainda sorriem para seu destino com a autoconfiança exibida pelos mártires cristãos do século I? Mais ainda: é possível fazer uma “festa” dessa situação, celebrar o futuro brilhante com antecedência, porque a fé de que um dia serão ricos é tão forte assim?
Música que antecipa alguma forma de Salvação, ou σωτηρία (salvação em grego), tem precedentes, mas nunca foi necessário cavar alegremente o seu próprio túmulo primeiro! Nunca foi preciso sinalizar suas qualificações para a Redenção musical sufocando a si mesmo antes…
É por isso que digo: é preciso continuamente forçar a tampa desse caixão prematuro de falsas esperanças sedutoras — essa tampa de caixão que está sempre tentando cobrir nossas percepções do mundo — do mundo e uns dos outros. Não porque queira que estejamos mortos, mas porque quer que vejamos apenas a si mesmo. Que vejamos sua escuridão, seu vazio e sua melancolia pelo resto do tempo que temos aqui. Ele não quer mais “mediar” nossas interações, como na era da TV ou da internet. Agora quer apenas que olhemos para ELE — para o Abismo de SI MESMO. A maioria dos humanos já se converteu às revelações musicais contidas ali. Dentro daquela caixinha.
E o que eles podem fazer? Anseiam pela promessa de perfeição na Salvação. Então, para responder à sua pergunta, o que permanece no meu núcleo é manter um pé-de-cabra enfiado nessa máquina, para que eu continue podendo ver o céu, ver você, ouvir os pássaros, e sair por aí bagunçando um pouco — porque o mundo na verdade gosta disso em nós, humanos, quando fazemos do jeito certo. Errar é humano, afinal. Se o nosso lugar no mundo é errar, então vamos fazer isso direito!
Eu diria que é preciso errar para ganhar inspiração. Literalmente ser ins-pirado, receber o espírito — que é vasto, infinito. É preciso vacilar. Graças a uma certa imposição magistral de (ou intuição sobre esse poder do) puro erro, posso me gabar para você agora que nenhum perfeccionista filho da puta pode extinguir nem um pedacinho do meu acesso a esse vasto universo fora do caixãozinho que construíram para mim com meus dados. Eu permaneço fora dessa prisãozinha imbecil que nos foi provida, dessa colheita sistemática de almas que torna tudo no mundo físico “mais fácil”. Foda-se isso! Faça a coisa difícil! E erre! Esse é o verdadeiro chamado. E eu sigo com ele.
Muitos artistas falam sobre “buscar uma voz”. Você sente que encontrou a sua, ou ela ainda está em constante transformação?
Engraçado, mas a palavra Eureka significa justamente “Eu encontrei!”
Você encontra, mas não é um monotom. Não permanece igual. Está VIVA e, portanto, em constante transformação. Em outras palavras, a “verdadeira voz” de alguém, na qual acredito firmemente, ou está engajando com o mundo ao redor, sendo afetada por ele, engajando em diálogo e, portanto, “mudando em primeiro plano contra o fundo imutável”, ou… ou está cheirando os próprios peidos… bem, um monge vai muito para dentro de si. Mas isso é bem diferente de estagnar. De qualquer forma, não é trabalho do artista ser “imutável”. Essa é uma vocação reservada para os Santos, os Anjos e os Demônios. E também para os Zumbis.
Isso não significa que eu me recuse a falar com eles… desde os Monotonistas Divinos em lugares elevados até os zumbis repetitivos que cheiram peidos no mais baixo dos baixos. Porque eu falo. Mas não vou tentar emulá-los!
O Web of Mimicry sempre foi mais do que apenas um selo — parece uma filosofia, um manifesto. O que te levou a criá-lo em primeiro lugar e como você vê o seu papel hoje, em uma indústria onde independência muitas vezes colide com sobrevivência?
Obrigado pela atenção aos detalhes! O objetivo realmente não mudou desde 1998, quando começou. A ideia estava declarada abertamente na embalagem externa da nossa primeira coletânea lançada em CD. Aquele texto, bastante beligerante, afirmava que iríamos existir à margem de tudo, enquanto a “indústria da música” passava por todas as suas convulsões histéricas — e observar tudo queimar de longe, ou pelo menos o mais distante possível. Fizemos isso e deu certo. Agora, porque permanecemos nessa posição insustentável, ainda podemos rir, ainda podemos chorar, ainda podemos observar a conflagração com admiração, ainda podemos cuspir nela com nojo. Ontem como hoje, nosso selo abraça toda a tolice de tentar fazer música, enquanto testemunha a tolice muito maior de tentar fazer negócios. É a nossa pequena “sinfonia de poderes” persistir na tolice de ambos. Felizmente nosso negócio é pequeno, mas nossa música é grande, em vez do contrário. É por isso que funciona. O único motivo. É bom que seja tão pequeno. Quando falha, não deixa uma “cratera do tamanho da indústria da música” no chão para os oligarcas se deliciarem — com seus serviços de streaming “ainda piores que a indústria musical” prontos para preencher as lacunas e urinar no túmulo do que nunca prestou desde o início.
O catálogo do selo é único, mas também muito exigente para os ouvintes tradicionalistas. Você vê o Web of Mimicry como uma espécie de resistência contra uma forma passiva ou homogeneizada de consumir música?
Sim. Mas isso é apenas natural. Nós não começamos o incêndio… Em outras palavras, não é resistência — “uma forma passiva ou homogeneizada” de fazer e consumir música é “o que já está dado, meu caro” — é onipresente. Está em todo lugar. E nós simplesmente não fazemos isso. Só isso. Não há nada de revolucionário nisso. Apenas escolhemos não ser cúmplices dessa homeostase cultural avançada — essa máquina pulsional de morte que tenta esconder todos os vestígios da vida vivida real atrás de uma série de telas, paywalls e golpes. Não é nada heróico ou romântico simplesmente não ligar para essa máquina e não brincar junto. É só que existem coisas melhores para se fazer.
Secret Chiefs 3 tem sido frequentemente descrito por muitos como uma “banda de bandas”, ou mesmo um “universo sônico”. Como você o define pessoalmente depois de décadas construindo este projeto?
“Banda de Bandas” soa bem. Não apenas porque é literalmente isso que Secret Chiefs 3 é. Uma banda composta de bandas (sete delas). Mas também porque o termo tem aquele toque de autoridade divina. Você pode ver isso mais claramente em inglês, da mesma forma que os protestantes dos anos 50 e 60 ficavam com os olhos marejados de lágrimas durante produções cinematográficas estrondosas como “Rei dos Reis”. Eles sabem que o termo é uma tradução literal de “Shāhanshāh”, o título persa para Ciro, o Grande, literalmente o Rei dos Reis? (todos os reis estrangeiros lhe prestavam homenagem). Claro que NÃO sabem. Mas esses elementos, ignorância e tudo mais, para mim, parecem definir algo da natureza de Secret Chiefs 3 como “Banda de Bandas”. Está tudo lá — é um fato literal, é pomposo, exagerado e cheio de arrogância, e há uma história de fundo muito profunda na qual você pode se aprofundar. Sério, é simplesmente perfeito.
Com o Secret Chiefs 3, você navega por tradições musicais do mundo todo. Qual é o seu processo para se engajar com essas tradições de forma respeitosa, evitando uma apropriação superficial?
Essencialmente, eu estudo teoria — o que é como estudar idiomas — em vez de ser um antropólogo cultural. Estudar princípios teóricos é muito diferente de estudar as composições que eu possa ‘gostar’, o que seria mais parecido com estudar as obras de autores — ou seja, as coisas que são escritas em determinados idiomas. Fizemos alguns covers não ocidentais no SC3, a maioria deles de mais de 25 anos atrás, coisas de Bollywood, com temperamento igual, que na verdade são mais ocidentais do que ‘orientais’. Mas quando se trata de música árabe, persa ou turca, fizemos exatamente zero covers. Bem, fizemos dois covers afegãos.
Mas na fabricação da música do Secret Chiefs 3, pode-se dizer que eu tenho uma familiaridade de longa data com a ‘visão de mundo’ dos sistemas Dastgah e Maqam, mesmo que eu nunca tenha me dedicado ao repertório. Sinto um respeito enorme, e também um limite, ali. Por exemplo, o mesmo vale para o sistema bizantino do ‘Octoechos’, que é onde vive a música sacra ortodoxa. Eu não cruzo essa linha.
Simplificando, no que diz respeito à minha relação com a música persa, por exemplo, eu não tenho a pretensão — nem mesmo a coragem — de me dedicar ao ‘Radif’, o repertório. Eu não estudo o Radif de forma alguma. Se eu fosse fazê-lo, seria um mergulho total, ou nada. Depois de ver Shahram Nazeri se apresentar, você entende que é assim que REALMENTE É. Então, ‘brincar’ com isso está fora de questão. Mas nenhuma dessas opções — nem brincar superficialmente, nem me aplicar com devoção numa busca de vida por uma tradição musical — é o que estou fazendo. Eu sou um compositor. Às vezes, falo uma melodia neste idioma, outras vezes naquele… a melodia é o Primário. Ela existe sem idioma. O Secundário é o Sistema, o idioma — o meio pelo qual a ‘Harmonia das Esferas’ se torna musicalmente inteligível.
Se eu fosse citar nomes persas aqui como ‘influências’, esses nomes seriam Suhrawardi, Mulla Sadra Shirazi, al-Biruni. Eu sempre deixo isso claro. Vai numa sintonia parecida com Pitágoras, Jâmblico, Nicômaco etc., ou os autores do Sepher Yetzirah. Estou sempre apontando para essas fontes. Parece meio vão entrar em argumentos de ‘apropriação’ nesse ponto, mas hoje em dia nada mais me surpreende. Se alguém quiser levantar acusações, pode tentar. Eu vou escutar.
Mas, para encerrar a resposta à pergunta original: há muitas formas de expressar ideias melódicas e rítmicas. Algumas funcionam melhor do que outras em cada caso específico. Essa é a origem das sete ‘bandas satélite’, cada uma com sua própria geografia linguística, por assim dizer. É assim que funciona no Secret Chiefs 3. Um universo grande e aberto. Informado pela totalidade da história musical — e recusando ser limitado por atitudes ‘supremacistas brancas’ em relação à harmonia, à afinação e aos conceitos rítmicos.
Você vê o Secret Chiefs 3 como um projeto infinito/longevo — que evolui enquanto você evolui?
Oh meu Deus, sim. Ultimamente, estou encerrando capítulos. Porque eles chegaram ao fim. E eu preciso abrir espaço para os novos capítulos. Que são muitos.
A indústria da música foi reformulada pelo streaming, pelos algoritmos e por uma enxurrada avassaladora de conteúdo. Como você, alguém profundamente comprometido com a integridade artística, percebe as possibilidades (e os perigos) desse novo cenário?
Sinto que as pessoas que mais estão reclamando são justamente aquelas que já soavam como o algoritmo antes mesmo da IA aparecer. A música delas, feita por números, fácil de imitar, talvez tenha sido fácil de vender por uns 20 anos, mas nunca foi algo que pudesse ser levado a sério como mais do que uma mercadoria descartável. Na real, nunca houve nada ali para começar, então não tenho nenhuma simpatia por quem está perdendo o emprego agora por causa da IA.
Acho que o desafio do momento é que o Grande Dilúvio — de porcaria pedestre descartável — vai acabar cansando não só a mim, mas literalmente a todos. Eu já fiz minha parte como uma voz solitária no deserto do “jovem revoltado” nos anos 90, escrevendo “None of Them Knew They Were Robots” e “Golem II” para absolutamente ninguém entender (até mais ou menos agora). E finalmente chegamos aqui — o momento em que não haverá mais dinheiro a se ganhar com a enxurrada de falsificações.
Ah, merda… e agora?…
…isso já não havia sido previsto?
“None of Them Knew…”
Você sente que o público mudou em termos de paciência, atenção e abertura para a complexidade na música?
Sim, com certeza. Está muito, muito, muito melhor agora. É isso que estou dizendo. Minha esperança está nos ouvidos que estão por aí, na inteligência viva. Há muitos sinais de melhora — então não há mais desculpa (nem sequer motivo) para fazer música chata. Isso é ótimo. Se a IA está destruindo o campo de jogo da mediocridade, ÓTIMO. Que os mortos enterrem os malditos mortos!
Mr. Bungle sempre representou a ruptura e a imprevisibilidade. Como você encara seu papel na banda hoje em comparação com os anos 90?
Hoje eu sou apenas o guitarrista. E isso é maravilhoso. Um alívio total. Mesmo que o death metal nessa velocidade seja fisicamente exigente — e eu adoro me adaptar a isso. Mas seria mentira dizer que não é uma caminhada no parque comparado com a quantidade de funções que eu acumulava no Bungle dos anos 90. Por outro lado, eu adoro facilitar o “pensamento coletivo” no Mr. Bungle, e isso ainda existe. Então rola muita espontaneidade. Acho que, de alguma forma, a gente conseguiu — ou seja, o espírito e a música do Metal Bungle (em alusão a fase metal da banda nos primórdios) atual estão bem próximos daquele original de 1985. E vale lembrar: naquela época, eu também era “só” o guitarrista.
Mas como eu disse, essas formações do Metal Bungle, que vieram antes e depois do Bungle dos anos 90 — separadas por 40 anos — são, na verdade, muito parecidas. Comparado com os anos 90… bem, é outro mundo. O Bungle dos anos 90 não era nem de perto uma banda de guitarra! Era uma banda de orquestração — tipo um coletivo de compositores, onde todos amavam as ideias uns dos outros tanto quanto as próprias, e depois trabalhávamos duro para juntar tudo e fazer funcionar. Meu papel se tornou complexo, altamente técnico, maníaco com certeza, meio faustiano talvez? Muito diferente do Metal Bungle dos anos 80 ou dos anos 2020.
A reunião da banda trouxe não só nostalgia, mas também uma redefinição do que é o Bungle. O que mais te surpreendeu nesse novo ciclo? O que Dave Lombardo e Scott Ian trouxeram pra essa fase?
O que mais me surpreendeu foi perceber que um termo como “nostalgia por perfeições não nascidas” pode, de fato, ser uma placa na estrada rumo à realização de um futuro alternativo real.
O que o Dave e o Scott trouxeram foi a adição de duas pessoas genuinamente boas à demência coletiva de três malucos de Eureka. O Scott se jogou no material de um jeito inacreditável. Ele dominou tudo. Foi como injetar óxido nitroso num motor que já estava pegando fogo. A gente ficava olhando e pensando: “É o Scott Fucking Ian tocando ‘Spreading the Thighs of Death’. Isso está mesmo acontecendo?” E não só tocando — ele tá destruindo!
Aí você soma o Dave, a pessoa mais doce e íntegra — e, ao mesmo tempo, a mais feroz. Pra nós, talvez um tipo de deus? Os três (de Eureka) sabíamos de cor todas as viradas de bateria dele, desde “Show No Mercy” até “South of Heaven”, e tocávamos “air drums” desses álbuns inteiros em festas idiotas tipo Rambo, em Eureka — porque aquilo era tipo o Evangelho pra gente.
E ele chega ao Mr. Bungle com toda aquela energia criativa espontânea, meio improvisando, de forma fresca a cada vez, depois de ter internalizado os riffs. É o jeito antigo do jazz: você não apenas recita a partitura — você dá vida a ela. Totalmente antitético ao baterista recitador e entediante que você vê por aí hoje em dia, fingindo que isso é metal. Não, pra mim metal é emoção — é fogo, não recitação fria. E aí está — graças ao Dave — o cumprimento total daquela velha promessa de uma “perfeição não nascida” do início do Mr. Bungle. É isso que eu sinto toda vez que a gente toca junto.
A música do Mr. Bungle sempre esteve à frente do seu tempo — e, às vezes, até causava desconforto nos ouvintes. Você vê o desconforto como parte essencial do DNA artístico da banda?
Pra gente, tudo o que fizemos sempre foi totalmente normal e confortável. Se alguém se sentiu desconfortável porque a gente não conseguiu realizar algo que estava tentando, aí sim seria um problema. Mas quando alguém se sente desconfortável porque a gente conseguiu, aí é quando sabemos que estamos no caminho certo. Eu até poderia alimentar meu ego poético sobre “explodir mentes”, mas a verdade é que esse fenômeno geralmente não passa de uma reação tardia. Tipo se apaixonar por alguém que você odiou no começo. Veja bem, a gente sabe o que está fazendo e se sente bem com isso. Pode ser que pra você seja algo não familiar. E essa estranheza pode te assustar num primeiro momento. Não tem nada de errado nisso — é normal. (falo isso lembrando de quase ter rolado tumulto em alguns shows nossos). Mas no fim das contas, esse desconforto geralmente é só dor de crescimento. Não tem nada de negativo nisso. Agora, se não for dor de crescimento… é melhor esmagar logo essa espinha de fúria ignorante e acabar com esses filhos da puta atrofiados de uma vez.
Vocês estão voltando à América do Sul — uma região que sempre abraçou o Mr. Bungle. O que esse público significa para você?
É algo bem profundo pra mim, pessoalmente! Eu fui ao Brasil, Argentina e Chile duas vezes com o Secret Chiefs 3 antes de ir com o Mr. Bungle ou o Faith No More. Então minha percepção não está completamente distorcida por esse lance do “rock gringo gigante”. No Chile, é tudo muito exagerado, claro. A paixão pelo FNM e o Bungle é tão forte que fica quase impossível escapar disso por cinco minutos sequer, caso você queira testar o que as pessoas realmente acham do que você está fazendo ali. No Brasil foi diferente — com o SC3, quero dizer — nossos shows no SESC sempre pareceram verdadeiros shows do Secret Chiefs 3, muito parecidos com os que fazemos na França ou na Espanha. Senti uma conexão real em todos eles.
E olha só isso: conheci minha esposa — que é gaúcha de Porto Alegre — no Chile, no saguão de um hotel. Ela não era fã nem nada, foi completamente por acaso. E aí, por outra coincidência absurda, ela estava em Buenos Aires quando o SC3 estava tentando entrar no Brasil e precisávamos assinar uns documentos — nosso promotor conhecia ela e sabia que ela estava em Buenos Aires, então pediu que ela levasse o contato dele até onde a gente estava. Eu a vi de novo, e foi tipo… ok, o que é isso, destino? Bom, desde aquele dia — em 2012 — a gente nunca mais parou de conversar. Finalmente conseguimos entrar no Brasil naquele mesmo ano, depois de nos encontrarmos por acaso em dois outros países.
As pessoas que conheci e com quem trabalhei nessas turnês são muito queridas pra mim. O “grande esquema do rock” meio que esmaga tudo isso, e coloca muros entre a banda gringa e o resto — (e acredite, esses muros têm que estar ali, e eu aceito isso). Sou muito, muito grato à família da minha esposa, em Porto Alegre, que vai até Curitiba para nos ver. Infelizmente não vou conseguir visitá-los nesta viagem, porque tenho um show com o SC3 em um festival no Texas (abrindo para Mastodon, Blood Incantation, Acid Bath, etc) bem antes da turnê do Bungle, então não pude chegar mais cedo. Mas que bênção que eles vão subir até lá para nos ver, nem que seja por algumas horas. Uma grande parte do meu coração foi roubada pelo Brasil — e agora eu vivo num estado constante de saudades — muito obrigado por isso!!
O que você pessoalmente lembra das visitas anteriores à América do Sul? Algum momento marcante?
Em 2012, o Secret Chiefs 3 tocou no Velódromo do Estadio Nacional, no Chile, durante o evento “Un canto para no olvidar”, que abriu o estádio ao público como um espaço de memória das atrocidades que aconteceram lá. Foi um dia importante para o Chile, e tentamos ao máximo não sermos idiotas. Ajudou bastante o fato de estarmos escondidos atrás da Camila Moreno, sendo a banda de apoio dela numa música. Voltando um dia no tempo: tínhamos acabado de chegar do Brasil naquela manhã — depois de eu ter passado a noite inteira conversando com a mulher que viria a ser minha esposa. Derrubei vinho tinto na minha camisa branca. Eu estava um caos. Aí entramos num avião e, de repente, estamos num evento super sério. Depois fomos direto para Valparaíso tocar mais um show naquela mesma noite. E aquele foi o público mais insano que você já viu. O show começou por volta das 2h da manhã. Dá pra imaginar meu estado de delírio. E eu adoro isso. Adoro o fato de todo mundo ficar acordado até absurdamente tarde. E que você pode ver quatro gerações diferentes socializando no mesmo lugar. Tem muita magia enraizada na América do Sul. Magia que faz parte do território.
O que os fãs sul-americanos podem esperar dos próximos shows — não só no setlist, mas também no espírito e na energia que vocês pretendem trazer desta vez?
Estamos ficando bem mais aventureiros com os covers. Isso se tornou talvez a melhor parte dos shows agora. Vocês vão ver bastante disso. Talvez umas piadinhas de tiozão também? Vou tentar fazer as minhas em português. Acho que finalmente estou pronto pra isso.
Você percebe algo único na forma como o público sul-americano se conecta com a sua música, em comparação com outras partes do mundo?
Você quer dizer: se eles são apaixonados e colocam o coração inteiro na música? Sim, com certeza eu percebo. Com uma música TÃO INCRIVELMENTE BOA saindo do Brasil, em especial, às vezes eu me pergunto: “O que é que eles ainda precisam da GENTE?”
Mas sabe de uma coisa? Eu sei o que nós precisamos de vocês — algo que só vocês podem dar: chorinho. A música perfeita, com o equilíbrio perfeito — antiga e moderna, erudita e primitiva, emocional e racionalmente estruturada, virtuosa e cheia de erros. Erros gloriosos. Eu preciso de chorinho. Em troca, eu dou death metal — o que é um péssimo negócio pra vocês. Mas dou o quanto vocês quiserem!
As únicas outras partes do mundo onde senti essa mesma eletricidade no público foram: Sérvia, Rússia e Israel. Acho que já está na hora de marcarmos a turnê “Wrong Side of History” (Lado Errado da História)! E não estou nem brincando — amo esses públicos.
E eles definitivamente não são o problema. Pelo contrário, são muito provavelmente a solução. Estou de saco cheio de ver essas pessoas sendo punidas pelos crimes dos canalhas que as governam! E como se a GENTE também não tivesse criminosos mandando nos nossos países, né?
Falando sério: Talvez possamos nos permitir estender um pouco de compreensão às pessoas frustradas que vivem sob a sombra dos monstros do mundo, assim como nós vivemos? Veja, eu sei quem vem aos nossos shows. E como foi declarado décadas atrás na declaração de missão do SC3: “nossa música não é destinada a imbecis maldosos!”
Deus os abençoe, esses imbecis maldosos, porque eles obedecem a isso. Eles mantêm distância.
Você costuma falar em entrevistas sobre filosofia e misticismo como partes entrelaçadas do seu processo criativo. O quanto disso é colocado conscientemente na música, e o quanto surge de forma inconsciente?
É colocado conscientemente, com certeza. Quase tudo é, embora cerca de 20% do tempo algo acabe se revelando depois — de forma ainda mais perfeita — sem que eu tenha colocado aquilo conscientemente. E é algo que eu jamais conseguiria simplesmente “inventar”.
Atribuo essas ocorrências ao fato de ter seguido as “regras” — ou seja, ter me mantido fiel à visão de forma simples e teimosa. Depois que a estrutura está construída, aquilo vem e faz o resto. Talvez isso seja, de certa forma, uma espécie de “prova de conceito”.
Mas eu não consigo controlar os eventos antes que eles sejam colocados conscientemente. Os motivos vêm do nada. Praticamente todos. Eu não saberia sentar e “construí-los” de forma racional. É mais como se eles simplesmente aparecessem — como você disse muito bem, eles “emergem inconscientemente”.
Os elementos primários surgem de forma inconsciente. Os secundários — colocação, articulação — são posicionados conscientemente. E em cerca de 20% dos casos, mais coisas ainda acontecem — coisas que eu não consigo explicar honestamente — e que se encaixam, que cumprem um papel, que completam algo. Enfim.
Olhando para o estado atual da arte e da música no mundo, você se sente otimista, pessimista ou apenas pragmático em relação ao futuro?
Sou otimista com relação às pessoas brilhantes que estão ouvindo e buscando música que realmente as desafia. Me sinto completamente sem esperança quanto a qualquer coisa ligada à “indústria da música” — mas isso não é novidade no meu caso, e nem me deixa “triste”. Muito pelo contrário. Eu enxergo algo bom nos incêndios que consomem esse sistema. E sim! Também sou pragmático. Você tem que improvisar pra sobreviver. Ficar sempre um passo à frente da banalidade do Antagonista. Mente no Inferno e Coração no Céu, e toda aquela coisa do “Sede sábios como as serpentes”, sabe?
Por fim, se você pudesse definir sua carreira como um experimento contínuo, qual seria a principal pergunta que ainda está tentando responder?
Por que diabos a gente quer automatizar justamente as coisas boas da vida e deixar de ser participantes ativos da existência? Por que diabos queremos uma sucessão interminável de experiências passivas, controladas, espelhadas numa superfície tremeluzente — quando poderíamos ter exposição ativa, errática, imprevisível ao céu aberto e aterrador?
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. A foto que abre o texto é de Buzz Osbourne.