Entrevista: Vocalista da banda Zimbra, Bola apresenta seu lado mais pessoal e íntimo em “Rafael”, novo disco solo

entrevista de Danilo Souza

Provavelmente você já conhece a voz e o rosto de Bola, vocalista da banda Zimbra, mas você sabe quem é “Rafael”? É com essa proposta mais pessoal e intimista que o músico apresenta o seu novo disco solo, publicado em julho deste ano. O trabalho conta com doze faixas e discorre sobre as relações, principalmente de família, mas também de amizade.

Apesar do disco ter sido lançado agora, em 2025, as composições são dos difíceis anos de pandemia, o que influenciou também na sonoridade do projeto. O violão, parceiro de quarto de Bola, é o “personagem principal” do álbum. “Acho que isso, primeiro, veio em decorrência dessa estética do trabalho solo, de não ser um trabalho propriamente dito de rock, de não ter muita guitarra presente ali, e veio também de encontro com esse lance de que a grande maioria delas foram feitas na pandemia e tudo mais, e eu só tinha o violão para tocar. Então fiz tudo no violão”, relembra.

Dá pra separar Bola e Zimbra? O vocalista admite que é difícil… “sou compositor das músicas da Zimbra, canto na Zimbra, então as pessoas vão ouvir as minhas músicas solo e vão ouvir a minha voz. É impossível que eu espere que elas façam essa desconexão das coisas, não vai acontecer. Elas vão, de certa forma, achar vários pontos parecidos”, mas também admite que o trabalho solo é um espaço para ter liberdade e experimentar sem medo. “A diferenciação que tento fazer com o público com meu trabalho solo é que isso aqui é a minha visão sobre as músicas que estou escrevendo, apenas a minha visão. Quando vai pra Zimbra, tem esse lance da contribuição dos outros três e aí se torna uma coisa nossa, não uma coisa minha…”

Rafael” é um disco solo, mas que é um “processo coletivo-passivo”, como Bola define. A capa do álbum é um desenho da sua mãe, feito por seu primo em uma atividade escolar e pintado por sua irmã. Na tracklist, as influências familiares se expandem com a faixa “Sozinho”, composta em homenagem à falecida avó do músico. “É um processo coletivo passivo, né? Porque essas pessoas não sabiam, até então, que iam estar envolvidas em um disco. Tipo, eu fui pescando as coisas sozinho sem deixar explícito o tempo todo que estava fazendo isso. Então foi algo bem especial. Até fazendo um paralelo muito engraçado, o nome da música que eu fiz para minha avó é ‘Sozinho’, e sozinho foi algo que eu não me senti fazendo esse disco, porque tinha tanta gente envolvida por trás disso, de forma bem passiva, mas presente, que não senti que era um disco solo.”

Ouça o álbum “Rafael” abaixo e leia a entrevista completa na sequencia.

Esse é o seu trabalho mais pessoal até aqui. O que significa, para você, trazer um pouco do Rafael neste disco e não apenas o Bola?
Pois é, cara… o nome veio por último e, na verdade, não teria nem como não ser o meu nome, pensando nas coisas que foram acontecendo. Eu tinha a ideia de gravar o disco e me lembro que há uns oito anos eu tinha guardado a capa do disco, que é um desenho da minha mãe, pintado pelo meu primo, que na época tinha uns oito anos de idade, num trabalho de escola, era uma telinha de aquarela, tinta e tal. Eu gostei muito do jeito que ele desenhou minha mãe todo distorcido, na visão dele, e aí tirei uma foto daquilo e falei “mano, vou usar isso daqui algum dia pra alguma coisa, porque ficou muito legal”.

Em 2024 começou a ideia de gravar esse segundo disco solo e reparei que nesse garimpo da seleção das músicas eu comecei a pegar muita coisa que eu tinha escrito, principalmente na época em que a gente estava bem recluso [a pandemia] e nesse lance mais aflorado de sentimento, de emoção, principalmente por conta da nossa própria família. A gente tinha muito medo de alguém morrer. Então fui escrevendo muita coisa durante esse período e na hora de escolher o repertório do disco, fui reparando que tinha muita coisa ali que falava muito sobre família, não só sobre só a minha especificamente, e não só sobre família de sangue, mas falando sobre amigos, sobre relações pessoais que não eram relações românticas, enfim, não necessariamente um romance… quando eu fui amarrando tudo isso, veio a ideia de usar aquele desenho na capa desse disco. Qual o jeito mais simbólico de amarrar tudo isso? É colocando meu nome no disco. Acho que pouca gente sabia meu nome até então, eu sempre fui conhecido como Bola. Estava tudo amarrado para esse lado de ser mais pessoal e mais familiar e não tinha como não colocar isso [o nome “Rafael” no disco] por último.

O disco tem uma forte presença da sua família — desde as inspirações até a própria arte da capa. Como foi envolver pessoas tão próximas nesse processo criativo?
É um processo coletivo passivo, né? Porque essas pessoas não sabiam, até então, que iam estar envolvidas em um disco. Tipo, eu fui pescando as coisas sozinho sem deixar explícito o tempo todo que estava fazendo isso. Não falei para o meu primo “Fabio, vou usar o seu desenho na capa do meu disco, porque ele fala sobre a nossa família e tem uma música sobre a nossa avó que já morreu e não sei o quê”, foi algo que fiquei pensando sozinho. Mas foi um trabalho coletivo, obviamente, mesmo que de forma passiva, e foi diferente de fazer porque sempre tive banda e esse lance de sempre contar com a opinião de mais de uma pessoa, de fazer as coisas ativamente com mais de uma pessoa, sempre discutindo, tentando ceder um pouco e fazendo votação para resolver qualquer tipo de coisa. No trabalho solo tem isso de você bancar as suas escolhas sozinho, dando certo ou dando errado.

Só que ao mesmo tempo eu tinha esse suporte passivo por trás, a minha família no geral, todas as pessoas envolvidas no disco, meu primo que fez a capa, minha mãe, que é o desenho, a minha irmã que pintou, a minha avó que já é falecida… de alguma forma elas participaram comigo disso, mesmo que não foi de uma forma completamente ativa. Então foi algo bem especial. Até fazendo um paralelo muito engraçado, o nome da música que eu fiz para minha avó é “Sozinho”, e sozinho foi algo que eu não me senti fazendo esse disco, porque tinha tanta gente envolvida por trás disso, de forma bem passiva, mas presente, que não senti que era um disco solo. Isso de “disco solo” parece que fiz sozinho. Fora a galera do estúdio que ajudou na gravação, nos arranjos, na parte do processo prático de fazer o disco.

Você contou que muitas músicas nasceram durante a pandemia. Ao revisitar hoje essas canções, você sente que elas ganharam novos sentidos?
Sim, com certeza! Acho que não só as músicas, mas a vida ganha outro sentido pós pandemia, é inevitável. Quem se manteve a mesma pessoa durante três anos tem que marcar uma terapia aí (risos) porque ninguém saiu ileso. E, ao mesmo tempo que elas dão outro sentido, elas também têm esse trabalho de registrar aquele momento. Eu sempre falo que um disco, uma música, qualquer coisa que é uma gravação de algo, é um registro daquele tempo, daquela época, daquele contexto todo, seja uma foto, um vídeo, um clipe, um disco… para mim, o disco, apesar de ter sido gravado no pós pandemia, não deixa de ser um registro muito importante do período que eu estava nessa reclusão, vivendo isso tudo com esse medo e lidando com essas coisas todas.

Quando eu ouço, consigo lembrar de muita coisa que eu estava vivendo naquela época, do meu pai ter sido internado, da gente não saber o dia de amanhã, se a coisa ia demorar para terminar, se a vacina ia chegar logo, se ia funcionar, se não ia… quando eu canto as músicas, é impossível, de alguma forma, não me teletransportar para aquele período ali onde eu escrevi esse disco.

O violão é o “ator principal” de “Rafael”. Por que essa decisão de deixar a guitarra de fora, mesmo sendo uma marca tão forte no seu histórico musical?
Acho que estou ficando velho, mano, estou ficando cansado de tocar guitarra e apertar um monte de pedal (risos). Agora falando sério, nesse disco, apesar de ter uma banda tocando junto, optei por não ter guitarra. Acho que isso, primeiro, veio em decorrência dessa estética do trabalho solo, de não ser um trabalho propriamente dito de rock, de não ter muita guitarra presente ali, e veio também de encontro com esse lance de que a grande maioria delas foram feitas na pandemia e tudo mais, e eu só tinha o violão para tocar. Então fiz tudo no violão.

Tudo bem que componho tudo no violão, só que é diferente quando eu vou compor para a banda, por exemplo, porque sei que no dia seguinte eu vou estar no estúdio usando uma guitarra e pedais, então já faço as composições das músicas da Zimbra pensando no espaço da guitarra, da bateria, do baixo, dos metais e tal. Na pandemia, simplesmente compus as músicas no violão como se elas fossem existir apenas daquela maneira ali, sabe? Porque eu não tinha como pensar em mais recursos a curto prazo, porque a gente estava naquele período de reclusão e não sabia como eu ia pro estúdio ou quando ensaiar. O violão, além desse lance estético, ele tem essa parte de que eu tentei manter a fidelidade de como as músicas foram feitas enquanto eu estava lá no quartinho da casa da minha mãe, fazendo as músicas, tocando só no violão, sem pensar em como seria se elas tivessem guitarra, baixo, bateria. Isso veio depois e foi construído em volta do violão.

Você reuniu nomes como Teago Oliveira, Ivyson e Marcos Almeida, por exemplo, neste disco. Como se deu a escolha dos convidados e o que cada um trouxe de especial para as faixas?
Foi muito legal trabalhar com participações, porque eu nunca tinha feito isso no meu trampo solo e a Zimbra, mesmo com dezoito anos de banda, a gente só teve, sei lá, umas duas participações em toda nossa discografia. Nós temos cinco discos e vários singles, deve dar umas oitenta músicas, e pensar que só tivemos duas participações nessa discografia toda é muito pouco. Nunca tive esse hábito. Resolvi fazer isso no disco porque acho que ele pedia esse lance, já que eu estava falando sobre família, como falei no começo, não apenas de sangue, mas esses laços que a gente cria ao longo da vida, de admiração por amigos ou por pessoas do nosso nicho de trabalho. Falando em termos técnicos e práticos, foi uma experiência muito enriquecedora, é muito legal ver a sua música tocada e cantada pelos olhos de outras pessoas, uma experiência que eu tive pouquíssimas vezes na vida. E isso, ao mesmo tempo, também dá um novo sentido, [pois] sinto que a música não é mais minha, a música é minha e de tal pessoa, teve outra pessoa que entrou ali, contribuiu com a parte dela, cantou e deu a interpretação dela.

Às vezes, inclusive, interpretações que eu imaginava de um jeito e ela foi lá e fez de outro, o que foi o caso do Marcos Almeida. Quando ele foi gravar foi muito louco, porque na minha cabeça a gente ia fazer uma coisa, só que ele veio com várias outras ideias lá no final da música e harmonias que eu não consegui nem cogitar a possibilidade de falar assim “mano, vamos ouvir de novo para ver se ficou legal”, porque, na hora que ele fez, fui pego de surpresa positivamente e foi aquele lance de [pensar] “mano, nem vou mexer, vai ficar do jeito que ele fez aí”, porque, às vezes, a primeira ideia é a melhor ideia.

Isso também rolou muito com a Letícia [Filizzola], que é a única participação de guitarra no disco e que é uma guitarrista bizarra de boa. Quando mandei a música, ela me voltou com algo que eu nem imaginava, na minha cabeça ela ia fazer umas frases ali, um solo com um efeito maneiro e tal, e ela me voltou com um solo de pedal, com pouquíssimas notas, mas com muita textura, muito pedal… um lado que nem imaginava que daria para ir. Foi bem legal ouvir a minha música pelo ouvido de outras pessoas, foi o que aconteceu no fim das contas. Foi uma experiência bem legal!

Você disse que não busca entregar mensagens grandiosas, mas sim presença e verdade. Em que momento percebeu que esse era o caminho para “Rafael”?
Foi no momento que percebi que deveria simplesmente só fazer o que eu era naquele momento, sabe? Eu peguei e assumi o papel da minha limitação, não querendo diminuir… na minha cabeça, limitação não significa a diminuição de algo ou o que é ruim ou bom, feio ou bonito, significa que é ali que você consegue parar, aquele é o seu caminho. Tem gente que consegue limites diferentes para coisas diferentes. E eu entendi que o meu limite era aquilo de fazer uma música mais simples, de passar uma mensagem que, apesar de você conseguir ter muitas interpretações, ela é falada e cantada de um jeito simples. Não fico usando muitas palavras bonitas, não fico deixando muita coisa no ar, aquele lance meio místico de [pensar] “nossa, o que será que ele quis dizer com essa frase?” [eu quis dizer] literalmente o que está escrito ali, e dali você pode pegar e fazer a sua interpretação, não tem problema nenhum. Tentei ser o mais honesto comigo, gosto de pensar nas coisas de uma forma não literal, mas de uma forma simples.

O que os fãs da Zimbra podem encontrar de diferente — ou talvez complementar — em “Rafael”?
Nossa, cara, é uma ótima pergunta, porque é muito difícil. Eu já tentei me desvencilhar muito da banda, digo no modo artístico, e fazer algo que seja bem diferente. Resolvi assumir o que eu sou e não ficar tentando forçar um caminho para ser diferente ou pra ser outra coisa, quando na verdade nem tem como, né? Ouvi uma entrevista do Samuel Rosa em que ele fala sobre a gravação do disco dele, porque a galera achou muita coisa parecida com Skank, e ele falou “cara, eu não tenho como fugir de mim mesmo”, e é exatamente como me sinto. Sou compositor das músicas da Zimbra, canto na Zimbra, então as pessoas vão ouvir as minhas músicas solo e vão ouvir a minha voz. É impossível que eu espere que elas façam essa desconexão das coisas, não vai acontecer. Elas vão, de certa forma, achar vários pontos parecidos.

O que tento fazer no meu trabalho solo é, primeiramente falando do lado artístico, talvez deixar com uma cara de um som mais folk, enquanto a Zimbra é uma banda de rock alternativo, indie, então tento deixar [o trabalho solo] nessa linha de som que a gente não faz na Zimbra. E tento ser um pouco mais um contador de histórias, porque a Zimbra, apesar de estar lá cantando e passando a minha mensagem, são quatro contadores de história em cima do palco, cada um dando a sua expressão de um jeito pra música. Quando faço sozinho, tento deixar as coisas sob a minha ótica e do jeito que eu exatamente pensei em passar. Então, ao mesmo tempo que se torna muito mais pessoal por conta disso e se diferencia um pouco, é também aquele lance que falei de ter que bancar isso sozinho, é uma escolha minha de para onde as coisas vão. Esse é o lance pra mim de ter um trabalho solo e me arriscar em coisas que eu quero sozinho.

A banda conta com mais de uma pessoa e é uma unidade de combinações de opiniões, de referências, de jeitos de tocar… acaba não sendo exatamente como eu quero, exatamente como o guitarrista quer, como o baterista quer, como o baixista quer, acaba sendo a fusão da opinião dos quatro. A diferenciação que tento fazer com o público com meu trabalho solo é que isso aqui é a minha visão sobre as músicas que estou escrevendo, apenas a minha visão. Quando vai pra Zimbra, tem esse lance da contribuição dos outros três e aí se torna uma coisa nossa, não uma coisa minha.

Para você, qual é o futuro dessa obra? Ela é um ponto de chegada ou um ponto de partida?
Cara, não penso muito nisso no trampo solo, apesar de querer levar isso para frente com muita seriedade. Quero tocar no máximo de lugares que eu conseguir ir, gravei o disco e lancei por conta disso, senão ficava ouvindo em casa e não lançava para as pessoas ouvirem. Só que tento não pensar muito na resposta disso, porque esse trampo, esse projeto todo que começou em 2017, é para ser uma espécie de laboratório, tipo uma válvula de escape ali da banda e para fazer coisas que eu não faço dentro da banda, porque ela já tem a sua própria identidade e já anda com as suas próprias pernas. Tipo, a gente sabe o que é a banda, nós não vamos gravar um disco de pagode no ano que vem com a banda Zimbra, mas eu posso pegar e simplesmente fazer sozinho. Se fizer é uma decisão que vai ser só minha e eu não vou precisar me preocupar com a resposta comercial disso. O trabalho nasceu para ser esse laboratório, ser essa experimentação… eu disse que [esse disco] não tem guitarra, pode ser que o próximo disco seja só de guitarra e não tenha nenhum violão. É essa liberdade que busco no meu trabalho solo, de experimentar coisas, de poder errar, acertar, mas não precisar ficar me preocupando muito com isso.

– Danilo Souza é estudante de jornalismo da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia). Acompanhe seu trabalho em instagram.com/danilosouza.jornalismo. A foto que abre o texto é de André Calvão / Divulgação

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