texto de Bruno Capelas
fotos de Thiago Almeida
Se em setembro de 2024, alguém dissesse que uma banda argentina seria capaz de esgotar 3 mil ingressos em São Paulo, provavelmente a previsão provocaria risos no ouvinte. Mas o mundo da música é cheio de histórias que parecem dignas de mágica ou de contos de fada. No caso dos princesos Ca7riel & Paco Amoroso, que lotaram a Audio numa noite de quarta-feira neste setembro de 2025, a fada madrinha dessa história se chama NPR – a rádio pública americana que, com sua bombada série de vídeos Tiny Desk Concert, ajudou os portenhos Catriel Guerreiro e Ulises Guerriero a alçarem fama global há pouco menos de um ano, enquanto ainda promoviam seu primeiro álbum cheio, “Baño María”.
Como é comum nestes tempos, parte do sucesso se deve ao fato de que uma das canções do recital da NPR virou meme: “El Único”, com sua divertida história de dois amigos que se dão conta de que estão saindo com a mesma mulher de tatuagem no pescoço (sí!), cabelo preto (sí!) e silicone nos peitos (fuck!). Mas, em pouco mais de 75 minutos, Ca7riel (lê-se “Catriel”) e Paco Amoroso provaram em São Paulo que vão muito além de um viral, em um espetáculo de ritmo tão acelerado quanto sua ascensão popular.
Previsto para começar às 21h30, o show da dupla só foi ser iniciado mesmo lá pelas 22h, graças a uma insistente fila na porta da casa de shows na Barra Funda. Na espera, nada de reggaeton ou pop latino: o que se ouvia dentro da Audio eram temas do pianista Keith Jarrett, conhecido pelo minimalismo. A cada canção encerrada, a expectativa para o começo do show era criada; quando outra música se iniciava, a sensação era de gol contra tamanho o muxoxo da geral. “Puta que pariu esse pianinho”, chegou a gritar um fã impaciente. Outro bradou: “Tá na hora de começar essa porra que todo mundo aqui é velho.”

Era só pose: a maioria dos presentes pertencia à geração Z, com direito a sobrancelhas descoloridas, camisetas da Argentina, figurinos ousados e bonés de “Papota” – o irônico EP e curta-metragem que a dupla lançou em meados de 2025. Juntando novas canções com os números apresentados no Tiny Desk (e vindos do álbum de estreia), o trabalho faz piada com o próprio sucesso após a viralização e com as possíveis concessões que os dois teriam de fazer para seguir nas paradas – falar inglês, fazer dieta, deixar de compor suas músicas para cantar criações de inteligência artificial e até tomar anabolizantes (“papota” é sinônimo de “bomba” no vocabulário callejero da Argentina).
Na mesma linha de humor, não chega a surpreender que os temas de Jarrett tenham sido sucedidos por uma trilha sonora do jogo “The Sims” para anteceder a entrada dos argentinos no palco – escolha que dá à noite um tom de realidade plastificada que cabe bem à blague da dupla. Quando Ca7riel e Paco Amoroso entram no palco e atacam com “Dumbai”, porém, pouco há de artificial na reação da plateia, que canta a letra por inteiro e grita histericamente a cada movimento sutil da dupla.
Para o incauto lá do começo do texto, a sensação é de incredulidade: afinal, o que faz com que esses argentinos tenham conseguido aqui no Brasil, tradicionalmente fechado a artistas latinos, um nível de sucesso poucas vezes alcançado? Ao longo do show, Ca7riel e Paco Amoroso vão oferecer boas respostas para essa pergunta. A primeira é o tom de festa que a noite adquire: sem pausas para dizer “buenas noches” ou agradecer o público, os dois – e sua banda com quase dez membros, entre cordas, metais e percussão – atacam seis temas em sequência, botando todo mundo pra pular ao som de bpms avançados e metralhadoras verbais.

A diversão poderia ser ainda maior, vale dizer, se o espaço não estivesse tão lotado: durante a noite, foi difícil se locomover dentro da pista, nas áreas de bar e até mesmo no mezanino. Mais do que isso, há quem tenha começado a passar mal com o calor no recinto, abarrotado a ponto de estar à beira de um acidente que felizmente não ocorreu – mas chama a atenção para futuros espetáculos “esgotados” na Audio. (Por outro lado, é digno de nota que o som estava excelente!).
Fato é que a multidão tornava fácil perceber que há algo novo na forma como os brasileiros têm recebido o que é latino (ou trafega nessa seara). De um lado, há o poder global de figuras como C. Tangana, Rosalía e Bad Bunny, que alçaram o espanhol para as paradas de sucesso. Do outro, há certo orgulho em não ser só um grande país lusófono isolado, mas sim parte de um contexto maior chamado América Latina – um sentimento complexo que passa pelo momento político nacional, pela compreensão geopolítica, pela proximidade cultural reforçada por uma globalização hiperconectada e até mesmo pela oferta de aulas de espanhol na rede pública de ensino, substituindo o inglês em alguns locais. “Gracias a Dios soy latinoamericano”, diz um meme compartilhado a rodo nas redes sociais.
Outro meme que tem nos unido aos hermanos nos últimos tempos é aquele que diz que, na América Latina, nenhuma experiência é exatamente individual. É uma ideia que ecoa na cabeça quando se olha o formato que a banda assume no palco: há algo ali que relembra uma formação de roda de pagode, com Ca7riel e Paco à frente e os músicos se divertindo atrás. A sensação é ainda maior quando se percebe que os dois são excelentes melodistas, capazes de alternar ritmos sincopados com refrões assobiáveis, como “Baby Gangsta”, “Mi Diosa” ou “Impostor” – uma das divertidas faixas de “Papota” que brinca com a ideia de que, mais hora menos hora, alguém vai descobrir que os dois são uma fraude (hola, Milli Vanilli!).

Depois de mais de vinte minutos extremamente intensos, os dois finalmente fazem uma pausa rápida: em 30 segundos, agradecem ao Brasil e dizem que há meninas lindas na plateia – “e meninos também”, complementa Paco. Na sequência, ele mesmo aproveita a deixa para indicar que “chegou a hora das baladas e do coração partido”, pedindo para que todos os presentes liguem as luzes de seus celulares “em um momento Coldplay”. É a senha para a baladaça “Pirlo”, que conta até com um bom solo de guitarra de Ca7riel, mostrando evidente inspiração de Carlos Santana. Por um momento, o barulho é tão forte que o incrédulo interlocutor poderia achar que estava não na Audio, mas no Allianz Parque.
A essa altura, o relógio ainda vai pouco além das 22h30, mas a dupla já fez uma viagem sonora global, sobrepondo estilos como quem vai alternando vídeos curtos no TikTok. Eles viajam do trap ao adult oriented rock, do jazz fusion ao reggaeton, passando pelo senso pop-rock hermano, pelo R&B contemporâneo e até por um tiquim… não de carimbó, mas de escola de samba – como fica claro no balanço de “Re Forro”, primeiro momento em que os dois se levantam e trazem um rebolado que faz os meninos e as meninas lindas delirarem.
O mais interessante é que a fritação de estilos não parece afetar a experiência do público, em recepção condizente com uma geração supostamente viciada em dopamina – se os sintomas persistirem, consulte um médico. E quando parece que não há mais o que explorar, os dois tocam “Sheesh” e “Supersónico”, transformando o show em uma balada EDM de primeira, com direito a laser verde e graves pulsantes. Logo depois, Ca7riel aproveita para mostrar dois números solo – “Polvo” e “McFly” –, enquanto o parceiro Paco canta a sua “Todo El Día”, recebendo em resposta gritos de “tira a camisa” da plateia. Ele obedece, enquanto o amigo pergunta: “lo quieren más desnudo?” (“vocês querem ele mais pelado?”).

É tudo muito veloz: com uma hora de show, os dois já executaram nada menos que dezoito faixas, em rotação impressionante. É nesse momento, com “Ola Mina XD” e “Cono Hielo”, que o espetáculo atinge seu ponto menos interessante, algo que se explica pela máxima do poeta que diz que “excesso de informação é algo que desensibiliza a gente”. A sensação mental é equivalente à de tomar um tiro – e talvez não seja à toa que Ca7riel chegue a fazer o gesto de uma metralhadora para a plateia, que urra em resposta.
Espertamente, os dois sabem que estão perto do fim – e guardam seu melhor para o que vem adiante. Primeiro, vem a divertida “#TETAS”, idealizada em “Papota” como a canção que lhes ajudará a ganhar um Latin Chaddy (mas pode chamar de Grammy). Ironicamente, é justamente uma das duas canções da dupla escolhidas pela Academia Latina da Gravação, na mesma semana do show, para concorrer como Música do Ano na premiação. A outra é ainda mais bacana: “El Día Del Amigo”, cuja declaração de afeto e ritmo chicletudo relembra grandes momentos do pop argentino à la Fito Páez e Charly García.
As cortinas se fecham, mas o carnaval não terminou: há ainda tempo para que os dois retornem ao palco para cantar a canção que lhes consagrou, com direito a carruagem e sapatinho de cristal. Aguardadíssima, “El Único” chega como a consagração final, a apoteose de um show de 75 minutos que parece ter durado o dobro do tempo, tamanha a intensidade. É cedo para dizer se, tal como num conto de fadas, Ca7riel e Paco Amoroso serão felizes para sempre. Mas o próximo baile não está distante: no dia 30, os dois abrem para Kendrick Lamar no Allianz Parque. É bom o Pulitzer Kenny prestar atenção para que esses dois chads chavosos não roubem a cena e o façam virar abóbora. “Fuck!”.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.