Cemetery Skyline faz um showzaço em São Paulo em que até o silêncio arrepiou

texto de Paulo Pontes
fotos de Douglas Mosh

Imagine só: juntar músicos do Dark Tranquillity, Sentenced, Amorphis, Dimmu Borgir… nomes que, sozinhos, já moldaram boa parte do que o metal escandinavo tem de mais pesado e respeitado. Natural imaginar que dessa soma sairia algo extremo, né? Errado! É aí que vem a surpresa: o Cemetery Skyline, supergrupo que nasceu dessa união, caminha por outra estrada. Uma estrada gótica, melódica, sombria. E, talvez por isso mesmo, tão poderosa.

No ano passado saiu “North Gothic” (2024), primeiro disco da banda (e um dos melhores lançamentos do ano), que nasceu da bagagem de quem viveu intensamente os anos 80 e 90 do dark rock, do crossover e do gothic, e que já tinha uma ideia muito clara de como o Cemetery Skyline deveria soar. Mais do que definir o que seria, a banda partiu de uma certeza sobre o que não seria: nada de riffs extremos de death ou thrash metal, mas sim composições com total liberdade criativa. Essa escolha resultou em um som que dialoga com o passado, mas sem se prender a ele. Um reflexo da experiência acumulada e, ao mesmo tempo, da ousadia de trilhar caminhos inéditos.

Com o disco lançado e bem recebido, o Cemetery Skyline caiu na estrada para apresentar essas canções pela primeira vez ao vivo. A banda é formada por Mikael Stanne (vocal, conhecido do Dark Tranquillity, The Halo Effect), Markus Vanhala (guitarra, de Insomnium, Omnium Gatherum), Santeri Kallio (teclados, Amorphis), Victor Brandt (baixo, Dimmu Borgir entre outras) e Vesa Ranta (bateria, Sentenced), todos veteranos de peso.

A turnê passou por diferentes países da América Latina, e em meio a essa rota, a banda fez sua estreia no Brasil. Na terça-feira, 16 de setembro, o Hangar 110 em São Paulo foi o palco escolhido para a estreia da banda no país. E o show mostrou porque o projeto não é passatempo de veteranos, mas sim uma banda real, viva e com identidade própria.

Do primeiro acorde de “Behind the Lie” até o final apoteótico com “Alone Together”, o público foi carregado por um setlist que transformou melancolia em celebração. “Torn Away”, faixa que abre o debut album, incendiou a plateia. “The Darkest Night” e “The Coldest Heart” mergulharam todos em atmosferas densas. E quando chegou a vez de “I Drove All Night”, cover de Roy Orbison já lançado como single, o Hangar inteiro cantou em coro, uma comunhão entre palco e público que raramente acontece num show de estreia.

 

Mas nada se comparou ao último ato. Antes de “Alone Together”, um minuto de silêncio (sim, silêncio absoluto num show de metal) foi dedicado a Tomas Lindberg, vocalista do At The Gates, que havia falecido naquele mesmo dia. A emoção era palpável. Mikael Stanne, visivelmente abalado – e tentando conter as lágrimas –, transformou a música em homenagem, cantando como se entregasse uma parte de si em cada verso. O silêncio da casa e depois a catarse coletiva foram daqueles momentos que marcam pra sempre.

E no meio de tudo isso, o que mais chamou atenção foi ver cinco músicos consagrados se divertindo juntos no palco. Markus Vanhala brilhou nos riffs e solos, Stanne mostrou que sua voz limpa é tão intensa e maravilhosa quanto seus guturais, Santeri Kallio pintou as paisagens góticas no teclado, Victor Brandt deu a firmeza do peso, e Vesa Ranta, depois de destruir na bateria, ainda foi à beira do palco após o show, conversar com fãs, sem pressa.

O Cemetery Skyline não soa como projeto paralelo, não soa como reunião episódica de medalhões. Soa como banda de verdade. E isso ficou claro em São Paulo: músicas que já nasceram clássicas, público entregue, uma atmosfera única.

Que essa não seja apenas uma passagem breve, mas o início de uma história duradoura. Porque, depois do que aconteceu no Hangar 110, o que se espera do Cemetery Skyline é que continue a existir não como um “supergrupo”, mas como uma banda completa, pronta pra escrever seus próximos capítulos e se apresentar pra públicos cada vez maiores (por aqui e lá fora).

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *