fotos e texto de Fernando Yokota
Em sessão coletiva de terapia e descarrego, 33 mil fãs se uniram ao Green Day em Curitiba ma última apresentação da banda em seu giro sulamericano promovendo a turnê “Saviors”.
Em clima de família vendo álbum de fotos de férias passadas, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool convidaram os curitibanos para cantar mais de três décadas de canções que vão da angústia juvenil do coração apertado em “When I Come Around” aos salvos raivosos contra a sanha neoconservadora em “Holiday” e “American Idiot”, terminando com “Good Riddance (Time Of Your Life)”, música de fundo de 10 em cada 10 vídeo-montagens de retrospectiva de formatura.
Em “Basket Case”, as labaredas no palco, em generosa quantidade, carbonizam os espíritos exorcizados aos milhares em experiência que beira o religioso, um coquetel da incredulidade dos jovens que veem a banda pela primeira vez com a nostalgia de quem não conseguia não pensar no que fez no verão de 1994. Visto de longe, o público na pista se movimenta como um bandeirão tremulante formado por milhares de pessoas empenhadas no frenesi da coreomania da catarse.

“She”, que ficou de fora, foi substituída por “Letterbomb” com Armstrong abrindo um aposto no meio da canção para declarar o estado de guerra civil em seu país ao mesmo tempo em que suplica por amizade e união em meio a tempos sombrios nos Estados Unidos, que parecem viver o macarthismo, a guerra de secessão e o governo Nixon, tudo ao mesmo tempo agora.
O aspecto carregado na tinta política ainda traz joias como “Minority”, do subapreciado “Warning” (2000), com jeito de hino de sindicato de estivador de Boston e que poderia estar em qualquer setlist dos Dropkick Murphys, e as já mencionadas “American Idiot” e “Holiday”, gritos do horror altermundialista e trilha sonora dos que ousavam denunciar os abusos da chamada “guerra ao terror” dos anos 2000.

Mesmo nos tempos pré-cambrianos de Lookout Records a banda sempre teve em seu DNA um cromossomo pop que acabou naquilo que foi batizado como pop punk. Em “St. Jimmy”, o staccato punk galopante da mão direita de Armstrong se mistura às fitas vermelhas que explodem no ar. Executado à perfeição (não obstante uma falha momentânea nos telões), o espetáculo quase operístico subverte a ética punk dos “três acordes e uma verdade” e vice-versa: é dessa forma orgânica que se constitui o Romeu e Julieta dialético de cultura pop formador da identidade do Green Day.
Numa noite gelada e memorável (em iguais medidas), o ato final do repertório ainda guardava “Jesus Of Suburbia” que, com seus quase dez minutos, é o certificado de autenticidade de “American Idiot” (2004) como o legítimo “Quadrophenia” millenial, que é seguida por “Bobby Sox”, executada em meio a papel picado, fogo e 30 mil pessoas pulando como se não houvesse amanhã.
Em clima de fim de festa, com as luzes acesas, “Good Riddance (Time Of Your Life)” faz a vez do hipnoterapeuta contando até dez para que o paciente volte à consciência. Ninguém, contudo, parece querer acordar, afinal de contas ainda faltam dezoito dias para setembro acabar.

American Idiot
Holiday
Know Your Enemy
Boulevard of Broken Dreams
One Eyed Bastard
Revolution Radio
Church on Sunday
Longview
Welcome to Paradise
Hitchin’ a Ride
Brain Stew
St. Jimmy
Dilemma
21 Guns
Minority
Basket Case
When I Come Around
Letterbomb
Wake Me Up When September Ends
Jesus of Suburbia
Bobby Sox
Good Riddance (Time of Your Life)

– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: instagram.com/fernandoyokota/