texto e vídeos de Alexandre Lopes
fotos de Natália Michalzuk
No 7 de setembro, enquanto nas ruas desfiles militares tentavam vestir de verde e amarelo um patriotismo de fachada, dentro do Martim Cererê outras bandeiras mais significativas eram erguidas: guitarras, baixos, baterias e gritos guturais. O último dia do Goiânia Noise Festival 2025 não ignorou a coincidência da data. Pelo contrário: bandas de diferentes vertentes ergueram sua própria versão da independência – feita de barulho, suor e crítica social. O line-up do domingo foi o mais pesado e extremo do festival, e também o mais explicitamente político, com nomes que colocavam no centro de suas performances manifestos contra intolerância, negacionismo e conservadorismo.

A programação começou com o Agnoizze, duo de Goiânia que assumiu o horário da recém-dissolvida Madam No Mercy, que cancelou sua participação. Às 16h30, Pedro (baixo/vocal) e Frederico Damasceno (bateria) abriram os trabalhos no palco Yguá com um noise/punk cru, direto, marcado por vocais gritados e anunciaram uma composição que era sobre como foi “divertido trabalhar no Habib’s”. A poesia de fritura de esfiha do proletário de fast food foi um pontapé interessante para um dia que prometia ser barulhento e incômodo.

Na sequência, com “Só Não Vai Jair” de introdução, os veteranos do Ímpeto mostraram seu autoproclamado “hardcore geriátrico” no palco Pyguá. Fundada em 1998, a banda se posiciona como herdeira direta do punk como um espaço de crítica contra religião, capitalismo e fascismo. Teve música dedicada a todos os “milionazis”, blasfêmias como “Traído por Deus”, agradecimentos a Adélio Bispo pelos serviços prestados ao Brasil e uma demonstração da “dancinha do Satanás”. No encerramento, deixaram a mensagem convincente “envelheça com qualidade, não vire crente” e mandaram “Medo”, clássico do Cólera.

Formado por ex-integrantes de Hellbenders, Mugo e Almost Down, o trio Teia representou um elo mais recente da vertente roqueira, com fortes traços de nü metal. Com letras em inglês e português, remetia ao peso de Deftones com um pouco mais de groove hardcore. “Esse som é para todo trabalhador honesto nesse país”, berraram, para anunciar “Vassalo”. Enquanto isso, no meio da pancada, uma mãe assistia à apresentação da porta, com uma criança no colo e outra ao lado – uma amostra de que, até mesmo o dia mais extremo ainda chamava atenção de um público variado.

O death metal old school da Leprosy acrescentou mais brutalidade ao início da noite. Ativo desde 1989, o grupo faz parte da primeira geração do metal em Goiânia e apesar da presença no palco meio arqueológica, a banda ainda manda temas bem pesados, com guturais e riffs velozes. Trajando uma regata onde se lia “adote um animal de rua”, o vocalista Allan Paulino alternava urros cavernosos e um “obrigado” em voz de locutor de rádio assim que a música chegava ao fim. Um contraste bizarro e ao mesmo tempo engraçado, que conferia uma simpatia extra aos headbangers.

A partir daí, a noite se abriu para outras hibridizações. A baiana Dona Iracema trouxe seu “caatincore” (mistura de hardcore com forró e axé) uma bricolagem sonora que conecta tradição regional e letras com crítica social em uma performance bem debochada. Teve até um momento em que toda a banda (menos o baterista) desceu do palco para formar uma roda de pogo com o público. Uma baita bagunça que foi chancelada e aproveitada por todos os presentes.

A União Clandestina operou em um eixo semelhante de mesclar influências, juntando rap e rock de forma eficiente e pesada, mas sem promover o mesmo caos e empolgação da apresentação anterior. O quarteto catarinense Budang surpreendeu com um set de hardcore quase metal, mandando uma pedrada atrás da outra. Faixas como “Budangól” “Aditivos” e “Gratiluz 171” botaram fãs novinhos e punks veteranos para pogar e o vocalista Gui Guths arriscou um crowd surfing. No final, teve tempo até para uma versão mais pesada de “1406” do Mamonas Assassinas.
Coube aos Devotos de Nossa Senhora Aparecida, liderados por Luiz Thunderbird, dar uma segurada nos ânimos exaltados da galera com um set mais calmo. Começando com “Eu Não Gosto Mais De Você” uma versão de “Not Fade Away” de Buddy Holly, a banda fez uma viagem ao rockabilly e blues elétrico, celebrando o relançamento do disco de estreia pela Monstro Discos. O show também contou com uma rápida participação de Márcio Jr (Mechanics).

E o que dizer do Mechanics? A banda que é praticamente o fígado do Goiânia Noise, sendo os únicos a tocar em todas as trinta edições do festival? Fizeram um show de rock sujo, feio, maldito e bem alto no palco Yguá, começando com “Século XXI”, passando por “Monga”, “Ódio” e finalizando com “Formigas”.

Logo depois, o stoner poderoso dos goianos da Hellbenders fez o público balançar cabeças e corpos com uma apresentação impecável, com riffs pesados preparando o terreno para o que viria a seguir. Antes do show final, o organizador Léo Bigode subiu ao palco e pediu calma à plateia, que se acotovelava para passar por uma das portas emperradas do Yguá. Pediu cuidado mútuo e tranquilidade, lembrando que a celebração só faria sentido se todos pudessem aproveitá-la juntos.

Com bandeiras do MTST e Carlos Marighella em cima dos amplificadores, o Ratos de Porão disparou clássicos como “Anarkophobia”, “Crucificados pelo Sistema” e “Alerta Antifascista” numa performance que transformou o palco Yguá em uma trincheira, como quem distribui molotovs sonoros. João Gordo, Jão, Boka e Juninho fizeram um show de encerramento frenético, emendando uma música atrás da outra. Nos raros momentos de pausa, João Gordo aproveitou para dar recados políticos: “Bolsonaro filha da puta, vai em cana seu desgraçado. Carla Zambelli vai em cana, vaca desgraçada!”.

Sobrou até para um dos seguranças, que constantemente o encarava. “você é Bolsonarista é?” perguntou Gordo, que o questionava pela cara amarrada o tempo todo. Após insistir para que o segurança desse risada, um sorriso sem jeito do bedel fez com que o clima ficasse mais leve e Gordo voltou a berrar suas letras como se o pulmão fosse explodir. Antes de “Beber Até Morrer”, João brincou com sua condição atual, dizendo que não bebe e não usa mais drogas. “Eu tô com 61 anos, não faço mais essas coisas”. Mas pelo visto ainda grita, cospe, ri e desafia bastante. E em resposta, o público pula do palco, empurra, cai, levanta e ajuda os caídos a se reerguer.
E assim terminou a 30ª edição do Goiânia Noise Festival: sem atrações internacionais, sem stands de patrocinadores, sem ativações com influencers, sem distribuição de brindes em troca de divulgação digital ou qualquer outra pirotecnia de marketing. Apenas música, suor e intensidade. Praticamente todas as bandas brasileiras convocadas entregaram sets memoráveis. O que fica são ouvidos zunindo e a certeza de que o barulho não cessou: ele continua latejando no crânio, como um zumbido que insiste em não desaparecer. Talvez essa seja a independência a celebrar em 7 de setembro de 2025 – não a dos palanques e desfiles militares, mas a construída no underground, entre distorções, pogo e persistência. Que o Noise goiano siga por mais 30 anos.
Saiba como foram os outros dias do Goiânia Noise 2025

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.