texto e lista comentada de Renan Guerra
fotos de Marcelo Costa
O Festival Se Rasgum é um dos mais importantes festivais musicais do Norte do país e, em sua edição de 2025, foi reconhecido como Patrimônio Cultural e Imaterial de Belém do Pará. Com isso, o evento que comemora 20 anos de existência em 2025, teve motivos em dobro para celebrar. Marcado para o dia 6 de setembro, o festival já estava levando música para as ruas de Belém desde o dia 3 de setembro, com a realização da Conferência ALMA – Amazônia Legal Música & Arte, que reuniu importantes nomes do mercado musical brasileiro e internacional em três dias de encontros, palestras e oficinas. A cada dia, a ALMA se encerrava com uma série de showcases gratuitos realizados no Anfiteatro do Forte de São Pedro Nolasco, anexo a Estação das Docas.
A equipe do Scream & Yell passou cinco dias em Belém e essa experiência de viver a cidade também se une a experiência sonora do Se Rasgum: Belém está sob o olhar do mundo em função dos preparativos para a COP 30 – a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025. A cidade está em obras, passando por muitas transformações, incluindo aí um aumento considerável nos preços de diferentes itens de consumo – vai para Belém? Prepare seu bolso para poder tomar um sorvetinho ou uma caipirinha com jambu. De todo modo, visitar a capital paraense é uma oportunidade única de poder experimentar a rica, sonora e criativa cultura do Pará, com suas múltiplas experiências gastronômicas e artísticas – incluindo aí a acolhida deliciosa dos paraenses ao nos receber e nos convidar para dançar!
Quando falamos especificamente do Se Rasgum, o festival também buscou celebrar essas experiências bastante simbólicas da cidade, incluindo aí um set de rock doido nas Docas, um paredão de dub dentro do festival, uma feira de itens locais, que ia de banhos de cheiro a lubrificante de jambu, e uma série de pratos típicos da cidade como opções de lanche durante a madrugada – o festival começava no final da tarde e entrava madruga adentro. Enfim, apenas no Se Rasgum era possível curtir um show do Teenage Fanclub enquanto se deliciava com tacacá ou maniçoba. É isso: foram cinco dias de uma imersão na cultura paraense e na música do mundo, por isso é até difícil elencar as melhores experiências que vivemos, porém separamos aqui um top 7 com shows que dão um pouco do tom diverso e único do Se Rasgum (e convidamos amigos do site para ampliarem o olhar com suas listas pessoais). Confira abaixo:

1 – Otto toca “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”
O galego entrou no palco do Se Rasgum quase às 5 da manhã, porém isso não diminuiu o ânimo da plateia que esperava ansiosa pelo show que celebra um dos mais importantes discos do artista recifense, o “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos“, de 2009. No palco, canções como “6 Minutos”, “Crua”, “Naquela Mesa” e “Agora Sim” ganham ainda mais força, apenas confirmando a potência do álbum em suas dores e suas mágoas. Na plateia, o público cantava em coro – com direito a algumas boas lágrimas, pois ninguém é de ferro. Além de tocar o disco na íntegra, Otto pediu a produção do Se Rasgum não um bis ou uma canção extra, ele perguntou logo se poderia tocar 30 minutos a mais e assim o fez: “Ciranda de Maluco”, “Bob” e outros clássicos apareceram no ato final do show, que se encerrou já com o sol alto no céu de Belém. Um fim de festival que lavou a alma de quem é apaixonado por lavar suas mágoas com boa música.

2 – DJ Méury
Pioneira na produção de hits do tecnomelody, Méury foi a primeira mulher a produzir sucessos no gênero, se transformando em uma figura emblemática do tecnomelody e do rock doido. Encerrando a terceira noite da Conferência ALMA, em set gratuito na Estação das Docas, DJ Méury trouxe para o palco toda a sua pirotecnia usual, que inclui labaredas de fogo, jatos de gelo seco, chuva de papel picado e sua maravilhosa bazuca de fumaça. Seu famoso remix de “Voando pro Pará”, de Joelma, apareceu ao lado de remixes de hits atuais como “Hoje em Dia é Difícil Encontrar”, de MC Xangai, e de canções clássicas das festas de aparelhagem. Tudo isso entremeado por falas e chamamentos de Méury, que conclama o povo para dançar e repetir coreografias clássicas – bem como entoar os quase mântricos gritos de “Dá-lhe Sal” e “Endoida Caralho”. Uma festa única como só o Pará pode nos proporcionar!

3 – Fernanda Abreu
“Sla Radical Dance Disco Club” está completando 35 anos e passou por uma fase de redescoberta por parte de um público jovem, das pistas, que passou a se reconectar com o som de Fernanda Abreu – além disso, esse ano seu disco “Da Lata” completa 30 anos e ganhará um documentário a ser lançado no Festival do Rio, em outubro. Por isso, nos palcos, Fernanda desenvolveu um show que revisita sua trajetória de forma ampla, onde aparecem o medley de “A Noite / Sla Radical Dance Disco Club” e clássicos como “Veneno da Lata” e “Garota Sangue Bom”, bem como seus icônicos encontros com a obra de Fausto Fawcett em “Kátia Flávia, A Godiva do Irajá” e “Rio 40 Graus”. Ladeada por sua backing vocal e uma dançarina, Fernanda ainda mostra no palco a sua verve dançarina, fazendo coreografias e estripulias corporais, dando ao show um clima de baile extremamente carioca, criando uma festa que conquista o público e que nos faz dançar revisitando toda a riqueza da nossa música pop, da new wave ao funk carioca.

4 – Crizin da Z.O.
Dono de um dos melhores discos de 2024, o “Acelero”, Crizin da Z.O. leva para o palco toda a força de seu som, um casamento caótico entre funk carioca, punk e distorções eletrônicas. A partir de uma linguagem que passeia entre a ironia e a raiva, o show de Crizin consegue elevar as sonoridades propostas em disco para canções como “Demônio do Rio da Prata” ou “Calmo Apesar de Tudo”. O clima quase cyberpunk do show é amarrado pelas projeções que mesclam imagens distorcidas, memes e emojis em baixa qualidade e uma série de imagens bastante referenciais do nosso tempo caótico, mas eternamente on-line. Ao vivo, Crizin da Z.O. consegue criar um espetáculo que capta muito bem as angústias, tensões e debates propostos em suas canções, transmitindo para o público o caos do nosso tempo e transformando tudo isso em música e barulho do bom!

5 – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo
O show de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo é sempre uma farra e era óbvio que em Belém seria um momento único. A banda chegou dias antes na cidade e aproveitou para conhecer a região – antes do show eles foram para a ilha de Marajó, esses sabem viver! Na noite do Festival Se Rasgum, se via muita gente jovem com camisetas da banda a circular pelo evento, inclusive muitos na espera em frente ao palco no qual a banda se apresentaria. Com um set list que mescla faixas dos dois discos da banda – o auto-intitulado de 2021 e “Música do Esquecimento” (2023), além de singles como a já clássica e deliciosa “Idas e Vindas do Amor” e até números inéditos (“Cinema Brasileiro” e “Eu Não Bebo”). Com seu indie rock sujo e galhofeiro, a banda consegue criar um balanço especial indo dos momentos em que o telão exibia o paraense ENDOIDA CARALHO até passagens mais politizadas, que têm marcado os últimos shows da banda – que recentemente teve seu show censurado em São Paulo após manifestaçōes pró-Palestina. Interessante, inteligente e sedutor, o show da turma de Sophia Chablau é sempre sinônimo de farra das boas.

6 – AQNO & RAWI
O paraense AQNO subiu já tarde da madrugada no palco do Se Rasgum para apresentar seu disco “Latino Brega Love” (2025) e veio acompanhado do também paraense RAWI – que apresentou seu disco “Arte de Bicha” (2024). Foi um choque de monstro queer. Passeando por sonoridades indie pop, os dois artistas conseguem navegar por diferentes universos musicais latinos, do brega ao zouk, da cumbia a lambada, e tudo isso acompanhados de um balé que dava o tom de festa ao show – aliás, toda a estrutura do espetáculo rememorava os grandes shows dos anos 2000 de nomes como Calypso ou Companhia do Calypso, com direito a troca de looks, coreografias sensuais e todo o suor da pista de dança. Bem equilibrado entre o repertório dos dois artistas, o espetáculo conseguiu apresentar de forma rica as potencialidades criativas de artistas jovens que tem relido todos esses signos musicais a partir de suas experiências queer, criando assim narrativas novas e interessantes da música nortista.

7 – Reiner apresenta ELÃ
O paraense Reiner subiu ao palco da Conferência ALMA, no Anfiteatro do Forte de São Pedro Nolasco, na quarta-feira, para apresentar seu disco “ELÔ (2024), em espetáculo que contava com as participações de Mainumy, Bruna BG, Iris da Selva e Leo Chermont. Os espetáculo segue a base de banda de rock do som de Reiner, mas se expande para esses encontros com todos os outros artistas de sons distintos, do rap à MPB, num casamento certeiro que representa muito dessa figura agregadora de Reiner – além de seu trabalho musical, ele é responsável pelo Selo Caquí, ao lado da Pratagy, que lançou recentemente a coletânea “Marés”, reunindo jovens artistas independentes paraenses. No palco do ALMA, Reiner apresentou um espetáculo que expandiu os debates políticos e sociais presentes no disco e funcionou como uma celebração desses encontros e trocas entre artistas locais, reforçando a importância de conectar diferentes nomes e fomentar uma cena sólida e independente de validações externas.
Leia também – Boogarins, Núbia e Metro Verlaine se destacam nos shows da Conferância ALMA
– Se Rasgum festeja com grandes shows de Otto, Móveis, Fernanda Abreu, Crizin e Teenage Fanclub

Sete convidados listam seus sete shows favoritos do Se Rasgum / Alma 2025
MELHORES SHOWS
40 pontos – Crizin da Z.O. (sete votos)
27 pontos – Teenage Fanclub (cinco votos)
22 pontos – Fernanda Abreu (seis votos)
21 pontos- Otto (quatro votos)
19 pontos – DJ Méury (quatro votos)
12 pontos – Móveis Coloniais de Acaju (três votos)
11 pontos – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo (quatro votos)
Método: 7 pontos para 1º lugar, 6 para o 2º, 5 para o 3º, 4 para o 4º…
TODOS OS VOTOS
ADRIANO COSTA (@adrianojmcosta)
1 – Otto toca “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”
2 – Teenage Fanclub
3 – Crizin da Z.O.
4 – DJ Méury
5 – Fernanda Abreu
6 – Boogarins
7 – Baile do Mestre Cupijo
ANDERSON FOCA (@focadosol)
1 – Móveis Coloniais de Acaju
2 – Crizin da Z.O.
3 – Teenage Fanclub
4 – Assucena
5 – Julia Mestre
6 – Fernanda Abreu
7 – Gabriê
CHICO DUB (@novasfrequencias)
Crizin da Z.O.
Fernanda Abreu
Valesca Popozuda
Suraras do Tapajó & Lia Sophia
DJ Méury
Djuena Tikuna
Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo
LUCIO RIBEIRO (@lucioribeiro)
1 – Crizin da Z.O.
2 – Teenage Fanclub
3 – terraplana
4 – Julia Mestre
5 – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo
6 – Fernanda Abreu
7 – Móveis Coloniais de Acaju
MARCELO COSTA (@screamyell)
1 – Crizin da Z.O.
2 – Fernanda Abreu
3 – Teenage Fanclub
4 – Otto toca “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”
5 – Boogarins
6 – Metro Verlaine
7 – Baile do Mestre Cupijo
OTANER LA CUMBUCA (@otanerlacumbuca)
1 – Crizin da Z.O.
2 – Teenage Fanclub
3 – DJ Méury
4 – Móveis Coloniais de Acaju
5 – Otto toca “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”
6 – Valesca Popozuda
7 – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo
RENAN GUERRA (@_renanguerra)
1 – Otto toca “Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”
2 – DJ Méury
3 – Fernanda Abreu
4 – Crizin da Z.O.
5 – Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo
6 – AQNO & RAW
7 – Reiner apresenta ELÃ

Se Rasgum no Scream & Yell: 2009, 2010, 2011, 2014, 2022, 2023, 2024
– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.
O show de Sophia chablau foi constrangedor. Muitos amigos e amigas minhas se entreolhavan e perguntavam perplexos : gente, como essa moça é desafinada, canta mal. Espanta ver como quinto melhor show. É o puro suco do hype.