texto e fotos de Marcelo Costa
Enquanto a capital paulista recebia o mastodôntico Rock in Rio SP (que alguns conhecem como The Town) e o acomodado Coala Festival, e a capital goiana celebrava o incansável Goiânia Noise, no Norte, a pedida era comemorar 20 anos do festival paraense Se Rasgum, um evento inquieto cuja história é marcada por mutações: criado em 2006 como Se Rasgum no Rock, o festival deixou o “no Rock” de lado a partir de sua terceira edição buscando uma curadoria mais “eclética, aberta e dinâmica” – em consonância com o bom momento musical que a cidade vivia, e ainda vive. Também repetiu poucas vezes o mesmo endereço e, em 2025, ganhou uma introdução de peso: a conferência ALMA.

Idealizada em 2024, a ALMA (Amazônia Legal Música & Arte) reuniu nomes importantes do mercado da música no país e diversos convidados estrangeiros em oficinas, rodadas de negócios, painéis e showcases (tudo gratuito) durante três dias pré-festival Se Rasgum. No quesito música ao vivo, tinha de tudo um pouco no line-up da ALMA: da música indígena de Djuena Tikuna passando pelo reggae de Danzi e Núbia (que bate forte no Norte e, principalmente, no Maranhão) ao pop rock de guitarras de Dimitria e a pegada psicodelica do Boogarins mais Reiner, responsável por um dos grandes discos paraenses (e nacionais) de 2025. Tinha mais: dois nomes da nova cena pós punk francesa (Metro Verlaine e Gwendoline) e encerramento de luxo com muito rock doido comandado por DJ Méury .

A maratona de shows começou na quarta (3 de setembro) no Anfiteatro do Forte de São Pedro Nolasco, anexo a Estação das Docas, ponte turístico fervilhante da capital paraense, com Djuena Tikuna, primeira indígena a realizar um espetáculo musical (em 2017) no Teatro Amazonas, em Manaus, nos 121 anos de existência do local. Djuena trouxe à Belém seus cânticos (acompanhados de percussão e eventuais sopros) em sua língua materna, o idioma Tikuna, nome de seu povo, que habita o Alto Rio Solimões, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. “Cantar na língua materna é um ato de resistência”, proclamou a indigena, que ainda ensinou palavras Tikuna ao público e convidou todos a dançarem de braços dados em “Eware”, num momento muito bonito (assista no final do texto).

Na sequência, Lorena Nunes, carioca que cresceu no Ceará, celebrava a oportunidade de se apresentar pela primeira vez na cidade em que seus pais nasceram. Sua música, inclusive, respira essa fusão de raízes paraenses, cearenses e cariocas (enquanto pisca o olho para o jazz, para o pop e para o reggae), o que fica nítido em canções como a deliciosa “Moi Mais Tu”, que junta a língua francesa com cachaça de Jambu flambada com glacê. Entre uma Cerpinha e um chopp da Amazon Beer por R$ 4,99, ainda foi possível acompanhar a apresentação caliente do grupo Raízes Latinas e sua mistura de ritmos amazônicos, caribenhos e africanos, e também conferir ao vivo o repertório de um dos grandes discos paraenses de 2025, “Elã”, de Reiner, que trouxe vários convidados ao palco, mas não conseguiu repetir em cena todo o brilho alcançado em estúdio. “Estava tudo funcionando tão bem nos ensaios, e aqui está tão estranho”, desabafou Léo Chermont, produtor do disco, que marcou presença no final do show.

Para fechar a primeira noite, os goianos da Boogarins trouxeram à Belém o show do disco “Bacuri”, segundo melhor álbum de 2024 segundo os votantes do Prêmio Scream & Yell, e um dos melhores shows do ano passado segundo a APCA. O público praticamente quadruplicou e tomou pra si o gramado em frente ao palco do Anfiteatro do Forte de São Pedro Nolasco, mostrando que já trazia na ponta da língua o repertório do disco “Bacuri” (“Eu nem sabia que bacuri era a fruta que vocês comem quando deram o nome para o disco”, revelou divertidamente Dinho ao público), vibrando aos primeiros acordes da bela “Corpo Asa”, e cantando, ainda, números como “Amor de Indie” e “Chrystian & Ralf (Só Deus Sabe)”. Completamente seguros no palco, e felizes, o quarteto manteve na capital paraense o alto nível de suas apresentações ao vivo.

Para a quinta-feira, o clima noturno agradável da cidade que nunca teve temperatura abaixo de 18 graus (segundo Adriano Costa, um eterno Scream & Yell, ele nunca viu Belém abaixo de 23 graus!) começou em alta voltagem com o sacolejo contagiante da banda Afrós, de São Luis do Maranhão, seguida da roots rock reggae queen Danzi em formato live PA e do bom set da baiana Dimitria, cantora radicada em Recife que surgiu em cena com duas guitarras, voz e programações, e mandou bem ao recriar o pop dançante de seu EP “Anseio” (2024). Mas quem realmente conquistou as atenções foi a regueira maranhense Núbia, que botou todo mundo para sacolejar ora quebrando agarradinho, ora sacando o papo reto da artista que vem recebendo grandes elogios por onde quer que passe. Fique de olhos e ouvidos atentos com ela e procure pelo disco “Horizontes”, lançado em dezembro passado.

As duas bandas escaladas para fechar o segundo dia de showcases atravessaram o Atlântico para tocar em Belém, o que não é uma novidade se tratando de Se Rasgum, um festival que desde seus primórdios busca conectar o Pará com as principais cenas mundiais. Em 2025, além dos escoceses indies do Teenage Fanclub, escalados para a edição no festival no sábado, duas bandas francesas se apresentariam no Anfiteatro do Forte de São Pedro Nolasco: a primeira, Metro Verlaine, se mostrou mais empolgante com seu indie pop rock selvagem bastante eficiente que ganha mais força com o carisma da vocalista Raphaëlle Fromage e de seu parceiro, o guitarrista Axel Desgrouas. Vale muito dar a devida atenção ao disco deles do ano passado, “Pop Sauvage”, uma joiazinha pop. Já o quarteto cold wave eletrônico Gwendoline parece ter desperdiçado a chance do showcase na tentativa de criar um certo clima que pode até funcionar numa sala escura, mas que ali, num anfiteatro ao ar livre na beira de um grande rio, não conseguiu completa adesão. Quem sabe numa próxima… A noite de quinta, porém, só foi terminar no Espaço Cultural Apoena, com Felix Robatto comandando sua imperdível Lambateria. Sensacional.

Então chegou a sexta-feira trazendo consigo… duvidas: o que fazer na noite linda e quente de Belém? Para os futebolistas, o Paysandu tinha jogo decisivo contra o Volta Redonda no estádio do Mangueirão: quem perdesse iria segurar a lanterna da Série B do Brasileirão no fim de semana. E o time da casa saiu na frente, mas o desespero do comentarista na rádio local (“Tem que segurar essa PORRA!”) já antecipava o trágico fim, com o time do Rio virando o jogo com um gol aos 90 e outro aos 94 minutos. Na mesma hora, o Arraial da Pavulagem, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, do Estado do Pará e de Belém, preparava um ensaio aberto em sua sede, em frente a Estação das Docas, para o Arrastão do Círio, o grande evento no calendário anual da cidade. E, claro, havia a terceira noite de showcases com DJ Méury prometendo muito rock doido (em um dos shows favoritos da semana dos screamyellers Adriano Costa e Renan Guerra). E também tinha uma banda de rock triste mineira mostrando um forte concorrente a disco do ano no lendário espaço do seu Ná Figueredo…

Bem, quem apostou suas fichas que este jornalista foi conferir ao show da Lupe de Lupe acertou, mas, dado ao viés indie guitarreiro desse sítio, era algo meio óbvio, certo. Ainda mais que havia alguns ingredientes interessantes na noite: primeiro que seria um show em um espaço icônico da cidade, afinal o Seu Ná, um apoiador da cena local, já lançou discos de Dona Onete, Pinduca, Felipe Cordeiro, Natália Matos, Aíla e Juliana Sinumbu, entre tantos. Segundo que, após conferir a Lupe de Lupe no teatro do Sesc Belenzinho num show absolutamente impecável em julho, agora era a oportunidade de ouvir praticamente as mesmas músicas no espaço de origem da banda, um inferninho com jeitão de garagem. E terceiro: talvez algumas pessoas sintam dificuldades em deglutir “Amor” (2025), um álbum de quatro faixas e 42 minutos de duração, mas toda oportunidade de ouvir “Redenção (Três Gatos e Um Cachorro)” ao vivo não deve ser desperdiçada – quer saber? Ela soa ainda melhor ao vivo! O show, sold out há semanas, foi um atropelo, confirmando o grande momento do quarteto. A cidade ainda estava longe de dormir, com o Samba Batuque da Feira do Açaí arrastando uma multidão para o complexo do Ver-o-Peso madrugada a dentro, mas a maratona de 12 horas de festival no dia seguinte pedia resguardo. Melhor descansar.
Ps. Quer saber como foi o set de DJ Méury? Renan Guerra conta aqui
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Se Rasgum no Scream & Yell: 2009, 2010, 2011, 2014, 2022, 2023, 2024
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.