texto e vídeos de Alexandre Lopes
fotos de Natália Michalzuk
Se o terceiro dia do Goiânia Noise Festival 2025 fosse um filme, provavelmente seria algo parecido com “Clímax”, de Gaspar Noé: tudo acontecendo ao mesmo tempo, em ritmo frenético e sem espaço para respirar muito. Diferente do primeiro e segundo dia, no sábado, 06 de setembro, foram 14 bandas em aproximadamente nove horas de apresentações no Martim Cererê, e isso não é para qualquer um. É o tipo de noite em que, inevitavelmente, você vai acabar perdendo alguma coisa boa só porque precisou parar para comer, tomar uma água ou simplesmente se recompor. No meu caso, quem levou a pior foi a Corujones, que eu queria muito conferir. Foi mal, galera…

A maratona começou com a banda local Banana Bipolar, que abriu os trabalhos no palco Pyguá com uma jam instrumental psicodélica. O quinteto formado por Hatamari (vocais e percussão), Gab Morais (vocais e baixo), Vinni (vocais e guitarra), Xúlio (bateria e backing vocals) e Pedro Leon (guitarra solo) foi se espalhando em viagens sonoras que incluíram “Cicatriz”, “Alícia” e “Cidadão Comum”. Em dado momento, Hatamari assumiu a persona de um maestro bizarro com uma máscara cúbica vermelha, comandando a banda. Entre discursos inflamados como “Anistia é o caralho, eles têm mais é que se foder” e letras igualmente provocativas, encerraram com a controversa “Cigarro”, incluindo o verso “Cigarro não dá barato / A gente fuma porque quer morrer”.

Na sequência, o palco Yguá recebeu o Realife, que iniciou sua apresentação com coros fantasmagóricos e riffs cortantes. Formada em 2017, a banda leva a cartilha do horror punk ao pé da letra: punk, hardcore e metal old school misturados a filmes B, contos de terror e críticas sociais em inglês. E o visual caprichado reforça a estética, com maquiagens pesadas, spikes e uma presença de palco agressiva. O repertório incluiu “Hero”, “Somewhere in Goiás”, e o hino antirracista “Ripping Off Your Skin”, além de “Cesium 137” e “Halloween in Brazil”. Foi uma paulada atrás da outra, mas ainda para um público pequeno.

O Burning Rage trouxe seu “hardcore califorgoiano” (punk californiano temperado pelo clima do Cerrado) e, apesar de formado em 2018, já joga como veterano do Noise por ter participado da edição de 2019. À vontade, como quem toca de maneira descompromissada mas sem perder a precisão, o quinteto rebatizou músicas e dedicou “Atordoado” à companheira de um dos integrantes. “Velha História”, “Acorrentados” e “Continuar” foram os pontos altos da apresentação.

O duo Can Sad veio na sequência para bagunçar cabeças com seu rock instrumental de baixo e bateria, apoiado por bases pré-gravadas e samples que passearam de Choque de Cultura a Mamonas Assassinas. Luis Feitoza e Gustavo Vazquez mostraram uma sonoridade que funde noise, math rock, industrial e prog, com críticas ao capitalismo em seus títulos – inclusive uma bandeira da banda presa a um dos amplificadores dizia “Cansados sempre. Às vezes tristes, mas obedientes alienados, jamais”. Em vários momentos, o baixista falou fora do microfone e ironizou a cena, dizendo que o pedestal era apenas cenográfico. “Sem vocal, sem piadas”, para logo depois o baterista emendar o “eu vou mimbora pra Sum Paulu” de Dinho, no sample de “Jumento Celestino”. Teve até comentário sobre merch: “estamos vendendo nosso disco em fitas K7. Acho que pelo visto nós não sabemos mesmo como ganhar dinheiro”. No encerramento, Vazquez desafinou as cordas do baixo enquanto tirava riffs, deixando tudo ainda mais áspero e pesado. O anti marketing funcionou: comprei a fitinha K7 mais tarde.

Vinda de Vila Velha (ES), a Maré Tardia fez o show mais enérgico e inconsequente até então, de uma forma quase nirvanesca. Tocaram faixas do excelente “Sem Diversão Para Mim”, apontado como um dos melhores discos nacionais de 2025. Com sonoridade próxima a Wavves e Together Pangea, desfilaram “Já Sei Bem”, “Surf Punk”, “Tarde Demais” e “Ian Curtis”, entre outras. No meio da coisa toda, o vocalista perdeu a correia da guitarra e seguiu tocando com o instrumento pressionado contra o corpo. Depois, em um lampejo insólito, tirou a camiseta e era difícil não enxergá-lo como um irmão perdido do Felipe Dylon (aquele lá da “Musa do Verão”). Ainda teve tempo para que a banda zoasse o baixista vascaíno orgulhoso e entregasse um set meio bêbado e caótico que, segundo relatos, terminou com a banda perdendo o ônibus para ir embora mais tarde. Coerente com o que rolou no palco.

A Porno Massacre transformou o Noise em cabaré punk. Formada em 2008 e definida como drag punk/queercore, a banda comandada por Lupita Romero (voz) e acompanhada por Kyn (baixo), Bruno Gozzi (guitarra) e Rodrigo Fernandes (bateria) fez um show dos diabos. “A Casa dos 7 Gatinhos”, “Que Venha o Caos” e “É o Que Me Resta” vieram em sequência, e em “Ursal” Lupita desceu para o público com chicote em punho, bancando uma dominatrix. Problemas técnicos temporários no baixo e amplificador viraram piada improvisada (“fui à Inglaterra e voltei com piolho e sarna”), enquanto faixas como “Cookie é Bom” e “Hipocrisia” incendiaram o set. O final foi um rito de passagem, com gritos de “todo transfóbico tem que morrer!” e uma plateia convertida à “igreja pornomassácrica”.

A volta da Valentina, banda marcante da cena goiana dos anos 2000, encheu o Yguá. Rodrigo Feoli (voz), Paulo Tiballi (bateria), Ângelo Carlos (guitarra) e Babu (baixo) ressurgiram com o apoio de Cauê Marcel (guitarra e synths) para um show possante de post-punk/glam. Tocaram clássicos como “Zero Por Cento”, “Flashback”, “Tiro de Festim” e “Vésper”, além de novidades como “Vou Seguir Seus Erros” e “Azymuth”, celebrando uma retomada que deixou o público pensando o que vem por aí depois desse show. Vamos aguardar.

Os maringaenses do Jovens Ateus apostaram no pós-punk oitentista com tanta fidelidade que às vezes soavam como covers não assumidos de Joy Division e New Order. Não foi ruim, mas tampouco empolgou muito a plateia numerosa que foi vê-los. Guto Becchi (voz) arriscava danças tímidas e repetitivas enquanto os demais se concentravam em seus instrumentos, embalados pelas batidas eletrônicas de Antônio Bresolin e um bonito show de luzes que acompanhava cada faixa.

A Fat Drive Factory chegou para reforçar a camada roqueira do festival. Com Natália Uchôa (voz) liderando, o quinteto trouxe um rock que funde hard, folk, blues e soul, em faixas de seu disco “Buzzing Gently”, lançado este ano. A potência vocal de Natália impressionou, assim como as guitarras afiadas de Gustavo de Carvalho e Dan Paranhos. Perto do fim, o baterista Vinícius Milhomem levantou a bandeira política com um animado “Bolsonaro preso!”, antes de fecharem com “For Nothing”.

A paraense Layse e os Sinceros foi um verdadeiro baile. A vocalista-baterista (sim, inclusive usando salto alto) abriu o show avisando: “se entregue à música do Pará que ela é boa demais”. E realmente foi: teve guitarrada, salsa, brega e versões irresistíveis, com direito a cover de “Chorando Se Foi” (Kaoma), homenagem a Joelma ex-Calypso (um medley com “Anjo” e “Pra Te Esquecer”) e um encerramento apoteótico com “Guanabara”, do Fruto Sensual. Até um fã tímido de Alice in Chains arriscou uns passinhos com sua companheira próximo ao palco.

Seguindo a noite, o peso veio com a Overfuzz, lançando seu novo álbum “Três”. Mário Nacife (baixo), Brunno Veiga (voz e guitarra) e Victor César (bateria) despejaram toneladas de riffs em canções como “O Rock Morreu” e “Sonho Americano”, além de faixas em inglês dos discos anteriores “Bastard Sons Of Rock ‘n’ Roll” (2015) e “Signs Of Reality” (2019), como “Turn Your Beauty Into a Sickness”. Foi alto, pesado e suado. E quem reclamava de “falta de rock no Noise” certamente saiu convencido que ainda tem (e com os ouvidos zunindo).

Continuando a porção de som pesado da noite, o Black Drawing Chalks fez a plateia vibrar com seu stoner sujo e potente. Na ativa desde 2005 – entre indas e vindas – , o grupo resgatou canções dos discos “No Dust Stuck on You” (2012), “Life Is a Big Holiday for Us” (2009), “Big Deal” (2007), além de singles recentes como “Deep Tricks” e “Date On a Grave”. Foi pancada atrás de pancada, digna de veteranos do Noise.

Já passava da uma da manhã quando Rogério Skylab assumiu o Yguá para encerrar a noite entre ironia, grotesco e poesia, revisitando seus clássicos e se reafirmando como o “cadáver dentro da MPB” mais vivo que existe. Skylab também mostrou que consegue atrair fãs tão bizarros quanto os temas de suas canções: mais cedo, pelo menos dois stalkers apareceram no hotel onde o cantor estava hospedado com sua banda. Mas deixando essas histórias de lado, Skylab estava acompanhado de uma banda muito coesa e fez um set de greatest hits de um compositor maldito: “Cadê Meu Pau?” (com a visão pitoresca de garotas adolescentes cantando o refrão), “Carrocinha de Cachorro Quente”, “Música Para Paralítico”, “Vontade”, “Você Vai Continuar Fazendo Música?” e “Tem Cigarro Aí?”, que culminou no momento que a maioria dos fãs esperava: a hora de jogar cigarros no cantor. Alguns até se debruçaram no palco para reaproveitar os cigarros e arremessá-los novamente, como se participassem de uma coreografia absurda entre público e artista.
Também teve o Skylab mastigando uma cenoura e cuspindo os pedaços no público durante “O Corvo”. Liturgias no mínimo excêntricas, mas totalmente coerentes no universo skylabiano. O show acabou com o clássico “Matador de Passarinho”, com Skylab se jogando no chão e ficando imóvel por um bom tempo, enquanto sua banda se retirava para o camarim. Apesar de pedidos de bis, fãs jogando mais cigarros e outros sem noção batendo em sua bunda, o cantor seguiu inerte no chão como se simulasse a própria morte. Intermináveis minutos depois, levantou de repente, apenas para se despedir jogando beijos antes de finalmente se retirar do palco. Um final intenso, imprevisível e surreal, mas que fez todo o sentido na narrativa que se desenrolou dentro dos muros do Martim Cererê naquela noite.
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– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.