Em noite bastante emocional, Teenage Fanclub faz show entre amigos em SP

texto de Leonardo Vinhas
fotos de Regiane Jodas

“É praticamente um congresso de ‘indie véio’”, me disse um amigo pouco antes de o Teenage Fanclub subir ao palco do Cine Jóia, em São Paulo. E ele não estava exagerando: casa cheia (os ingressos estavam esgotados), com o público majoritariamente na faixa dos 40 e dos 50. Fora disso, só os 60+. Como o nosso Bruno Capelas havia ido ver a banda no Circo Voador, no Rio, a chance de encontrar alguém na casa dos 30 ali era ínfima.

Nada mais natural: o Teenage é uma banda que teve seu auge criativo e comercial entre 1995 e 2000, com a maravilhosa trinca de álbuns “Grand Prix” (1995), “Songs from Northern Britain” (1997) e “Howdy” (2000). “Bandwagonesque”, o segundo disco, é outro querido pelos fãs – e foi lançado em 1991. Outra geração, outros tempos.

O tempo passou para eles também, claro: é provável que nem mesmo os fãs de primeira hora pensem no Teenage Fanclub como aquela banda de jovens branquelos e cabeludos, meio ripongas e desleixados: os vocalistas e guitarristas Norman Blake e Raymond McGinley e o baterista Francis MacDonald, integrantes da formação original, parecem aqueles senhorzinhos simpáticos que jogam xadrez em praças do interior.

E, claro, todo mundo sabe que Gerard Love não está mais na fileira. Baixista e vocalista fundacional da banda, ele a deixou em 2018 por não concordar com o ritmo de turnês que a banda queria adotar. Seu talento e sua voz entregaram, ao longo de mais de três décadas, pérolas como “Sparky’s Dream”, “Your Love Is The Place Where I Come From”, “Happiness”, “Going Places”, “Ain’t That Enough” e muitas outras que estão entre as favoritas dos fãs, e que estiveram ausentes no setlist da noite de 4 de setembro em São Paulo – e de qualquer show feito depois de sua saída, diga-se.

Seja como for, o Tineijão nunca facilitou o storytelling mais óbvio. Como costuma dizer o jornalista André Barcinski – também o responsável por esse show, por meio de sua produtora Maraty – o “mal” do Teenage foi nunca ter parado. Não se deram a pausa que poderia levantar a mitomania, criar a expectativa por um retorno, para então voltar e viver requentando o passado em turnês superfaturadas. Os escoceses continuaram produzindo, fazendo turnês e entregando álbuns – alguns bons, outros nem tanto, mas sempre com um quinhão de boas canções. O Teenage Fanclub sempre quis seguir em frente.

Claro que o show dosou presente e passado. Abriram com “Home”, de seu penúltimo álbum, “Endless Arcade” (2021), que cedeu ainda outras duas ao setlist, ao qual se somaram ainda três do mais recente, “Nothing Lasts Forever” (2023). As outras 14 vieram pinçadas de diferentes partes do passado – mostrando autocrítica, nenhuma dos fracos “Man Made” (2005) e “Here”, de 2016.

Claro que o público estava lá para ouvir “The Concept”, “I Don’t Want Control of You”, “About You” e outras tantas. Mas, de muitas maneiras, o Teenage Fanclub é uma banda que envelheceu com e como seu público. Eles sabem que o auge criativo, o momento de maior potência, o tesão, o colágeno e a jovialidade aconteceram no passado. Mas, ao contrário do que quer nos fazer crer a cartilha da paranóia social, não acham que isso os impede de continuar tentando fazer algo tão bom quanto, ou até melhor, do que aquilo que os marcou.

Porque nessas tentativas, pode aparecer algo de brilho fugaz, mas marcante (“Everything Is Falling Apart”, “Middle of My Mind”), ótimos momentos (“See The Light”, “Falling Into The Sun”), tesão real (“Baby Lee”, incluída no setlist a pedido de fãs que tinham ido ao show no Circo Voador, RJ, na noite anterior, e estavam em SP para mais uma rodada) e até um acerto de perfeição (a já citada “Home”).

Mais que isso, o Teenage é a banda cujos integrantes se aproximam dos 60 anos de idade e são capazes de cantar “não tenha medo dessa vida / não tenha medo dessa vida que é um fliperama sem fim”. Fizeram canções sobre as agruras de ter uma namorada headbanger (“Metal Baby”, “The Concept”), e hoje falam com precisão e poesia sobre os sentimentos de luto e deslocamento que vêm após uma separação (“Home”, de novo). Desaceleram sensivelmente o andamento de hits como “About You” e “Verisimilitude”, mas também intensificam a execução de “Baby Lee” a ponto de conferir peso e velocidade que não estão presentes na versão de estúdio.

Na real, se pararmos para pensar com honestidade, a canção mais madura do Teenage Fanclub provavelmente é seu primeiro single, “Everything Flows”, que fechou o show com aquela mistura de perfeição melódica e alto volume que lhe é característica, amplificada pela entrega na execução. É a música que diz que não sabemos como definir um rumo para a nossa vida, mas que, no fim, “tudo flui”.

E sim, flui. Flui para fins e recomeços, flui para a passagem do tempo, flui pelas rugas e pelos cabelos que caem para não voltar, pelas silhuetas que se transformam. Em um mundo onde as faces se plastificam com preenchimentos e esticamentos, onde a silhueta delgada é sinônimo de “evolução”, onde coaches e marcas falam sobre [gastar fortunas para] “encontrar sua melhor versão”, é bom e importante ser lembrado que, como diz o título do último álbum dos escoceses, “nada dura para sempre”.

E isso não é algo necessariamente triste. No show com menos celulares levantados que vi nos últimos anos, com um público que sabia cantar quase todas as canções e que celebrava até uma (ótima) faixa esquecida como “God Knows It’s True” (de um EP epônimo de 1990), o Teenage Fanclub estava em casa, ali no Cine Joia. Mais que isso, estava entre amigos.

Todos – público e banda – tinham se ligado ali que o tempo passa, mas que, se a gente se ater ao momento presente, ele não exatamente “passa”. Ao contrário, é vivido. Criam-se memórias. Forma-se esperança – mesmo que pouca e difusa, o suficiente para seguir em frente. Porque uma hora pode dar certo de novo. Uma hora você pode acabar encontrando todos os amigos. Vai saber que nada está como antes, nem para você, nem para eles, mas que isso não impede que as coisas fiquem melhores.

Na verdade, quando se consegue fazer isso – e a noite no Cine Jóia foi perfeita para isso – o futuro passa a importar menos, porque é tudo uma questão de deixar o presente acontecer, sem se preocupar com o que vai vir depois. Vale o presente. E o presente dado por um Teenage Fanclub inspirado vale muito.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.

 

5 thoughts on “Em noite bastante emocional, Teenage Fanclub faz show entre amigos em SP

  1. Ótimo texto, mas somente uma correção: tocaram uma do Here, a lindíssima I’m In Love. Abraço!

  2. Correção: “Your Love is the Place…” e “Happiness” são composições do Raymond McGinley e não do Gerard Love. Portanto, estiveram ausentes do setlist por opção da banda.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *