texto e vídeos de Bruno Capelas
fotos de Douglas Mosh
“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. A frase clássica de Raul Seixas, direto de 1974, não foi só a primeira a ecoar no palco d’A Porta Maldita na noite do último dia 23 de agosto. Ela também define muito bem como foram as apresentações de Vivian Benford, Harmada e Terminal Guadalupe no palco da festa Bretta – uma parceria há muito aguardada entre este Scream & Yell e o Programa de Indie. Afinal, mais do que apenas trazer três grandes shows, o evento também marcou uma celebração do poder da música e dos muitos encontros que ela pode proporcionar.

Nascida no Rio, mas radicada em São Paulo há alguns anos, Vivian Benford teve a missão de abrir os trabalhos, por volta das 21h30. De maneira elegante, ela trouxe a canção de Raul como uma vinheta para emoldurar o início de seu show, complementando-a com “Indelével”, uma das várias composições de Manoel Magalhães (da Harmada) que apareceriam no repertório. Ao lado de uma banda muito entrosada, incluindo músicos que lhe acompanham há mais de uma década, a cantora apresentou no Porta Maldita seu pop-rock delicado, mas não por isso menos vigoroso.
É algo que se pode notar em outra dobradinha da noite, com a citação de “2012”, de Silva, antecedendo outra canção de Manoel em leitura especialmente emocionante: “Sombras Por Aqui”, da Polar, que completa 20 anos neste 2025. Ou então nas versões espertíssimas para canções que passaram tempos escondidas pela poeira: “Abre-Alas”, hino de Ivan Lins contra a ditadura militar (que Vivian lançou no disco “Faixa Seis”, do Selo Scream & Yell), e a deliciosa “Perigo”, famosa na voz de Zizi Possi, mas aqui interpretada com um tempero especial que vai muito além do sal-e-pimenta new wave oitentista. “Perigo”, aliás, deve ganhar gravação própria em breve, chegando às plataformas junto com a clássica versão de Vivian para “Cheia de Manias”.

Já que falamos de Raça Negra, vale dizer que Vivian deixou de lado o “di-di-di-di-ê” na noite do Porta Maldita. Em seu lugar, porém, surgiram outras duas grandes canções para encerrar o show. Primeiro, “Pilha Quadrada”, uma divertida faixa do guitarrista Rodrigo EBA! que louva a beleza de se morar na cidade (“Se eu quiser no meio da madrugada/Comprar uma pilha quadrada/Tem sempre um lugar pra vender”), mesmo que nem sempre isso seja útil assim.
Depois, no bis, foi a vez de voltar ao Rio de Janeiro dos anos 2000 com a pérola pop “Manhattan”, semihit do Clarim Diário, banda da qual Vivian fez parte no começo do século. Por um momento, a canção fez o inferninho da Vila Madalena parecer um fim de tarde ensolarado numa novela do Leblon, para alegria de Manoel Magalhães – que declarou antes de subir ao palco que ouvir a canção sendo tocada ao vivo foi um dos principais fatores responsáveis para ele querer montar uma banda e participar da cena carioca há duas décadas.

Mais de vinte anos depois, aquele momento ainda rende ótimos frutos, como foi possível perceber facilmente quando a Harmada entrou em cena. Reformulado e com disco novo prestes a sair do forno, o grupo abriu o jogo relembrando “Luz Fria”, um grande número da estreia “Música Vulgar Para Corações Surdos”, de 2011. Depois, foi a vez da plateia conferir algumas das canções do vindouro “Os Fugitivos” (2025), como a enérgica “O Prisioneiro”, inspirada em Rubem Fonseca, e a cativante “Piscina de Crianças Universais” — em ambas, destaque para as boas baterias de Rodrigo Garcia e os backing vocals bem tramados do guitarrista Pedro Lacerda.
Na sequência, foi a vez de Manoel fazer o elo com a terceira banda da noite, chamando Dary Jr. para dividir os vocais em “Sufoco” – descrita pelo vocalista do Terminal Guadalupe como a “música que salvou minha vida em 2011”. A emoção foi tanta que Dary não conseguiu segurar as lágrimas no meio da música, em um daqueles momentos para ficar na memória. Para completar o setor “rock” do show, Manoel ainda atacou com dois momentos mais radiofônicos de “Música Vulgar”: o power pop de “Carlos e Cecília” e a poderosa “Bairro Peixoto”, com seu retrato de uma femme fatale de Copacabana.

Já o segmento final do show foi dedicado a outra especialidade de Manoel: o som da noite, as baladas. Primeiro, veio a inédita “Em Fuga”, que promete ser um dos grandes momentos do novo trabalho. Depois, o single “Quando Você Chegar”, que, a despeito de sua recência, foi cantado a plenos pulmões pela plateia presente – incluindo um grupo de jovens fãs da Harmada, animados como se estivessem num estádio com 70 mil pessoas.
A empolgação era tanta que quando Manoel anunciou que “Avenida Dropsie” seria a próxima faixa, o grupo parecia comemorar gol em final de campeonato. O fim não foi menos impactante, com a dobradinha “Sonhar” – com ótimo solo de guitarra de Manoel – e “Besteira Acreditar” fazendo algumas lágrimas caírem em meio ao gelo seco e às luzes coloridas em São Paulo.

O relógio mal havia passado da meia-noite quando Dary Jr., Allan Yokohama e seus companheiros de Terminal Guadalupe subiram ao palco – não sem antes deixar o público se recompor com cervejas, caipirinhas e até um insuspeito Bombeirinho no bar d’A Porta Maldita. Com álbum novo debaixo do braço, o bonito “Serenata de Amor Próprio” (que eles destrincharam faixa a faixa aqui no Scream & Yell), o grupo paranaense confirmou em São Paulo a fama de ser uma banda intensa – algo que se pode entender logo no começo, no coro de “Além da Glória”, ou ainda no “ataque epiléptico” de Allan, que se jogou no chão durante o solo de “Atalho Clichê” sem errar uma nota sequer.
Adiante, o grupo alternou clássicos dos anos 2000 (“Esquimó Por Acidente”, “Lorena Foi Embora”) com novos momentos – caso de “Volta”, um encontro de Jovem Guarda com Phil Spector que parece falar de um velho amor, mas foi feita no dia do segundo turno da eleição presidencial de 2022. Na sequência, foi a vez de outros três petardos: “O Segundo Passo”, “De Turim a Acapulco” e, atendendo a um pedido do editor do Scream & Yell, “O Bêbado de Ulysses” em versão country-punk-Los Hermanos.

Uma banda tão apaixonada quanto política, o Terminal Guadalupe dosou amor filial (“Sara”, em homenagem à filha de Allan) com um grito de revolta contra aquele que está sendo julgado pelo STF (“Que Pasa, Cabrón?”), botando o público pra dançar com a aura latina da canção. A vibração tropical também seguiu em “VSF (Vá Ser Feliz)”, um ska divertido que também faz parte do novo trabalho, em contraposição ao hino pós-punk “Burocracia Romântica”, marco inicial da carreira do TG.
Perto do final, Dary ainda teve tempo para lembrar o genocídio em Gaza em dois momentos – primeiro, ao notar que pouco mudou em duas décadas no “Recorte Médio-Oriental”; depois, ao dedicar a bem-sacada “Não Desanime” não só a quem está há tempos desempregado ou às mães solteiras, mas também a qualquer um que precisa de um pouco de esperança neste 2025. Pra fechar, ainda teve a excelente “Pernambuco Chorou” e um bis improvisado repetindo “Atalho Clichê”, com direito a Manoel Magalhães e Vivian Benford subindo no palco para apoiar Dary nos vocais.
Enquanto isso, da plateia, poucos mas bons aventureiros se esgoelavam cantando junto, iluminando a noite de São Paulo com sorrisos que só mesmo a música pode proporcionar – e transformando um sonho em realidade. Parafraseando aquele velho filme romântico, este parece ser o começo de uma grande amizade. Que venham as próximas edições da Bretta.
– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod
Que texto bonito!
Texto caprichadíssimo pra uma noite inesquecível!