Novo Rock Gaúcho 005: Viana Moog, Rock na Praça, Idade da Desordem, Neptunn, A Ordem Inversa, Diokane, Cumullus

por Homero Pivotto Jr.

Setembro foi escolhido como o mês do gaúcho, forma de celebração alusiva à Revolução Farroupilha – revolta separatista perdida contra o governo imperial entre 1835 e 1845. Nessa época do ano, é comum a exaltação de uma certa “identidade gaúcha” e da cultura regional por meio de manifestações artísticas tradicionalistas (música, dança, culinária…). Por aqui, seguimos com o rock, expressão ruidosa nascida em comunidades negras estadunidenses que tomou o mundo no século passado e reverberou também nestes pagos.

Em mais esta coluna do Novo Rock Gaúcho – projeto para fomentar a produção autoral de música feita no estado mais ao sul do país –, trazemos novidades da cena rio-grandense. A seguir, os destaques do último mês (e a nossa playlist).


– “És”, Viana Moog – A banda Viana Moog lançou o single “És”, segunda faixa revelada do vindouro EP “PU,” com lançamento marcado para setembro. A nova música aposta numa estética pós-punk crua e lírica, com influências de P.I.L, The Cure e da banda mineira Último Número, e apresenta uma sonoridade mais atmosférica e contida do que os lançamentos anteriores. O grupo integra a cena lo-fi e alternativa do sul do país, misturando noise pop, indie 2000 e poesia urbana.

A letra de “És” foi construída com a técnica do slogan poético — frases curtas, como slogans ruins, que funcionam como recortes emocionais de uma situação vivida, ouvida ou presenciada. Segundo Everton Cidade, vocalista, escritor e poeta maldito, a faixa é uma canção espelho: pode ser interpretada com tristeza, raiva ou ironia, conforme a experiência de quem escuta. “No álbum, ‘És’ representa a fragilidade e a confusão de amar o que nos faz mal e fazer mal a si mesmo”, afirma Cidade.


– Documentário sobre o festival Rock na Praça – Um dos eventos mais representativos e longevos do underground gaúcho ganhou documentário. É o Rock na Praça, que rola há 23 anos em Esteio, a céu aberto. A produção audiovisual traz entrevistas com artistas e criadores da iniciativa, contando histórias e desafios para manter o projeto ativo. Além disso, o filme mostra a movimentação promovida pelos shows na Praça Coração de Maria, centro da cidade. Prova da força do Rock na Praça é seu reconhecimento como Patrimônio Imaterial do Município de Esteio, pela Lei Municipal nº 8147/22.


– “Idade da Desordem”, Idade da Desordem – O etarismo pode se manifestar em todas os âmbitos, até na música. Mas, como dizia um picho na Cidade Baixa (bairro boêmio de Porto Alegre): nunca é tarde quando não se sabe que horas são. E não importa o ano de nascimento quando se entende que criar é um exercício atemporal. Nessa toada, mais uma banda nova de veteranos da cena independente gaúcha nasce. É a Idade da Desordem.

Em seu primeiro registro, um EP de três faixas autointitulado, o grupo apresenta o post punk consciente e afiado que remete a nomes como Plebe Rude. O registro não está nas grandes plataformas de streaming, apenas no Youtube.

Conforme o próprio quarteto: “Neste EP, a urgência do pós-punk ecoa em três faixas que refletem o lado mais orgânico da banda. Do ríspido ao dançante, apresentamos uma mostra do nosso repertório e das sonoridades que exploramos. Esta é a Idade da Desordem.”


– “Neptunn Rise”, da Neptunn – Nome emergente do death metal no sul do Brasil, a Neptunn traz à tona nova composição. A música, chamada ‘Neptunn Rise’, foi produzida por Renato Osório e Thiago Caurio. Já o clipe foi editado pelo guitarrista Bruno Fogaça com filmagem de Billy Valdez (Coletivo Catarse). As gravações tiveram como cenários o Estúdio Legato e o Coletivo Catarse. O ator que interpreta Netuno é Carlos Loureiro, com maquiagem de Kaiane Almeida.


– “procedural (automático)”, da asterisma: Depois de abrir os caminhos de seu novo trabalho com o lançamento do primeiro single, a banda asterisma apresenta “procedural (automático)”, segunda faixa do novo álbum, previsto para novembro. Construída a partir de conversas sobre privilégios, inseguranças e automatismos sociais, a música discute o cansaço diante das disputas por espaço em um mundo estruturado para manter as mesmas hierarquias.

A alternância entre vozes masculina e feminina marca a narrativa de procedural (automático), destacando diferentes formas de sentir e interpretar os mesmos conflitos. A música fala sobre a exaustão de quem tenta romper com padrões previsíveis, mas se vê preso a um sistema difícil de mudar, onde os privilégios seguem ditando quem tem mais chances de avançar e o medo de ser substituído por alguém mais favorecido se torna constante.

“procedural (automático)” sintetiza a identidade sonora da asterisma, destacando influências do indie e do emo do início dos anos 2000.


– “Dia Ruim”, de A Ordem Inversa – A banda A Ordem Inversa disponibilizou o som ‘Dia Ruim’ nas plataformas. A faixa é uma parceria do guitarrista e vocalista Felipe Messa com Déborah Fontoura, da banda Punkrockets. A música foi gravada e produzida no estúdio Shout! por Rafael Heck, que também tocou bateria.

“Trata-se de um punk rock que fala de coisas que às vezes dão errado na vida e em relacionamentos que aparentemente estão bem. Esta música fecha um ciclo das antigas composições da banda, que agora inicia um novo projeto com nova formação”, afirma Felipe.


– “O Lobo”, da Projeto Hare – A banda Projeto Hare lançou o terceiro single do vindouro terceiro álbum. Trata-se da faixa “O Lobo”. A composição e a letra são de Adara Araújo e Arthur Nedel. A produção musical é de Arthur Nedel e Lucas Mirovski.


– “Tudo Certo para Dar Errado (Ao Vivo)”, da Supervão – “Tudo Certo para Dar Errado (Ao Vivo)” é primeira faixa do EP AVGN na Rádio Agulha. O trabalho reúne quatro versões ao vivo de músicas do álbum “Amores e Vícios da Geração Nostalgia “(2024), gravadas em uma sessão nos túneis subterrâneos de Porto Alegre, debaixo da chaminé do Shopping Total, onde hoje funciona a Rádio Agulha. O EP completo será lançado em 5 de setembro de 2025. O registro marca a fase atual da Supervão, inaugurada com a entrada de Rafaela Both (bateria) e Olímpio Machado (baixo e vocais). É o primeiro registro oficial dos quatro integrantes tocando juntos o show do álbum AVGN, captado ao vivo exatamente como vem sendo apresentado. A escolha de “Tudo Certo para Dar Errado” como estreia foi feita por ser atualmente a música mais ouvida da banda nas plataformas e uma das mais marcantes nos shows.


– “Cheiro de Enchente”, Diokane – Em meio ao caos que se alastrou com a enchente que atingiu o Rio Grande do Sul em maio de 2024, um forte odor vindo do lodo e dos detritos, carregados de sedimentos variados – como animais mortos e esgoto –, deixou a maior tragédia climática do Estado ainda mais perturbadora. É esse o mote de “Cheiro de Enchente”, novo single da banda porto-alegrense Diokane. A composição é um relato do que se viu e sentiu durante a enxurrada de horror, com base, principalmente, no que foi testemunhado ou mostrado na imprensa em Porto Alegre e arredores. Um documentário/clipe com imagens da catástrofe e depoimentos de quem sofreu diretamente as consequências da inundação acompanha o lançamento. Até mesmo as cenas em que a banda aparece tocando tiveram como cenário um dos inúmeros locais alagados na capital gaúcha.

No vídeo, os personagens que narram como foram impactados pelo dilúvio são familiares e amigos da banda – mostrando que vítimas da catástrofe estão por todas as bolhas. A amostragem, ainda que pequena, ilustra números assustadores sobre a magnitude do evento climático que não poupou gente nem bicho. Foram 478 dos 497 municípios gaúchos atingidos, conforme a Defesa Civil do RS. Houve impactos para cerca de 2,4 milhões de pessoas (entre as que precisaram deixar suas casas e as que tiveram interrupção de serviços), com mais de 180 mortos e 25 desaparecidos. Além disso, o governo do Estado estima cerca de 20 mil animais resgatados. As áreas mais afetadas incluem Vale do Taquari, Porto Alegre e Região Metropolitana.


– “Fauna e Flora”, da Space Rave – A Space Rave segue ativa pelo cosmos promovendo barulho no espaço onde humanos habitam. É uma viagem que já dura mais de três décadas e, agora, ganha propulsão com um novo lançamento. Trata-se de “Fauna e Flora”, 13⁰ trabalho da banda, contando fitas k7, cds, DVD e plataformas digitais, além de inúmeras coletâneas.

Este é o segundo disco do quarteto ruidoso gaúcho a sair pelo selo Maxilar, de Gabriel Thomaz (Autoramas). As composições foram gravadas entre 2022 e 2024, e contam com diversas participações especiais e afetivas que trazem novas cores e camadas sonoras. A capa criada pelo guitarrista Murilo Biff resume o espírito selvagem do registro, numa pilha “Stoogeana” (i’m a street walking cheetah with a heart full of napalm), ainda que com animais distintos. Os sons são imersos em poética lapidada por revolta e insatisfação cotidianas, algo típico das criaturas que buscam afeto e prazer numa sociedade decadente e insana. Tudo envolto em camadas de riffs grudentos e melodias melancólicas gritadas com a angústia de quem busca conforto na arte e na expectativa de se reencontrar como indivíduo.


“Nuvens de Ódio”, da Cumullus – O quarteto porto-alegrense de war black metal/black metal sinfônico Cumullus liberou seu registro de estreia. É o EP “Nuvens de Ódio”, que tem cinco faixas. A gravação, mixagem e masterização é de Leandro Mohr (Big Hill Studios).


– “Vivienne Westwood”, Projeto Shaun – Aqui temos uma mistura de viagem, romance e referências pop improváveis. “Essa é uma música de amor e que traz todas essas referências”, declara João, vocalista e compositor da Shaun. Na letra, a estilista Vivienne Westwood aparece ao lado de Serge Gainsbourg, Rita Lee, Neil Young, The Kinks, Gilberto Gil e The Smiths. Para ele, essa troca de referências é parte do próprio processo de se aproximar de alguém. “Os gostos que a gente compartilha são um jeito verdadeiro de ir conhecendo uma pessoa, e talvez as citações na letra funcionem também como esse código.” Talvez seja assim também que as pessoas passem a conhecer uma banda, pelos nomes, sons e imagens que ela escolhe trazer para dentro da sua música. João aponta a banda britânica Gorillaz como a principal referência: “Esse som é tipo um Gorillaz com guitarra, algo que a gente mirou bastante.” Vivienne Westwood é também a única faixa do disco com produção diferente, assinada pela dupla Bruno Neves e Léo Braga. Sobre o que Vivienne diria ao ouvir seu nome em uma música, João arrisca: “Acho que ela acharia legal estar sendo listada junto de outras pessoas tão fodas. Mas não entenderia Porto Alegre, ela era muito à frente.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

a

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *