I Wanna Be Tour 2025: o emo está vivo, mas cansado

texto de Jullie Piva
fotos de @bmaisca

Uma reflexão parece ter pairado na segunda edição do festival I Wanna Be Tour, que ocorreu em 30 de agosto, em São Paulo: o emo (assim como seus sons de berço punk e hardcore) ainda tem espaço para novidades ou estaria apenas reciclando com festivais revival e bandas retornando às atividades após anos de hiato, uma onda de experiências sonoras e sensoriais de um passado que não se reinventou? A dúvida surgiu principalmente nos momentos em que hits de alta projeção no mainstream dividiam espaço nos set lists com as novas empreitadas das bandas que chegaram ao seu auge nos anos 2000.

Curiosamente, os highlights do festival pautado na nostalgia foram de grupos que mantiveram suas atividades sem apelar pro conhecido “cover de si mesmos”, como Dead Fish, Fresno e Fall Out Boy. Estas bandas deram uma lição de como manter seu público engajado, se reinventar e manter sua essência, sem perder os fãs antigos e conquistando novos.

Fake Number

Em meio aos telões com delay nas projeções, a sequência intensa de shows intercalados entre dois palcos começou com a paulistana Fake Number pouco depois das 11 horas da manhã do sábado. A vocalista Elektra reiterou o desafio de juntar a banda após 10 anos de hiato, já que atualmente os integrantes têm agendas muito diferentes. Apesar do estádio não estar cheio no horário de abertura, o público que fez questão de chegar cedo cantou a plenos pulmões os hits “Aquela Música” e “Primeira Lembrança”, emocionando os músicos.

Gloria

Em seguida, Glória fez um set enxuto sem as músicas do seu primeiro álbum, “O Fim é Uma Certeza”, de 2005 – época em que Ge Rocha, do NxZero, e Yuri Nishida, ex-NxZero e Granada, ainda faziam parte do grupo. Embora seja algo comum nos shows da banda, a escolha por um repertório mais recente destoou do clima de nostalgia do festival, com o público ainda morno, guardando energia para as próximas atrações. As faixas finais, “Asas Fracas” e “Minha Paz”, ambas da segunda metade dos anos 00, mostraram melhor afinidade com os presentes.

Neck Deep

Na sequencia, foi a vez da Neck Deep, aposta interessante e banda mais nova que o restante do lineup do festival. O grupo galês, que já havia feito show na noite anterior junto a Story of the Year e Yellowcard no Tokio Marine Hall, apresentou no I Wanna Be Tour um setlist reduzido focado em hits e canções animadas, provando que possui uma legião de admiradores no Brasil. Os fãs cantaram da primeira à última faixa com entusiasmo, bate cabeças e moshs, em músicas como “She’s a God” e “In Bloom”.

Story of the Year

As rodinhas de pogo se mantiveram na sequência, com Story of the Year e as poucas horas que separaram o sideshow do próprio festival. Ao contrário da Neck Deep, o grupo norte americano mostrou um setlist quase idêntico à noite anterior, finalizando com o maior hit de sua história, “Until the Day I Die”, de 2003. O público também vibrou com a apresentação, que marcava o retorno da banda ao Brasil após 12 anos de sua última passagem pelo país.

The Maine

Um show de carisma começou com The Maine e seu vocalista John O’Callaghan, que se mostrou bem afetivo durante a apresentação: de um simples “obrigado” até as interações com a plateia e um cinegrafista que registrava tudo. Foi uma resposta à altura do famoso calor da plateia brasileira, embalada por canções como em ”Don’t Come Down” e a faixa de encerramento “Black Butterflies and Déjà Vu”.

Dead Fish

Como era de se esperar pela indiscutível qualidade que atravessa mais de três décadas, a banda capixaba Dead Fish entregou um dos melhores shows do festival, começando como de praxe com “A Urgência” e gritos engajados de “Palestina Livre” – apoiado pelo lenço keffiyeh usado pelo vocalista Rodrigo Lima – e alusões à prisão de Jair Bolsonaro. Os hits sempre acalorados e de teor político animaram a tarde no Allianz Parque, com setlist equilibrado entre sucessos antigos, como “Proprietários do Terceiro Mundo” e “Zero e Um”, e mais recentes, como “Dentes Amarelos” e “49”.

Entre merchs e filas de banheiro, a pista premium mostrava uma qualidade de som infinitamente superior em relação aos outros setores do estádio. Essa disparidade no volume gerou muitas reclamações por parte do público, tanto no festival quanto nas redes do I Wanna Be Tour. Essa falha não atrapalhou apenas a projeção das músicas, mas também a dificuldade de entendimento das falas dos músicos nos microfones entre as canções.

The Veronicas

Com um show que parecia versões eletrônicas de músicas icônicas de outros artistas, as irmãs The Veronicas entregaram muito carisma e fashionismo no palco. Mesmo com a sensação de “será que elas têm músicas para sustentar uma hora de show?”, o público se esforçou para devolver o carinho demonstrado pelas australianas, se empolgando de verdade no último momento, com “Untouched”.

Forfun

Forfun e suas músicas que aludem a finais de tarde começou a tocar curiosamente no horário em que o sol do dia baixava. O público parecia ansioso com o show, que se iniciou quando o festival já apresentava mais da metade da pista lotada. Além da abertura com “Hidropônica”, os momentos mais marcantes foram em que os cariocas – tão animados que resolveram tirar a camisa, colocar o shape de surfista pra jogo e fazer dancinhas sincronizadas –, tocaram “Cara Esperto” e “História de Verão”, hinos da cena emo do final dos anos 00s.

Fresno

Com o espaço já escuro e cheio, a Fresno subiu ao palco com o eterno carisma de Lucas Silveira, enquanto agradecia por realizar seu sonho de tocar num estádio à noite. O grupo encerrou o lineup de brasileiros com maestria, apresentando um setlist de hits mais antigos e alguns mais novos, mostrando o apreço pela época que a fizeram criar alicerce na música brasileira – apesar de todos os desafios para não perder sua essência para o mercado fonográfico.

Fresno

Além de Lucas, o destaque também ficou para o entusiasmo e interações da excelente baixista Ana Karina Sebastião (que conta com passagens por gigantes da MPB, como Chico César, Arrigo Barnabé e Liniker). No grupo desde o ano passado, ela esbanjou sorrisos e ajudou a emocionar a plateia com uma versão a capella de “Eu Sou a Maré Viva”, e hits antigos da época de Hangar 110, como “Onde Está” e “Diga Parte II”, além de sucessos mainstream como “Desde Quando Você Se Foi”.

Yellowcard

Com o tapete emocional fincado pela apresentação da Fresno, a Yellowcard começou seu show com o maior hit da carreira, “Only One”, fazendo dezenas de pessoas correrem em direção ao palco. Um respiro de sonoridade diferente veio com o violino característico do grupo, que encontra seus solos em “Breathing” e “Way Away”. “Ocean Avenue” encerrou uma das melhores apresentações do dia, mantendo a emoção e empolgação.

Good Charlotte

Abrindo com o hit “The Anthem”, o Good Charlotte apresentou um show pirotécnico, mas não superou as expectativas, com uma presença morna e pouca animação dos gêmeos Madden. Dois sucessos de “The Chronicles of Life and Death”, a faixa-título e “We Believe” ganharam menos de um minuto de espaço no set, deixando espaço para faixas que empolgaram menos. No entanto, o grupo engatou coro com as emotivas “Predictable” e “Hold On”, fazendo o público dançar no encerramento, com “I Just Wanna Live” e “Lifestyles of the Rich & Famous”.

01

Finalizando o dia, o Fall Out Boy entregou um cardápio de músicas que atendeu a todos os tipos de público do I Wanna Be Tour: dos mais nostálgicos aos mais contemporâneos. A estrutura da banda, claramente bem mais profissional do que as anteriores, contou com efeitos pirotécnicos, transições mais planejadas de telão, cenário inflável recriando a capa do álbum “Folie à Deux” (2008) e o baixo de Pete Wentz se transformando em um lança-chamas durante “The Phoenix”. No entanto, as músicas que realmente tiraram os pés do público do chão foram as esperadas “Sugar, We’re Goin Down”, “Dance, Dance” e “This Ain’t a Scene, It’s an Arms Race” e “Thnks fr th Mmrs”.

Antes desta edição, o comentário mais típico que se ouvia do público sobre o I Wanna Be Tour 2025 era que o lineup do ano anterior havia sido muito mais consistente e, por isso, havia a expectativa de que este ano o festival correria o risco de ser um fiasco. No entanto, 45 mil pessoas lotaram o estádio novamente para ouvir 12 horas de música embaladas pela primeira grande onda nostálgica do gênero.

Entre elogios e críticas – baseadas no gosto pessoal de cada um, é claro – havia também uma exaustão sonora generalizada e típica de um festival que possui como gancho uma sonoridade hiper específica. No final, a sensação ambivalente entre estar vivo, mas também cansado, cria a metalinguagem perfeita para resumir o que foi a edição de 2025 da I Wanna Be Tour.

Por enquanto, fica a expectativa para 2026: o ano do show solo do My Chemical Romance, banda ovacionada todas as vezes que seu comercial pipocava nos telões do Allianz, e também para a próxima edição do festival – que poderia abrir o leque para mais atrações, trazendo de volta medalhões internacionais como Thursday e Taking Back Sunday, mas também valorizando os nomes brasileiros que pavimentaram o emo no país, como Hateen e Dance of Days.

Jullie Piva é jornalista e escreve sobre música desde 2010 para diversos sites, artistas e projetos.

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