“No simples a gente pode encontrar muita beleza”, diz Thiago Oceano (It’s the Ocean). Ele está lançando o EP “Enfins”

entrevista de Fabio Machado

Thiago Oceano tem muito o que dizer. A constatação não é só pela urgência temática de “Enfins” (2025), seu novo trabalho – sob o nome do projeto It’s the Ocean – surgido da necessidade de verbalizar em palavras (e sons) uma amizade em meio ao luto. É que Thiago tem realmente assunto para falar e disposição para conversar. Pelo menos, esse é o saldo que fica da entrevista que concedeu enquanto tomávamos um café no centro de São Paulo: a conversa, que rendeu algumas páginas, se estendeu para além das quatro faixas que integram o EP lançado pela sua própria gravadora, Dona Dete Records.

Boa parte do papo foi feito de forma descontraída e se desdobra nos detalhes em torno da gravação, que agregou amizades de diversas bandas e artistas do cenário independente brasileiro como Brita, Schlop e Menino Thito -, Thiago contou ainda com a parceria do irmão Tharcisio Alves, com quem também forma o projeto Ciel Blue; e com Daniel Duarte, responsável pela produção e baterias do disco. A sonoridade resgata parte da melancolia lo-fi que já aparecia nos singles anteriores do It’s the Ocean, mas agora o foco está nas guitarras, presentes em melodias psicodélicas e riffs que flertam com o pós-punk, ainda que persista a identidade do seu violão, “suingado” e assumidamente brasileiro, nos arranjos costurando tudo.

Mas para além de “Enfins”, Thiago também topou falar de outros temas não menos importantes. Ele dividiu sua visão pessoal sobre como é ser um artista negro e oriundo do Capão Redondo (SP) de alguma forma dialogando com outros públicos, contrariando expectativas e estereótipos. E deu detalhes sobre sua correria como um dos responsáveis pela Dona Dete Records, em meio a um cenário cada vez menos favorável para artistas e gravadoras adeptos do faça-você-mesmo.

Scream & Yell: A pergunta que não quer calar: Você é Thiago Oceano ou It’s The Ocean?
Thiago: It’s The Ocean é o nome do projeto que eu criei. (A tradução) seria “É O Oceano” porque o oceano está ligado em uma boa parte da minha obra. E Thiago Oceano, que é o nome artístico, está em transição pra ser o nome oficial de todos os novos lançamentos. Mas tem a questão do streaming, das plataformas, e não é tão simples mudar sem perder os trabalhos antigos. A questão pra mim nem é a visualização e sim o público, perder pessoas importantes, confundir… Essa transição tem que ser feita com cuidado. Até a galera toda se adequar – se adequar não, perdão. Se conectar com esse novo nome.

Acho que um jeito legal de começar seria justamente você retomar a história que você estava me falando, até você entrar em contato com o produtor Daniel Duarte (Brita) pra gravar o “Enfins”. Como essa história começou?
Vamos lá. Mano, eu estou trabalhando num disco, a passos bem de formiguinha. Conforme o que a grana permite e tal. Estou trabalhando nele desde o começo de 2024. E, ao mesmo tempo, tenho que cuidar do que está acontecendo na Dona Dete [nota do redator: a gravadora independente Dona Dete Records]. A gente está lançando um pessoal legal e a ideia é fazer todo mundo ser visto. E o que acontece? Esse ano, 2025, encontrei com uma amiga e a gente não se via há bastante tempo. E, cara, o jeito que a gente parou de se falar, assim, foi uma coisa um pouco complicada. Aconteceram muitas coisas. Não teve culpa de ninguém, só uma falta de informação, sabe? É óbvio que dentro dessa amizade existe um verso romântico, sim. Mas… (pausa) Tipo, eu estava em um momento, em 2024. Estava num momento de dor, passando muita coisa. Acho que o ano não estava vindo bem pra ninguém, né? Estava todo mundo mal, de alguma forma, em todos os setores da vida.

E chegou no final do ano, essa amiga perdeu um parente, estava num relacionamento que deu errado, e também passando por um processo de luto muito foda. Eu fiquei sabendo assim, em cima da hora. Liguei pra ela para dar meus sentimentos pelo parente que ela tinha perdido. Algum tempo depois, em fevereiro de 2025, a gente marcou de se ver. Na época que a gente marcou de se ver, eu vi ela num estado assim, cara… (pausa) que me quebrou de várias formas. Tá ligado? Eu fiquei muito arrasado por ver ela naquela situação… (pausa) Difícil. E eu estava pensando no que dizer. Mas não conseguia dizer nada. Aí a gente foi num café ali na Paulista. Horrível. Tem que pegar o nome depois pra te passar, pra você não ir (risos). Mas voltando, eu fiquei lá e falei: “Cara, eu watava na fila por Palavras”. Fiquei pensando nesse nome. Na fila por Palavras. Eu estava escutando algo, sabe? Eu queria dizer algo.

Já era o nome de uma das canções (do “Enfins”).
Exato. Eu queria falar algo que me confortasse, dar alguma luz ali. Para aquele caminho onde ela estava. E não conseguia enxergar nada. E aí, lembro que fui na casa dela, a gente conversou mais um pouquinho e depois se despediu. Voltei. Eu fui para (a estação de metrô de SP) Vergueiro. Comecei a pegar o metrô pra ir embora. Sentei ali, cara. Fiquei tipo a tarde toda lá, esmiuçando as canções ali, escrevendo letras. Só que o que eu estava escrevendo ali não era bem as letras das músicas, assim. (Ainda não eram) Composições. Ali era mais eu tentando organizar as ideias. Como se eu falasse: “Pô… Eu vou ligar pra ela depois. Vou falar algo”. E fui colocando (as ideias). Não era essa coisa mais poética que está no EP, e sim o que eu poderia ter falado, sabe? O que eu queria falar e eu não falei. Eu estava engasgado. Isso estava me matando também. E aí surgiram essas quatro faixas.

A “Tão Real”, que é a última desse EP, era algo que você já tinha composto antes.
Eu tinha composto uma boa parte dela. A “Tão Real” é o seguinte: Ela é tipo uma luta de versos. Você compõe também, não compõe? É uma coisa, tipo… Eu escrevi um verso. Aí eu escrevi outro verso. Para contar pro outro verso. E aí foi juntando, assim. Mas tudo de alguma forma que eu não sei explicar. E aí, eu já havia composto essas músicas (as três primeiras do EP). Ficou nessa ação. Aí eu falei: “Pô, para fechar um EP, falta uma”. E peguei a “Tão Real”. Dei aquela mexida, coloquei, tipo, a última estrofe. E falei: pronto.

Você tomou essa decisão só quando as outras três faixas prontas? Ou desde antes do processo criativo, você já pensava que daria para incluir ela com as outras que fazem parte do “Enfins”?
Então, eu já pensava na “Tão Real”. Só que eu não pensava que ela ia virar uma faixa: pensei que iria pegar algum verso, alguma estrofe dela e incluir colocar numa (outra) música. Mas tenho um processo meu louco, quando vou compor… eu saio, tipo, escrevendo o que vem na cabeça. E nisso vem muita coisa que não era pra vir. Aí vai indo, vai indo, tal. Até pra tentar ser o mais cru possível. E aí que veio um comentário. Não sei se você pode falar. Da Rayane (jornalista do perfil Rocknbold). Ela falou pra mim uma coisa que foi específica sobre a “Na Fila por Palavras”, mas que acabou virando uma definição sobre esse EP que eu não estava conseguindo achar. Ela falou que a música não tem um ar de grandiosidade. Ela quer ser sincera. Portanto, se você ouvir, você vai falar: “Cara, isso aqui não é cantado. Isso aqui é muito mais falado”. Ela falou isso sobre “Na Fila por Palavras”, só que aí eu peguei esse conceito e vi que cabe pra todo EP. Porque é exatamente isso. Ele não é um disco de decepção amorosa, por exemplo. Ele não tem nada a ver com isso. Existe um verso romântico, da minha parte, mas é muito mais no nível de um amigo. É muito mais algo de um amigo para uma amiga.

Você diria que tem também uma tentativa de consolar esse luto? Ou um olhar sobre o luto de alguma forma?
Existe. É exatamente isso. E do jeito mais sincero possível, sem nenhum tipo de pegadinha. Sem nenhum tipo de projeção, sabe? É como ver alguém que você gosta ali parado e dar a mão ali para a pessoa. Se é um amigo do bairro, um irmão, uma pessoa amiga, mulher amiga, namorado, namorada… Você pega a mão da pessoa e fala: “Pô, eu tô aqui”. Independente do que aconteceu.

E olhando para as faixas, você consegue comparar ou olhar as diferenças em relação a outras coisas que você já fez sob o nome It’s The Ocean? Qual seria a diferença principal? Tanto em termos de som quanto na temática.
Então, a questão da estética, antigamente era o quê? Uma coisa que misturava ideias que vinham da minha cabeça. Tipo a música que eu lancei, “Rio Sem Janeiro” (2023), foi uma mistura de violão clássico com lo-fi. Depois vieram outras faixas: “Inverta o Fim” (2024), “Sentimental”, “Girassol” (2025), são coisas que misturam pop com um pouco de um violão um pouco brasileiro, um pouco folk. Tinha essa parada. Agora, o “Enfins” veio com uma proposta mais shoegaze, indie rock, em cima de uma base de violão popular. Por isso, até me soa até um pouco estranho isso, porque se você reparar em “Na Fila Por Palavras”: você ouve o violão dela e ao invés de ser tipo uma coisa mais palhetada pra baixo ou alternada do rock, não. É uma coisa meio suingada no violão. Entendeu?

Sim, vejo que essa influência do violão sempre esteve aí de alguma forma na sua carreira. Mas me chamou a atenção que “Enfins” tem muito mais guitarras. Essa sonoridade foi uma decisão sua com base no que você já tinha escrito ou foi uma coisa que veio naturalmente?
Cara, a guitarra. Eu precisava de uma guitarra que conversasse com a música, com as palavras. Como se fosse uma melodia em cima de cada frase, um comentário. Se você ouvir “A Greve do Sol.” Ela começa bem solar, e de repente ela vai escurecendo, aí ela volta com luz de novo.

Isso foi uma coisa que eu tinha até escrito antes ao ouvir essa faixa em específico, que era um clima solar, com uma levada mais pra cima, e a guitarra está sempre em evidência. Mas pensando sobre as músicas como um todo, eu diria que a guitarra está em evidência em todo o trabalho. Em “Um Dia Te Vi”, embora seja uma levada mais tranquila, vem com essa coisa meio lo-fi e aqueles detalhezinhos de guitarra com reverse delay nas melodias…
Eu me senti até meio abandonado (no processo de gravação), porque eu sou guitarrista, mas tenho uma preferência muito maior pelo meu irmão (Tharcisio Alves/Ciel Blue), que é um instrumentista extraordinário. Sempre trabalhei com ele. E o que acontece é que você encontra músicos incríveis de todo lugar, mas afinidade… Sabe? Só que tem uma pessoa que é o Vitinho (Victor Cardoso, guitarrista da banda Brita), que eu falei: “Cara, a gente se daria muito bem tocando junto”. E uma coisa é trabalhar com o Dani, outra também é trabalhar com o Vitinho. E foi assim que o Vitinho, graças ao Daniel, conseguiu colocar essas ideias de uma forma livre.

A gente estava gravando, e ele falava: “Vitinho, improvisa em cima disso…” e ele acompanhava mais o que eu estava cantando, o sentimento da poesia, para qual lado ia. É muito engraçado, porque na “Um Dia Te Vi” tem um solo que são micro-solos: Tem um micro-solo meu, um do meu irmão, outro do Vitinho – que aproveitou um solo de piano para transpor ali na guitarra. E ficou com uma cara bem John Frusciante, ele tem essa característica. Assim, eu amo o Frusciante. O Vitinho e o Tharcisio também amam. O que eu vejo é que muitas pessoas podem reclamar do disco, reclamar assim, aquelas coisas pontuais, seria das vozes estarem “afogadas”. Mas assim, não é que a voz está afogada, é mais pelo estilo de som do próprio shoegaze.

Você diria que é uma escolha estética, então? De deixar o vocal mais “para trás” na mixagem?
Exato. Apesar que eu tenho uma grande amiga que comentou: “Cara, eu acho que por ter o foco na lírica, na minha opinião eu acho que não foi uma boa, não foi uma escolha tão legal jogar os vocais (mais para trás)”. Uma crítica justa. Mas ao mesmo tempo, eu acho que quando a gente tem interesse, quantas vezes a gente ouve um músico, um artista que a gente ama, e tenta ouvir o disco mais três vezes para entender uma coisa, né?

Sim, alguns a gente ainda não entende muito até hoje. Tem vários exemplos até no shoegaze, tipo os vocais do “Loveless” (My Bloody Valentine) ou “Heaven or Las Vegas” (Cocteau Twins)…
Sim, eu tento entender o Eddie Vedder (Pearl Jam) até hoje (risos). E tem a questão de falar sobre um sentimento que está ali, na ponta da língua, que está na carne, acontecendo no exato momento… Não é uma coisa que passou, que está lá na frente. Uma coisa que está acontecendo.

É diferente. Você diria também, então, que como compositor e cantor, que interpretar essas letras foi diferente do que você já fez antes?
Muito, muito. Até porque a interpretação não tem nenhuma grande nuance melódica, são (melodias) básicas. Mas eu acho que a beleza, no meu ponto de vista, está justo no básico, no simples. No simples a gente pode encontrar muita beleza, também. Nem tudo tem que ter uma grande performance. São momentos da vida, né? E é aquela coisa, é a mensagem sendo dita.

A gente já falou sobre “Na Fila Por Palavras”, mas outra coisa que eu havia sentido é que ela é a faixa mais tensa do EP, tem uma carga mais pós-punk e termina numa nota mais pesada, literalmente. Você concorda com isso?
Sim, concordo. “Na Fila por Palavras”, ela é uma música que eu meio que engasgo pra cantar. Porque ela vai vindo e… (pausa) Eu não sei hoje, mas no dia lá em Búzios, primeiro eu cantei ela no Antônio (Valoto, baterista da Schlop, que participou da pré-produção e como instrumentista do EP), e inclusive a Isa (Isabella Pontes, vocalista e instrumentista da Schlop) ia cantar comigo. Aí nossas agendas não estavam batendo, e meu irmão falou: “Thiago, acho que essa música é muito, muito, muito pessoal. Acho que é melhor você cantar ela sozinho” [nota do redator: pergunto se tem alguma chance de fazer uma versão futura da canção com a Isabella, e a resposta foi de bate-pronto: “Óbvio que tem! Eu tenho a gravação com a Isa cantando e ficou maravilhoso”].

Aliás, fale um pouco mais desse processo de gravação. Pelo que eu vi, tem muita gente participando. Você gravou com o Daniel em Búzios (RJ), certo?
Sim, no Estúdio Terra. O que aconteceu é que eu chamei o Antônio porque eu tinha umas ideias registradas em casa, e eu queria gravar com ele. Aí conversei com o Antônio, a gente marcou e eu gravei as estruturas (das músicas). Até pra chegar em Búzios com as coisas praticamente prontas, porque quando chegasse em Búzios eu ia deixar mais pra chorar minhas dores, fumar maconha com o pessoal (risos). Não que eu seja um bom fumante, um maconheiro de classe, que nem o Daniel. O Daniel é o maior maconheiro de todos os tempos, eu acho (risos).

E aí tem muita coisa que eu gravei no Antônio, que a gente tirou mas que não foi em vão, porque ajudou em muita coisa. Inclusive o Antônio foi fundamental, ainda mais para me encorajar. E ele gravou baixo em duas músicas: em “Um Dia Te Vi”, que tem um solo bem peculiar de baixo, ficou bem escondidinho e lindo ali. E ele gravou “A Greve do Sol”. O baixo em “Na Fila Por Palavras” foi a Bárbara Guanais (Brita) com a ideia de preencher os graves, uns espaços que estavam faltando. E a “Tão Real” foi o meu querido irmão Hugo Noguchi (Brita, ex-Ventre) e arrebentou, acho que a coisa que mais chama atenção naquela música é o baixo ali. Poucas notas, mas de um jeito que… (pausa) O Hugo é aquele cara que é tipo aquele meio-campista que coloca a bola onde ninguém vê. Você fala assim: “Nossa, aqui um baixo não ficaria legal”. Aí ele coloca o baixo lá e fica legal.

Como é que essas participações se deram? Você já tinha pensado em específico no nome deles pra fazer essas participações? Quando elas foram rolando? Porque imagino que não gravou todo mundo ao mesmo tempo, né?
Não. Cara, foi assim: fui distribuindo e os caras só foram gravando. Foi meio: “Nossa, isso aqui ficaria legal o fulano fazendo”. Eu tenho um amigo que tem um perfil no Instagram chamado Samples Assim, que é o Eduardo. E ele ia gravar o primeiro baixo da “Um Dia Te Vi”. Ele gravou um baixo, só que a música era outra, né? Era outra vibe, outro estilo. Aí eu mudei a música, a gente mudou a música, deixou a música mais leve. E aí eu ia gravar o baixo, meu irmão. Só que foi, pô, o legal é que teve um monte de gente participando, né? Aí eu fui e fiquei com todo mundo que eu pude.

Em “Na Fila Por Palavras”, eu pensei na Isa. Não sei por quê, sempre achei a Isa muito foda. Aí ela falou pra mim: “Ah, Thi, eu não entendo tanto de canto”. A Isa tem um sentimento, ela canta ali o que ela sente. Seria perfeita pra uma música dessa. Só que aí foi o que eu te falei: agendas, tempo, prazos. Daí… (acabou não rolando). Já a Bárbara gravou os backing vocals da “Um Dia Te Vi”. Ficou muito lindo daquele jeito que ela faz ali, é muito legal que a voz dela conversa com a minha, conversa com os instrumentos. Ainda fica, tipo, no último refrão, ela fica, tipo, acompanhando a vibe da guitarra, assim, com um sussurro. O Tharcisio é responsável por alguns arranjos de violão, e também fez um backing vocal escuro [nota do redator: no sentido de ser uma vocalização mais grave] na “Tão Real”.

E o Menino Thito, tem que ficar de olho nele, que… Assim, opinião minha. Sabe quando surge um novo jogador? “Ah, ele vai dar uma boa balançada”. Ele está se destacando, foi agora participar de um evento lá em Brasília. Ganhou alguns concursos. Já tocou no Bar Alto, no Tranquilo (espaços de música autoral em SP). Ele é um artista incrível, extremamente versátil. Tanto na lírica, como no pop, no rap, no MPB, no rock. Ele tem várias vertentes. E é um cara que é tipo um intelectual da música, sabe do que está falando. Quero chamá-lo de novo (para gravar) uma próxima vez, porque eu acho que o estilo e a estética da música no dia que ele trabalhou não ressaltou tanto a voz dele como deveria ter ressaltado [nota do redator: Menino Thito fez backing vocal em “A Greve do Sol”].

O resultado disso me parece ser um disco bem colaborativo.
Sim, sim. Só de gente que eu amo pra caramba, sabe? O Daniel que gravou também fez bateria, fez sintetizador. Opinou em tudo, afinal, ele que estava produzindo. Um grande disco de… (pensa um pouco) Eu acho que foi 2024 que foi lançado, que é o disco do pessoal da Gueersh. Quem produziu foi o Daniel, é um puta disco. O Daniel é aquele cara que é responsável por movimentar várias bandas, várias cenas. Mas acho que falta uma atenção por parte da curadoria, da galera que investiga as cenas nos lugares (para o trabalho dele). Porque o que o Daniel produz, é um trabalho, é um serviço, mas ele também ajuda os artistas a gravarem. Ele está produzindo muita gente incrível. E não só produzir, ele participa de muita coisa. Por exemplo, eu tenho trabalhos que ele não produziu, mas tocou como baterista, opinou (nas ideias). E muitos discos que estão circulando pelo Brasil tem o dedo dele, mas pouca gente sabe.

Como foi a conversa de vocês? Você chegou com ele já dando alguma referência de som? Vocês foram pensando juntos no caminho? Ele já tinha uma visão?
Cara, o Dani falou pra mim: “Cara, eu quero que você mande tudo pro seu violão, e aí eu vou te dando dicas”. E aí, por exemplo, “Um Dia Te Vi”, eu falei pra ele: “Cara, eu queria que isso soasse bem Frusciante”. E ele: “Ah tá, então vamos dar umas pausas (no arranjo)”, porque (a versão original) estava muito reta, reta demais, e o Dani deu uma quebrada ali, até no jeito que a guitarra e o violão entram na música. Tem coisas que eu fui tocando junto, acompanhando, e tem coisas que ele foi montando. Aí ele mandava pra mim e pro meu irmão e perguntava: “E aí gente, o que vocês estão achando?” E eu ia falando e apontando ali certas coisas, entendeu? Tanto que em relação aos arranjos, estão creditados eu, o Tarcísio e o Daniel. Na questão instrumental, esse disco não tem erro.

“Enfins” é um disco que soa muito mais rock, no sentido de guitarra mais presente, do que outras coisas na sua discografia. E aí eu fico me perguntando: como é que vai ser as versões ao vivo? Vai ser mais acústico, violão e voz (que é uma proposta que você já costuma fazer), ou você vai montar uma banda para tocar as canções desse disco?
Então, a gente já aprendeu as guitarras que o Vitinho fez, o Vitinho é muito criativo. Mas primeiro foi um inferno, porque ele não fez vídeo, não fez partitura, nada (risos) A gente se ferrou, foi um caos para aprender a tocar, mas aprendemos, está tudo redondinho. A questão da banda, qual que é a minha preocupação? É que se for pra ter uma banda, tem que soar muito próximo do disco, sabe? Exige ensaio, exige cabeça por parte desse que está falando com você agora. Eu vou fazer uma experiência e tocar num recital, apresentar umas músicas e experimentar alguma coisa no violão pra ver como fica ao vivo. Sentir a reação das pessoas. Acho que (mais adiante) vou testar uma banda e vou testar o acústico. Tudo vai depender de como as pessoas reagem e como vai acontecendo. E o que mais tenho são grandes amigos músicos, certo?

Faltou perguntar sobre o nome do disco. Me dá a ideia de uma coisa mais aberta, múltipla. Mas queria que você falasse um pouco sobre o significado, se foi algo que você pensou já naquele momento quando estava escrevendo e pensando na sua amiga ou se veio depois.
Cara, eu lembro que estava conversando com ela e foi muito engraçado, porque eu estava de costas, me virei, olhei pra ela, dei um oi e ela falou: “Enfim” (risos). O “enfim” é um parágrafo pra ela, é muito engraçado. Seja conversando sobre coisas duras, coisas alegres, o “enfim” não sai (da conversa). Geralmente a gente usa o enfim pra terminar as coisas, mudar de assunto, mas ela usa mais como parágrafo para começar a conversa. Aí eu falei: “Cara, ‘Enfim’ não existe. Então vai existir a partir de hoje”.

E aí foi dado o nome, uma “coleção de enfins” que surge como lançamento da Dona Dete. E aproveitando que você é chefe da própria gravadora, queria saber como funciona isso de ter que administrar os projetos autorais e ao mesmo tempo trabalhar com outros artistas de forma independente. Como é ser artista e gestor ao mesmo tempo?
Eu sou um dos sócios da Dona Dete. A gravadora tem os “frentes” eu, Thiago, Don William, Tharcisio, o Robson Silva – que vai lançar um material também pela Dona Dete – e tem o Daniel Nishida, que também é um outro produtor. A ideia principal foi minha, do meu irmão e do Willian. Eu, como artista, cara… O (escritor Jorge Luis) Borges falava isso, algo como: ”Nada tão agressivo como as luzes dos holofotes”, sabe? Então, eu não fiz uma gravadora pra ser uma estrela. Eu acho que a parte comercial da música precisa de gente que esteja inconformada com o mercado. A Dona Dete (que é o nome da minha mãe) não é uma produtora samaritana, boazinha. A gente não tem nada de bonzinho. A gente simplesmente trabalha com a categoria de mercado, de venda, compra, comércio, e tenta se esquivar da lógica… Não vou dizer perversa, porque faz parte da pessoa sobreviver. Mas, tipo, a gente quer destoar de um local onde tudo tem que ser pra ter lucro. E até porque a gente sabe muito bem que é a música, e lucro é uma coisa que as pessoas não devem ficar tão… (pausa)

Então, lançamos muitos artistas, inclusive artistas que estavam fora do mundo da música, com a seguinte proposta: gente que a gente acredita. Nós mesmos fazemos a curadoria. A gente não abre uma curadoria para alguém enviar material pelo seguinte fato: eu não quero ser o cara que fala “não” pra alguém, falar “ah não, o seu trabalho aqui não se encaixa”. Essa não é a questão. Colocamos artistas que a gente possa ajudar no nosso catálogo. Por exemplo, eu já recebi ofertas de pessoas querendo trabalhar com a Dona Dete e eu falei: “Cara, você está num nível muito acima da Dona Dete, eu acho que você não percebeu isso, entendeu? Você não precisa da gente, talvez a gente é que precise de você ”.

Quando você fala de um nível muito acima, seria em qual sentido?
De carreira, de saber pra onde, com quem conversar, como organizar um show, organizar uma viagem. Tem muita coisa que a gente não sabe ainda. A gente lançou uma moça chamada Pauline, artista extraordinária de Indaiatuba, está preparando o disco. Ela tinha um trabalho muito bom, mas estava num caminho gigante de frustração porque ela não sabia como fazer o trabalho chegar nas pessoas, como lançar a música, como produzir. E eu cheguei como um amigo e falei: “Cara, eu posso te ajudar nisso”. Entendeu? Nós temos muitos amigos. Sempre tem alguém que mixa muito bem, que masteriza muito bem.

Se não for com a gente, por exemplo, tenho parceria com um cara chamado Victor que é um grande masterizador. Então a gente consegue mostrar para a pessoa que o trabalho dela está no nível que ela acha que não está. Tem muitas pessoas que estão com um trabalho em casa, engavetado: “Ah, tô esperando chegar no nível certo”. Às vezes já passou do nível que você procura. Mas você precisa de alguém que fale pra você: “Pô, isso é bom!” Nós somos essa pessoa, porque não puxamos saco.

Além do papel básico de gestão, logística, da parte técnica em geral, também tem esse papel de curadoria e orientação que também é importante. É isso?
Mas como eu te falei, estamos aprendendo. Até porque tem muita coisa que o mercado tem que uma gravadora pequena não tem acesso, não existe informação palpável para você. Hoje estamos aprendendo sobre sincronia, sobre como colocar a sua música na televisão, Netflix, esse tipo de coisa. E está sendo um trabalho bem árduo aprender sobre isso, porque a gente vive uma espécie de micro-monopólios. Por exemplo, estamos estudando editais, fazendo cursos sobre como arrecadar, fomentos etc. E disputar politicamente – claro que não sozinhos, junto com outras gravadoras, junto com outras pessoas. Porque a gente vive no Brasil um problema muito complicado… Putz, posso abordar isso?

A gente vive no Brasil um problema muito complicado de pequenas gravadoras de artistas grandes que recebem dinheiro por… (pausa) Assim, esse “recebem dinheiro” não é nada ilegal, tá? Não estou falando nada. Mas tem as gravadoras que recebem, por exemplo, projeção. Acho que dinheiro é a palavra errada. Recebem projeção de gravadoras grandes e internacionais. O problema disso é quando essa gravadora se coloca como pequena sendo que tem financiamento grande por trás. Porque a partir do momento que ela se coloca como pequena, ela vai tomar sem querer ou não, um espaço que é para uma gravadora independente. São espaços pequenos. Então, são casos de gravadoras que se alinham a projetos de esquerda, mas que tem pessoas atuando que estão mais ligadas a um projeto econômico neoliberal, sabe?

Thiago, você é uma pessoa preta e periférica que navega em uma cena onde a maioria das bandas e do público é branca e classe média. Você acha que a sua visão de mundo transparece no que você faz como músico?
Andar nesse meio, fazer música que atravessa essa galera… O que eu sinto falta é de pessoas parecidas comigo e que fazem isso também, não têm espaço e às vezes estão servindo drink pra essa galera, né? (pausa) Cara, a minha posição de mundo, minha visão de mundo, ela transparece com a minha dor. Porque até a questão do afeto pra gente, está em outras camadas. Não que seja uma questão mais doída, mas vamos dizer que a gente tem muito mais responsabilidade sobre ela. Para ser sincero com seus sentimentos. Por exemplo, uma vez eu mostrei uma música minha pra um tiozinho de 80 anos, porteiro. E aquilo tocou ele, sabe? Eu não digo nem com algum tipo de qualidade, e sim porque ele falou: “Pô, tem verdade nisso aí”. Não é uma verdade universal, é uma verdade particular. O amor, ele é político.

E a gente não precisa ser explicitamente político para ser político. Eu fiz a pergunta meio como provocação, porque às vezes a gente espera que uma pessoa preta nesse meio artístico tenha uma bandeira explícita, que você “se posicione”. Eu não estou dizendo que você não se posiciona (ao contrário). Mas o que eu sinto é que as pessoas esperam alguma coisa e esquecem que dá pra você ser preto e fazer coisas que fogem do estereótipo. Eu acho que a sua obra muitas vezes foge de estereótipos que a gente tem, de preconceitos que a gente tem, do que uma pessoa periférica pode ou não fazer.
Exato, e cho que a minha música às vezes não é tão respeitada porque a pessoa às vezes me vê, um homem negro, alto, forte, tem uma expectativa gigantesca que eu vou meter um Bad Brains, e chega lá vê uma pessoa falando de sentimento, de afeto. Sobre essa questão, tanto eu quanto você, Fabio, a gente é a forma material da revolução. A forma palpável. Tipo, a indignação. Só o fato de estar circulando pelo meio que a gente circula, a indignação tá junto com a gente. Não é porque a gente tem sorriso doce e fala calma que somos mansos, pelo contrário. Somos extremamente indignados. Mas a nossa indignação ocupa todas as camadas, e não só a parte que interessa a um grupo de pessoas.

 

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *