texto de introdução de Renan Guerra
faixa a faixa de Pablo Vermell
Ainda que “Futuro Presente” seja o disco de estreia do cantor e compositor santista Pablo Vermell, isso não significa o nascimento de um artista. Vermell tem uma carreira prolífica de 2020 a 2024, fase na qual lançou os EPs “Fugaz”, “Dissolver”, “Plural” e “Frenesi”, além de ter colaborado com Tiê, Adriano Cintra, YMA, Sofi Frozza e Clube Dezenove, e de ter regravado a faixa “Telegrama” para a coletânea “Futuro do Passado – as Canções de Lulu Santos” (2022). Foram anos de experimentações entre o pop, o lo-fi e o indie, uma jornada que conversa muito com o “Futuro Presente” do artista.
Pablo lançou seus primeiros singles solo ainda em tempos de pandemia, mas com o tempo foi encontrando seus caminhos sonoros e isso apenas solidificou uma maturidade que emerge em seu primeiro disco. “Futuro Presente” constrói diálogos entre os sons de diferentes eras: ecos de soft rock se encadeiam com os sons do britpop noventista, os sons do indie atual se mesclam aos beats sintéticos do pop dos anos 80, tanto que a lista de referências do artista mescla nomes bem distintos como Wings, Eagles, Clairo, Terno Rei e Roberto Carlos.
“O álbum fala dessa sensação de estar entre lembranças e expectativas, uma nostalgia do presente, onde o agora parece já ter passado, mas o futuro ainda não chegou. Essa dualidade – entre o que foi e o que será – é uma marca da nossa geração”, explica o artista. Essas questões propostas por ele se refletem em um disco que fala com sinceridade sobre muitos temas que afligem uma geração que já nasce com a cabeça na internet, com as músicas do mundo todo ao seu alcance ao mesmo tempo em que há uma exaustão de tanto consumo e conteúdo – a hiperconexão e os efeitos pós-pandêmicos, tudo junto agora.
A nostalgia mesclada a um desejo pelo novo é uma sensação que se escapa das letras e encontra a sonoridade de “Futuro Presente”, álbum produzido por Daniel Cataldi e que contou com a participação dos músicos Kazuaky Nakama na guitarra, Guilherme Pacito no baixo e Alexandre Fritzen nos teclados. Para desvendar os detalhes desse trabalho, Vermell escreveu um faixa a faixa exclusivo para o Scream & Yell falando sobre suas referências e criações, confira abaixo:
FUTURO PRESENTE
faixa a faixa por Pablo Vermell
Ouça o disco na integra abaixo
01) Na Espera – A primeira faixa é inspirada na Jovem Guarda. Ela surgiu depois que finalmente tirei a canção “Sentado à Beira do Caminho”, de Erasmo e Roberto Carlos. Adoro esse período da música brasileira, e o álbum de estreia do Fábio Jr., de 1976, é um dos meus discos de cabeceira. Tentei trazer um pouco do meu amor por isso nessa canção.
02) “Falar É Fácil Demais” – Foi escrita com Daniel [Cataldi] após o nosso primeiro show no Rio de Janeiro. Tínhamos alugado um violão Takamine para aquela noite e, chegando no apartamento onde íamos dormir, me vi inspirado pela sonoridade daquele instrumento. Ele tinha algo que ainda não encontrei em nenhum outro violão — algo que não sei descrever. A canção surgiu por acaso, enquanto eu tentava lembrar os acordes de “Resposta”, do Skank. Acabei encontrando uma sequência que me deixou obcecado. Gosto do fato de essa música emular meu amor pela sonoridade dos Acústicos MTV, especialmente o do Capital Inicial, que marcou minha infância. Eu tinha o DVD e colocava pra rodar todo dia no meu Playstation 2.
03) “Low Profile” – Essa nasceu da leitura de um artigo sobre como a Geração Z prefere ter perfis privados nas redes, mas, na prática, acaba se expondo muito mais do que imagina para pessoas que nem são tão próximas assim. Pensando nisso, escrevi essa música, que brinca com essa perspectiva e reafirma um sentimento que tenho enquanto artista e compositor: ninguém faz música (ou se empenha em algo especial) apenas para si. É mais fácil dizer que estamos felizes com as coisas como estão do que abrir esse sentimento para o mundo.
04) “Frio” – Foi composta num dia de inverno, durante a pandemia, quando tudo parecia meio cinza e vazio. A construção do arranjo se baseia em apenas dois acordes. Escrevi a letra descrevendo cenários e objetos que, de alguma forma, me traziam paz em meio àquele momento de incerteza, medo e autoconhecimento. Sinto que a pandemia moldou e mudou bastante a minha ótica sobre a vida.
05) “Miopia” – Ela é quase literal: tenho mais de sete graus de miopia, o que faz parte da minha vida mais do que eu gostaria. Vamos ser honestos: é um saco não enxergar sem óculos ou lentes de contato. Apesar disso, essa música não é só sobre isso, mas sobre os momentos em que escolhemos “tirar os óculos” para não enxergar a realidade — porque ela dói ou simplesmente não é o que gostaríamos que fosse. A letra entra nessa reflexão. É uma das minhas músicas preferidas também porque é a que mais tem distorção, embora de forma implícita. É o toque de shoegaze do álbum.
06) “Fran” – Também foi composta no Rio de Janeiro, depois dos shows, quando fiquei na cidade por alguns dias com minha esposa, Franciele. Foi a primeira vez que tiramos férias juntos, aproveitando as belezas do lugar e a companhia um do outro. A canção fala sobre encantamento, sobre amar de verdade cada detalhe de alguém — do olhar ao senso de humor e à forma como nos conectamos. Durante as gravações do álbum, nos casamos, então foi ainda mais especial incluir essa faixa no repertório.
07) “Adeus É Para os Fracos” – Nasceu da amizade que construí com Tristan e Belem, da banda Valiant Blues, de El Paso, Texas. Ele é guitarrista, ela é baixista e vocalista. Nos conectamos pelas redes sociais, e recentemente conheci o Tristan pessoalmente, quando ele veio assistir ao Lollapalooza Brasil. Quando eu e o produtor do álbum, Daniel Cataldi, estávamos escolhendo as faixas do disco, encontramos a demo dessa música e, na hora, sentimos que havia algo especial ali. Eu havia escrito a letra e esboçado a melodia em um momento de desolamento em São Paulo, sentindo a aflição de não poder sofrer ou lidar com o que me machucava — porque as contas não esperam. É o século XXI: ser adulto aos 20 e poucos anos é difícil. A partir desse esboço, Tristan e Belem desenvolveram o instrumental, e eu complementei com a ponte final, incluindo um verso que faz referência a Uncle Albert / Admiral Halsey, do Paul McCartney.
08) “Futuro Presente” – Surgiu quando o disco já estava quase pronto, mas ainda havia espaço para mais uma canção. Surgiu do desejo de compor uma faixa-título. Nela, reflito sobre como a vida é feita de ciclos e sobre como nós escolhemos com quem e de que forma queremos atravessá-los — e como podemos tornar cada momento especial. Ter o Lucas Gonçalves (Maglore) tocando violão foi simbólico, porque ele faz parte do início da minha trajetória solo. Quando decidi gravar Conciliar, meu primeiro single solo “de verdade”, o convidei para cantar comigo — e mesmo sem nenhum laço ou amigo em comum, ele topou. Acreditou em mim lá atrás. Futuro Presente é representativa pra mim em muitos níveis — tanto como composição quanto como faixa gravada. E ainda teve a participação da Corama, uma cantora amazonense cheia de energia e talento. Tê-la nesse projeto também é uma forma de olhar para o futuro e apoiar novos nomes da cena.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.