Entrevista: Em clima de celebração, a PELVs fala sobre a reedição luxuosa de “Península”

entrevista de Alexandre Lopes

Nos anos 1990, quando a produção independente brasileira se espalhava por fanzines, selos pequenos e fitas cassete, cantar em inglês ainda era regra entre muitas bandas que surgiam em diferentes cantos do país. A PELVs nasceu nesse contexto no Rio de Janeiro, logo após a dissolução da banda Verve, que contava com oito integrantes e músicas em português. Prezando por uma sonoridade marcada por guitarras altas, melodias melancólicas e referências claras ao rock alternativo de R.E.M., Dinosaur Jr., Pixies e Teenage Fanclub, a PELVs apareceu com o disco lo-fi “Peter Greenaway’s Surf” (1993), gravado no quarto do guitarrista e vocalista Gustavo Seabra.

Deste registro cru ao detalhismo de “Members to Sunna” (1997), a PELVs construiu um caminho que alcançou um ponto alto com o álbum “Península” – presente na lista de Melhores do Ano do Scream & Yell em 2001. Ali, as composições da banda ganharam uma identidade mais definida, em um disco que permanece como uma das obras de referência do indie brasileiro daquele período. Com ele, a banda conquistou espaços como o festival No Ar Coquetel Molotov em Pernambuco e São Paulo, tocando ao lado de Teenage Fanclub, Hell On Wheels, entre outros, além de abrir os shows solo de Yo La Tengo e Luna no Brasil.

Após o último trabalho de estúdio, “Anotherspot” (2006), e de dez anos sem subir aos palcos, a banda volta agora em 2025 em circunstâncias especiais: novamente abrindo um show do Teenage Fanclub e relançando em vinil o disco “Peninsula” em edição expandida. A atual formação reúne os membros fundadores Gustavo Seabra (voz e guitarra) e Rafael Genu (baixo) junto a Rodrigo Gordinho (guitarra), Ricardo Ribeiro (bateria), André Saddy (teclado), Clínio Carvalho (guitarra) e Daniel Develly (guitarra), com participação especial de Pedro Alcoforado no trompete, retomando um repertório que atravessa três décadas.

Mais do que um reencontro, esse retorno oferece a oportunidade de revisitar a trajetória de uma banda que, mesmo longe dos grandes holofotes do mainstream, deixou marcas profundas em quem acompanhou de perto a cena independente brasileira. E, ao que tudo indica, não se trata apenas de olhar para trás: Gustavo Seabra e seus companheiros já falam em material inédito no futuro. “Acho que posso prometer um pra ano que vem. Já temos muitas demos e algumas pré produções gravadas. Vou perturbar todo mundo!”, avisa o músico.

Na entrevista a seguir, Gustavo Seabra dá mais detalhes sobre essa volta, comenta o processo de relançamento de “Península” e reflete sobre o significado de voltar a tocar hoje, em outro tempo e em outras condições, mas com a mesma vontade de fazer música sincera. Leia a íntegra do papo abaixo.

Após uma década longe dos palcos, o que motivou essa reunião da banda agora? O convite para abrir o show do Teenage Fanclub foi o gatilho ou a ideia de voltar já vinha sendo conversada entre vocês?
Ambos. Ia falar por mim, mas parei e repensei. Tive muitos problemas pessoais desde 2015, a vida foi meio que atropelando tudo. Mas não acho que foi só turbulento pra mim. Cada um num estado, Genu em três países, todos com filhos pequenos… Uma fase que acredito ter ficado complicada pra todos nós, para uns mais que outros, mas acredito que todos nós estávamos com saudade de tocar. O show do Teenage Fanclub foi a oportunidade perfeita. Será, acima de tudo, uma grande celebração.

O reencontro acontece com um show simbólico: abertura para uma das bandas que influenciou a PELVs e várias outras do cenário indie brasileiro. Como vocês estão encarando esse momento, emocional e musicalmente?
Tocamos com eles no Recife em 2004, nos demos super bem, todos gentlemen, como não seriam??? É “quase” como tocar com o Second Come, ou o Stellar. Podemos ser os fãs e o artista na mesma noite. É perfeito!

Além da nova formação, o que a PELVs enxerga de diferente nesta nova oportunidade de dividir o palco com o Teenage Fanclub em 2025?
A formação é bem diferente. Na época não tínhamos André (teclados), Clínio (guitarra) e Develly (guitarra e violão). Logo depois a formação do “Anotherspot” começou a ser formada. Hoje temos um som mais encorpado, mais cuidado, 11 anos a mais, mais cabelos brancos, menos deslumbramentos e a mesma paixão, talvez até maior!

O relançamento de “Península” em vinil duplo marca os 25 anos do disco. Na visão de vocês, o que ele representa dentro da discografia e carreira da PELVs?
É o disco mais ouvido da banda, o mais pop, o mais redondo… um marco. Representa a reestruturação da banda após a saída do Dodô [ex-baterista]. “Challenging and exciting”. Só me traz lembranças boas em todos os sentidos, desde a pré produção, gravação, até os shows de divulgação.

A nova edição de “Península” traz mixagem renovada, faixas bônus e arte adaptada. Como foi revisitar esse material tanto tempo depois? O que vocês redescobriram nesse processo?
Esse disco foi gravado na primeira versão de Pro-Tools que tivemos no estúdio. Salvo todo em DVDs-R. A minha versão de Pro-Tools nem reconhecia mais as sessões. Tive que pedir pra instalar uma versão intermediária, pra poder abrir os arquivos e salvar em uma versão atual. Essa parte foi trabalhosa, mas o resto foi pura alegria. Lembrei de coisas, riffs, que acabaram se perdendo na mixagem, me emocionei em alguns momentos, feedbacks, tudo isso. Muito prazeroso ver esse processo todo se concretizando num produto tão bonito no final, com uma arte incrível, som melhor, etc.

O hiato coincidiu com um momento em que a cena alternativa brasileira também passou por várias transformações. Como vocês enxergam o papel da PELVs hoje, olhando para trás e para frente?
Vou ser sincero, nunca prestei muita atenção em “cena” musical. Nem sempre querem dizer muita coisa além de tendências estéticas. Realmente não sei se foram tantas transformações assim em 10 anos, pelo menos não positivas. Acho que o “papel” da PELVS ontem, hoje e sempre será de fazer música por prazer, tocar com os amigos, continuar fazendo discos enquanto for prazeroso, no nosso tempo e SEMPRE evoluindo. Por mais que se construa uma identidade, não dá pra sentar nela. Pushing the envelope all the time.

Vocês cantavam em inglês em um momento pouco favorável a isso no Brasil, mas ainda assim conseguiram reconhecimento e público fiel. Como veem essa escolha hoje?
Nunca me arrependi por um segundo. Essa sempre foi nossa realidade, o que gostávamos, e nunca vamos nos arrepender por termos escolhido a verdade. Pelo menos a nossa.

Vocês pretendem seguir com outros lançamentos, shows ou mesmo material inédito após esse reencontro, ou a ideia é manter esse show como algo pontual?
Discos novos, shows, tudo que conseguirmos! Se o próximo for daqui a 10 anos, que seja! Não vamos forçar nada, temos o nosso tempo. Mas, disco novo, acho que posso prometer um pra ano que vem. Já temos muitas demos e algumas pré produções gravadas. Vou perturbar todo mundo!!!

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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