entrevista de Bruno Lisboa
A gravadora independente californiana Ipecac Recordings nasceu da necessidade de dar vazão a projetos que não encontravam espaço no mercado musical tradicional — como o disco de estreia do Fantômas, supergrupo formado por Mike Patton (Faith no More), Buzz Osbourne (Melvins), Trevor Dunn e Dave Lombardo (ex-Slayer). Idealizada por Greg Werckman, ex-Alternative Tentacles (de Jello Biafra), e pelo próprio Patton, a Ipecac comemora 25 anos com um cardápio invejável de conquistas.
Com um catálogo que vai de metal experimental a trilhas sonoras cinematográficas, a Ipecac tornou-se um porto seguro para a criatividade sem amarras, abrigando artistas e projetos como Melvins, Tomahawk, Dälek, Peeping Tom, Isis, Zu, Alain Johanes, Dead Cross, Human Impact, The Jesus Lizard, Spotlights, The Bobby Lees e Mr. Bungle, entre tantos outros nomes que transitam por caminhos sonoros improváveis e ousados e compartilham o espírito de experimentação e autonomia que norteia o selo desde o primeiro dia.
Na entrevista a seguir, feita por e-mail, Greg Werckman repassa a história da gravadora Ipecac, a parceria criativa com Mike Patton (“Nada é lançado sem que ambos concordem”), os desafios do mercado digital (“Não competimos com ninguém. Seguimos o instinto”), os princípios que norteiam o que será lançado (“Sempre buscamos o único. Nada de repetir sucessos”), e ainda oferece conselhos para quem quer criar um selo: “Ajude a construir e fortalecer a cena”. Confira.

Quais foram as principais motivações por trás do lançamento da Ipecac Recordings em 1999?
Eu era empresário do Mike (Patton) e, em algum momento de 1997 ou 1998, ele voltou de uma turnê do Faith No More com alguns projetos que ele vinha trabalhando na estrada. Um deles virou o primeiro disco do Fantômas, e o outro foi o (“She”, álbum do) Maldoror, feito em colaboração com Merzbow (um projeto de ruído iniciado em 1979 pelo artista japonês Masami Akitchamada). Ele não sabia o que fazer com esses projetos. A Warner Bros, como era de se esperar, não quis saber deles depois de ouvir as demos. Então conversei com algumas gravadoras, mas nenhuma nos passou confiança sobre como lidariam com os lançamentos. Sugeri montarmos uma distribuição independente e vendermos nós mesmos. Eu já tinha experiência com a Alternative Tentacles e bons contatos com distribuidores honestos. A ideia inicial nem era criar uma gravadora, mas sim um canal para as criações do Mike. No meio disso tudo, nosso amigo King Buzzo, dos Melvins e também integrante do Fantômas, disse que a banda dele estava sem gravadora e topava participar do que quer que a gente criasse. Foi aí que percebemos que podia ser, de fato, um selo.
Que tipo de lacuna você e o Mike esperavam preencher na indústria musical?
Queríamos criar um ambiente completamente amigável ao artista. Que ele pudesse opinar em todas as etapas, se quisesse. Lucro dividido 50/50. A gente não possui os lançamentos, apenas os licencia. Um disco só por contrato, nada de amarras. Nada de estilo fixo. Não precisamos de cinco bandas que soem como o Melvins se já temos o Melvins. Não vendemos o selo como marca — trabalhamos PARA os artistas. Nunca nos sentimos parte real da ‘indústria’.

Com os anos, a Ipecac construiu uma reputação por abraçar música ousada e fora dos gêneros convencionais. Como você vê o legado da gravadora hoje?
Obrigado. Era exatamente o que esperávamos. Esperamos que o nosso legado seja o de tratar os artistas com justiça e honestidade. Nunca nos preocupamos com as paradas de sucesso. Nunca fomos “descolados”. O objetivo sempre foi ser únicos e parceiros dos artistas.
Nos primeiros anos da Ipecac, a indústria ainda era muito baseada em mídia física e marketing tradicional. Qual foi a maior mudança desde então?
Ainda vendemos muito vinil, e os CDs estão voltando. Mas com o digital, as vendas caíram. Sempre fomos econômicos, então isso ajudou. Se você quer adiantamento polpudo, orçamento gigante ou clipes caros, vá para outra gravadora. Com poucos custos, é possível lucrar com um disco que vende 2000 cópias. O faça-você-mesmo segue vivo, mas é mais difícil para bandas que não podem ou não querem colocar a mão na massa.
Como evoluiu a curadoria do catálogo da Ipecac? Existem princípios que se mantêm desde o início?
Sempre buscamos o único. Nada de repetir sucessos. Só trabalhamos com artistas com quem gostaríamos de jantar. Pessoas boas, expectativas realistas. Não somos uma fábrica de estrelas. Desde o primeiro dia é assim.
A Ipecac é conhecida pela diversidade sonora. O que faz um artista ou projeto “caber” no espírito do selo?
Nem tudo é música, mas sim, vamos atrás do que gostamos. Se outros gostarem, ótimo. Mas não é garantido. Acho que quase ninguém no mundo gosta de tudo que lançamos — e tudo bem.
Como é a dinâmica criativa entre você e Mike Patton nas decisões da gravadora?
Sou o lado dos negócios (com o Marc Shapiro), e o Mike é o criativo. Somos melhores amigos há muito tempo. Nada sai na Ipecac sem que os dois aprovem. Às vezes preciso lembrar ele que não dá pra lançar um disco por semana! Temos respeito mútuo e nunca pareceu um trabalho. Também sou seu empresário, o que ajuda na tomada de decisões.

Os projetos do Mike — Fantômas, Tomahawk, Peeping Tom, Mondo Cane — moldam a identidade da gravadora. Como você vê essa influência?
A Ipecac reflete como o Mike gostaria de ser tratado como artista. Ele vive da excitação de experimentar, trabalhar com gente diferente, fugir das expectativas. Ele diz que seria mais difícil estar preso a um único som. A gravadora é um reflexo dessa diversidade. E temos a sorte de ter um público disposto a embarcar nessa jornada.
Quais os maiores desafios de manter um selo independente na era do streaming?
O começo da pandemia foi difícil, sem turnês. Mas nos adaptamos. O início da era digital, quando as pessoas começaram a se acostumar a pegar música de graça, foi um choque. Lars, do Metallica, foi criticado, mas ele estava certo: músicos devem ser pagos. É difícil para bandas que não fazem shows. Há muita música por aí — chamar atenção ficou mais complicado.
E o que há de mais recompensador nesse trabalho?
É incrível quando alguém agradece por ter descoberto um artista através de nós. Amo os artistas e pessoas com quem trabalho. Ver uma das nossas bandas passando pela cidade ou sendo reconhecida é ótimo. Meu prêmio é olhar para nossa discografia. Recentemente, trabalhar com o Mr. Bungle e o Jesus Lizard foi uma honra.

Em um mundo de algoritmos, como manter a independência artística?
Simples: cabeça baixa. Ignorar as tendências e fazer o nosso. Não competimos com ninguém. Seguimos o instinto. O sucesso ou fracasso comercial nunca dita nossas decisões.
Há lançamentos que você considera subestimados?
Haha! Todos eles. Mas certamente alguns foram menos notados do que mereciam. Spotlights, Goon Moon, The Bobby Lees, Asso Stefana, Jean Claude Vannier… a lista vai longe.
Como você enxerga o futuro da Ipecac? Há algo novo vindo por aí?
Mais do mesmo, honestamente. Nem acredito que já se passaram 25 anos. Tem umas coisas muito empolgantes a caminho — mas não posso falar. Posso dizer que o Mike vem aí com projetos muito legais. Mais Melvins, mais Mclusky…
Por fim, que conselho daria para quem quer fundar um selo independente com a mesma mentalidade DIY da Ipecac?
Uau. Pergunta difícil, mas frequente. A resposta rápida: não faça isso. Se você quer ficar rico ou famoso, ou viver disso, nem comece. Dei muita sorte. Não é todo dia que se começa uma gravadora com o Mike Patton e os Melvins. Mas, se você tem um emprego “de verdade” e ama música, e conhece artistas locais talentosos e pé no chão, ajude a construir e fortalecer a cena. Todo lugar tem músicos criativos que merecem ser ouvidos. Crie uma cena, cultive uma comunidade artística. Tudo começa no local.
– Bruno Lisboa escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br.