Entrevista: Pedro T.O.S. Ribeiro e Chao Gizan falam sobre a HQ baiana “Oxóssi”, com herói que ganha a força dos orixás

entrevista de João Paulo Barreto

Jovem é baleado à queima roupa, fica à beira da morte e, após um encontro místico no além vida, recebe a dádiva de voltar ao mundo dos encarnados. Nessa segunda chance, porém, retorna para a nossa dimensão com super poderes e uma missão de vingança contra aquele que tentou ceifar sua existência e todos de seu entorno maligno.

A sinopse acima poderia muito bem resumir a origem de algum super-herói usando armadura ou colant e ostentando um emblema no peito. No entanto, no caso dessa descrição apresentada acima, é necessário frisar alguns detalhes diferenciais dos mais belos e adequados a uma premissa dos gibis heroicos: os poderes de nosso vingador é oriundo dos orixás; a cidade que ele defende em sua saga por vingança e justiça é Salvador e seu nome é Oxóssi.

Gostou? Então, prepare-se: após cativar leitores nas duas primeiras partes, “Oxóssi”, quadrinho baiano com texto de Pedro T. O. S. Ribeiro e arte de Chao Gizan, chega ao seu terceiro número trazendo a continuação da saga do jovem William, que voltou dos mortos com a ajuda dos orixás e adotou o nome e o poder do caçador Oxóssi, que, na religião de matriz africana, tem no arco e flecha sua principal ferramenta de defesa e caça, sendo, também, o senhor das florestas e responsável pelo sustento e fartura do seu povo.

Tendo a capital baiana como cenário e suas comunidades e bairros populares como pano de fundo para o desenvolvimento de sua trama, “Oxóssi” traz a cidade como palco para lutas com suas esquinas e ruelas como a atmosfera ideal para a frenética caça que seu protagonista instiga contra seu algoz.

Neste papo com o Scream & Yell, Pedro e Chao aprofundam o processo de construção da saga do vingador Oxóssi. Confira!

Pedro, na descrição de sua minibio, você fala sobre “Se desafiar para produzir um quadrinho dentro do seu imaginário, refletindo o mundo a sua volta”. Poderia falar um pouco acerca desse processo criativo trazer para um ambiente urbano, que é familiar aos leitores baianos e brasileiros, uma história de super-herói baseada na justiça social? Da mesma forma, Gizan, como foi manter esse desafio de trazer uma Salvador distante do cartão postal e manter essa identidade nas páginas de “Oxóssi”?
Pedro T.O.S. Ribeiro: Salvador é o próprio personagem. Nossa terra respira, sente e influência cada um que passa a conhecê-la. A meu ver, escrever sobre Salvador não é um desafio. O desafio está nas pessoas verem a “minha Salvador” nessas páginas, verem algo ao mesmo tempo tão meu e tão cosmopolita quanto essa cidade. Fazer um herói nela é uma busca sincera em olhar soluções para a nossa cidade, caso nós tivéssemos os princípios de um herói, já que os problemas são reais. O fantástico está nas soluções.

Chao Gizan: O quadrinho é um desafio por si só, ficando ainda mais desafiador quando se decide retratar a cidade de Salvador fora das perspectivas dos pontos turísticos, uma vez que toda a trama se passa na periferia. A representação do cenário é fiel ao real, respeitando os locais de referência, sem cair na asneira de estereotipar e diminuir a região como fazem os que não a conhecem. As principais referências são imagens de internet e registros pessoais, sempre se atentando aos melhores ângulos onde a cena pode se encaixar.

Como se deu o diálogo entre vocês? Como se deram as decisões na transposição do texto para as imagens traçadas por Gizan?
Pedro T.O.S. Ribeiro: Conheci Chao através de amigos em comum, e logo no primeiro trabalho (um conto sobre esse mesmo herói no período colonial) encontramos uma sintonia entre descrição e visualização gráfica. A partir daí, Chao se tornou importantíssimo na produção dos personagens, cenários, etc. Diferente de mim, que sou agnóstico, Chao tem uma aproximação muito maior com as religiões de matrizes africanas, ele (além dos leitores sensíveis) é fundamental para uma produção respeitosa e ainda assim fiel à minha proposta de imaginário.

Chao Gizan: A ideia para o quadrinho Oxóssi surgiu após uma ilustração feita para o conto “Oxóssi”, escrito pelo próprio Pedro, que está presente no livro “Heróis Tupiniquins”, uma antologia de contos de super-heróis brasileiros. Sobre a transformação do texto em desenho, o diálogo se dá após os esboços feitos a partir do descrito no roteiro. Os esboços são apresentados, discutidos, reformulados, se houver necessidade, para então a arte-final, quando novamente ocorre apresentação, discussão e reformulação necessária. Cada página concluída é uma alegria.

No seu traço, Gizan, é perceptível a busca de uma tradução enérgica em imagens que fazem valer os aspectos urbanos como um condutor imagético da história, como quando, por exemplo, vemos um ângulo plongée com os telhados do bairro por onde William/Oxóssi passa, ou quando ele observa o bairro de cima de um prédio e vemos toda a região com outras torres no horizonte. Como foi esse diálogo com Pedro visando essa adaptação de Salvador para o quadrinho?
Chao Gizan: O cenário deve servir, também, como personagem. Fico feliz com a percepção citada. As paredes de Salvador, seus muros, telhados e postes falam, sejam pela sua própria estrutura quanto pelos cartazes colados, pixações e grafites. No quadrinho, esses elementos dão muitas pistas. E, como já foi citado antes, a história se passa na periferia e a representação precisa ser fiel. Os ângulos comentados são descritos no roteiro, assim como a disposição nos quadros. A página da cena do telhado, naquela disposição dos quadros, é uma regra da estética da nona arte. Uma grande maioria dos quadrinhos tem uma página como aquela. A cena de William/Oxóssi em primeiro plano com as torres no horizonte toma uma página inteira e retrata uma visão muito comum para quem mora na região e alcança um ponto mais alto. Devo repetir que é uma alegria quando se conclui.

Pedro T.O.S. Ribeiro: Antes do início do quadrinho, eu e Chao nos reunimos num “brainstorm” para discutir a abordagem do cenário e enquanto andávamos por aqui e ali e fotografávamos e discutíamos pensando nesse cenário. A partir daí, ficou fácil descrever e escrever o visual pautando em paralelo com referências clássicas dos quadrinhos.

Capas das edições 1 e 2 de “Oxóssi”

Ao colocar a religiosidade de matriz africana como um dos temas do quadrinho, é louvável como seu texto encontra um equilíbrio entre a aventura escapista da leitura das histórias de super-heróis e um tom mais sério dentro de uma abordagem voltada aos aspectos religiosos. Na escrita, como você lidou com essa proposta mantendo o tom de respeito por esses pilares, mas, também, tendo que criar uma narrativa de entretenimento?
Pedro T.O.S. Ribeiro: Para responder essa pergunta, eu preciso voltar ao passado, quando era guia turístico. Na época, eu precisava falar sobre os orixás e de religiões afro-brasileiras para pessoas de diferentes estados e países. Pessoas de diferentes culturas. Era um momento que eu precisava ser respeitoso e didático para furar uma série de preconceitos. Dito isso, me aproveitando do contato íntimo que tenho com os quadrinhos, me senti confortável em abordar o assunto. Para mim, o desafio está em como contar a história.

Chao Gizan: Em relação à arte, quando se fala em respeito, as páginas mais representativas são as que retratam as entidades no Orum. Ainda que vestidos como são vistos nos xirês, isso pelos olhos de William, os Orixás não têm seus rostos revelados, são translúcidos, nem passam a sensação de serem palpáveis, uma vez que são energia.

Do mesmo modo, seu texto em “Oxóssi” também traz uma contundente reflexão acerca de intolerância religiosa e influência política em locais onde a população possui baixa renda. Como se deu esse desenvolvimento temático da história?
Pedro T.O.S. Ribeiro: Quadrinho não é apenas uma mídia infantil. Em países como França e Itália, por exemplo, os quadrinhos são lidos mais por adultos que por crianças. Seguindo essa vertente que também se encontra nos quadrinhos nacionais (como podemos ver em Laerte ou mesmo em Ziraldo), podemos ver temas sérios para discutir violência, preconceito e política em suas páginas. “Oxóssi” utiliza de alegorias, às vezes beirando ao pornográfico (no sentido de estar à mostra) para falar de uma realidade contundente, e, ainda assim, verossimilhante. É um quadrinho que não tem o objetivo de catequizar ninguém, apenas o de servir de laboratório de como seria um herói em meio a um mundo real sem cair na mesmice da narrativa de que o poder corrompe, as vezes só precisamos olhar a nossa volta pra saber o que está errado.

Ainda em relação ao aspecto religioso, os orixás surgem em determinado momento e a presença majestosa causa impacto. Como foi discutida a opção de trazê-los naquele estilo, com o fundo em um breu os mesmos em aspectos estelares?
Pedro T.O.S. Ribeiro: Desde o “brainstorm” com Chao, entendíamos que o visual dos orixás precisava ser imponente, e como já havíamos escolhido a produção em preto e branco, não teríamos o artifício das cores para ornamentar essas páginas. Foi minha escolha de roteiro colocar essas páginas em preto com traços brancos. Queria que, de alguma forma, as estampas dos tecidos africanos aparecessem na imagem para remeter à ancestralidade. No entanto, essa escolha traz muitos tabus das religiões afro-brasileiras. O próprio Chao tinha alguns receios sobre elas, mas eu fui irredutível. Chao transcendeu essas ideias e, com as constelações, tornou uma escolha de subversão em arte.

Chao Gizan: A representação do Orum foi um assunto bem discutido. Foi a melhor e a mais acertada decisão conceber daquela forma. Não havia cenário melhor em trazer a grandeza e majestade dos Orixás que não um que fizesse referência ao cósmico. É misterioso, belo e eterno, onde o ser humano sempre se sentiu pequeno, e realmente é reverente e cauteloso. A translucidez e a ocultação facial, mesmo com olhos e boca representados, além de sinal de respeito, reforçam a questão de serem majestosos.

Após o fenômeno cinematográfico “Pantera Negra”, que utilizou de forma perfeita essa abordagem com temas de ancestralidade e religiosidade de matriz africana em uma história de super-heróis, e também “Contos dos Orixás”, de Hugo Canuto, que também se fez valer de liberdade narrativa semelhante, queria perguntar a vocês sobre suas influências na criação da história de “Oxóssi”.
Pedro T.O.S. Ribeiro: Poderia dizer que minhas fontes vieram de artistas específicos da Marvel e da DC, pois minha adolescência sempre foi permeada com a presença deles. Assim como poderia dizer que vieram das ruas pelas quais passei, pelos acarajés que comi nas praças ou carurus das festas de Cosme e Damião que fui durante os anos. Mas acredito de coração que seja uma mistura disso. Ao mesmo tempo que eu olhava adolescentes negros e ninjas nos bairros americanos Kevin Eastman e Peter Laird (N.E. Criadores das “Tartarugas Ninja”), eu também lia de um herói na África que vencia o tempo de Lee Falk (N.E. Criador do personagem “Fantasma”), como posso trazer as influências de Jorge Amado, que transformava o cotidiano em poesia, ou mesmo do (sociólogo) Reginaldo Prandi, que traz o conhecimento falado em páginas cheias de ancestralidade. Quando soube de Canuto, do qual sou um grande fã, já tinha escrito o roteiro, e fiquei aliviado em ver que, apesar de falarmos sobre o mesmo tema, enquanto ele mostra o passado com um belo traço afrofuturista, tento dar um olhar ao hoje de forma mais direta.

Chao Gizan: Salvador também respira Candomblé. Todos temos um familiar ou uma amizade no Axé. Não pertenço a uma Casa, apesar de ter certas intimidades e experiência e certo conhecimento. Esse conjunto facilita a arte, a discussão e a apresentação.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.|

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