texto de Renan Guerra
A vida de pessoas trans e travestis é marcada tanto por violências, perseguições e apagamentos quanto por histórias de apoio mútuo e construção de comunidades em meio ao horror. Dentro de tantas narrativas complexas, quando voltamos para a São Paulo dos anos 1980 somos transportados para um cenário brutal: além de todas as violências “usuais”, as travestis eram perseguidas de forma sistêmica pela polícia, em função da Operação Tarântula, que institucionalizou o assassinato e o desaparecimento de pessoas trans em uma ação que visava “limpar” as ruas – sobre esse tópico, vale ver o essencial documentário “Temporada de Caça” (1988), de Rita Moreira. Simultaneamente, a pandemia de AIDS devastava a comunidade, sendo que corpos vulneráveis ao vírus eram vistos praticamente como descartáveis pelos órgãos de saúde. Criar meios de proteção era uma necessidade urgente!
Caetana, travesti nascida em Pernambuco e radicada em São Paulo, assumia nas noites a persona de Brenda Lee – tal qual a cantora norte-americana – tornando-se uma figura fundamental do bairro paulistano do Bixiga. Foi por lá que ela comprou sua casa e criou um espaço de acolhimento para pessoas trans. A partir de 1984, ela acolheu o primeiro paciente da pandemia de HIV/AIDS. Em meio a desinformação, em um tempo em que as próprias famílias renegavam os pacientes, a casa de Brenda Lee se transformou em um local central no acolhimento de pessoas após o diagnóstico positivo do HIV.
Em 1988 se instituiu a “Casa de Apoio Brenda Lee”, também conhecida como “Palácio das Princesas”, espaço fundamental para assistência médica e social para pessoas trans, travestis e homossexuais vivendo com HIV/AIDS. Essa história de dor, mas também de extrema resiliência, é contada nos palcos no musical “Brenda Lee e o Palácio das Princesas”, com direção geral de Zé Henrique de Paula, dramaturgia e letras de Fernanda Maia e com músicas e direção musical assinadas por Rafa Miranda – integrantes do Núcleo Experimental, o mesmo coletivo que assina o excelente musical “Codinome Daniel”, sobre o sociólogo, guerrilheiro e ativista gay Herbert Daniel.

Tendo Verónica Valenttino como a protagonista Brenda Lee, a peça ainda conta em seu elenco atual com Olivia Lopes, Tyller Antunes, Andrea Rosa Sá, Elix, Leona Jhovs e Fabio Redkowicz. Por seu trabalho, Verónica Valenttino se transformou na primeira atriz trans a ser premiada no Prêmio Shell de Teatro, uma honraria mais do que merecida, uma vez que a atriz é o coração do espetáculo e consegue dar vida a Brenda Lee com uma humanidade, complexidade e dignidade únicas. Verónica também ganhou em 2022 um prêmio Bibi Ferreira de revelação em musicais, mesmo ano em que a montagem foi premiada com o APCA de melhor espetáculo teatral; isso além de uma gama de outros prêmios que apenas reforçam as qualidades de todos os envolvidos nesse projeto.
Um dos destaques centrais do espetáculo é a forma certeira escolhida para apresentar Brenda e todas as princesas de seu palácio, pois muitas vezes as histórias de pessoas trans são contadas apenas por um viés de violência e sofrimento, mas “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” desbrava outros caminhos. A violência existe, pois ela é real e palpável, mas também existe o brilho, a alegria, o humor, a irmandade. Dessa forma, o musical se aproxima de outras narrativas que estão construindo um novo imaginário memorial travesti: o realismo fantástico de Camila Sosa Villada em “As Malditas” (anteriormente também publicado por aqui como “O Parque das Irmãs Magníficas”); as lembranças das “Divinas Divas” (2016) de Leandra Leal; ou as resistentes personagens que habitam a “Vila Mathusa”, de zênite astra.

Essa possibilidade de criar novos imaginários travestis nasce tanto da presença de atrizes trans no palco quanto da criação de personagens complexos, com nuances, que mostram a diversidade de existências, sonhos e desejos de cada uma dessas mulheres. As canções compostas por Rafa Miranda, com letra de Fernanda Maia, celebram as qualidades únicas de cada atriz e, por consequência, de cada personagem, criando momentos solos potentes e emocionantes. Do mesmo modo, os números musicais coletivos reforçam a irmandade dessas personagens em um universo narrativo tão cheio de aspereza e violência que as cerca. Além das canções, os brilhos, os paetês e o imaginário de glamour que o espetáculo evoca ajudam a construir esse universo que habitava os sonhos e desejos das travestis brasileiras dos anos 80 – os sonhos europeus, as divas clássicas, as boates, a rua e seu trottoir. “Brenda Lee e o Palácio de Princesas” nos leva para um universo quase onírico, em que a realidade se impõe, mas que ainda assim as potências travestis teimam em existir e resistir em sua força coletiva.
Lançado como musical digital ainda em meio a pandemia de 2021, o espetáculo se transformou em um amplo sucesso nos palcos paulistanos – do Teatro do Núcleo Experimental ao CCSP – e em diferentes cidades pelas quais passou nos últimos anos. Agora “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” retorna para uma temporada no palco do Teatro Vivo, e essa é mais uma oportunidade de revisitar a nossa história e celebrar as trans-ancestralidades – como se refere Verónica Valenttino. E, além disso, é uma oportunidade emocionante de descobrir novos talentos e de se apaixonar por atrizes que estão construindo as novas possibilidades e narrativas dos palcos brasileiros. Não perca!
“Brenda Lee e o Palácio das Princesas”: de 5/8 a 1/10 no Teatro Vivo, sempre às terças e quartas, às 20h. Ingressos.
O texto completo de “Brenda Lee e o Palácio das Princesas” foi lançado em livro pela Editora Ercolano (saiba mais)

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.