entrevista de Alexandre Lopes
Três décadas depois de sua primeira edição, realizada em maio de 1995 na Praça Universitária, o Goiânia Noise Festival segue como um dos eventos mais importantes da música independente brasileira. De lá pra cá, o festival passou por lugares como cinema pornô, pubs, DCEs, clubes, até se firmar no Centro Cultural Martim Cererê, que já recebeu doze edições e também será palco da festa em 2025.
Entre 4 e 7 de setembro, o Noise comemora seus 30 anos com quatro noites, 42 shows distribuídos em dois palcos e uma programação que pretende equilibrar tradição e novidade. O line-up reúne nomes de peso como Ratos de Porão, Black Pantera, Garotos Podres, Rogério Skylab, Mateus Fazeno Rock, Jovens Ateus, Black Drawing Chalks, Violins e Layse e os Sinceros, entre outros. “A gente procura ser mais amplo, ter a característica de ser uma vitrine do que tem de mais legal no cenário e trazer isso pros palcos, misturar tudo”, diz Léo Bigode, um dos fundadores e organizadores do evento. “Acho que a grande preocupação nossa é sempre não se tornar velho. A gente faz um esforço muito grande de estar de olho nas coisas novas, de ver o que está acontecendo. Daí por isso tem um frescor de não estar preso no passado ou só na história desses 30 anos” , reforça o também produtor Leonardo Razuk.
Mas o festival não fica apenas nos shows: o já tradicional projeto Estúdio Noise abre espaço para gravações ao vivo de 12 bandas selecionadas previamente, registrando uma faixa cada para um álbum digital que será lançado pela Monstro Discos. Há ainda o Noise na Escola, com oficinas e palestras gratuitas sobre produção musical e gestão cultural entre 1 e 4 de setembro, nos institutos Gustav Ritter e Basileu França. Além disso, uma exposição de fotos, cartazes e artes de todas as edições do festival será exibida de 21 de agosto a 15 de setembro na Vila Cultural Cora Coralina.
Mais do que um festival, o Noise se consolidou como agente transformador da cultura goiana. “É difícil falar disso sem parecer pretensioso, mas a história está aí. O Noise ajudou a movimentar e conectar diferentes áreas da cultura independente em Goiânia”, reflete Razuk. A existência do Noise tem a ver com várias coisas da cultura e subculturas daqui. Design gráfico, fotografia, marketing para cultura independente, moda, gestão de projetos, literatura independente, tudo isso. Estúdios, equipamentos, produtores… Não existia nada disso neste nosso universo antes de 1995. Existia música independente, existiam estúdios, mas era outro foco. Para este tipo de som mais alternativo, não existia”, aponta Bigode.
Se no início em 1995 o público esperava apenas guitarras e distorções, hoje a plateia chega com ouvidos mais abertos. “Quando as bandas vem tocar aqui, elas percebem que tem um público do festival, não necessariamente por causa do headliner. É um pessoal que vai para ver e descobrir coisa nova e vivenciar o que está acontecendo”, diz Razuk. “Também tem gente que reclama porque não é mais tão ‘rock roqueiragem’ como antes, mas pra gente é tudo rock. A Layse por exemplo é rock, com influências da música paraense, toca bateria do jeito dela, mas é rock, tem uma atitude no som dela e é foda”, afirma Razuk. Bigode complementa: “Hoje em dia o público ouve de tudo. Não tem mais aquele apego ao que era antes. E essa geração está mais consciente musicalmente e no discurso também. Isso se reflete na música e no jeito de produzir.”
Outro aspecto democrático do Goiânia Noise é a acessibilidade dos valores dos ingressos (cada vez mais exorbitantes em grandes festivais): a entrada é gratuita na abertura (4/9) e no encerramento (7/9), mediante retirada antecipada, enquanto os dias 5 e 6 contam com ingressos pagos (R$ 100 a inteira, R$ 50 a meia ou meia solidária com doação de 1kg de alimento).
Em uma conversa extensa com o Scream & Yell, Razuk e Bigode revisitam os principais momentos da trajetória do Goiânia Noise, lembram histórias de bastidores, refletem sobre as mudanças no público e nas bandas e contam o que esperar dessa edição histórica. Confira o papo na íntegra abaixo.

O festival completa 30 anos em 2025. O que vocês sentem ao olhar para essa trajetória? Quais foram os momentos mais marcantes?
Leonardo Razuk: Só pra contextualizar: eu entrei na Monstro em 2001, então a primeira edição do Noise que eu participei como sócio e produtor foi a sétima. O Léo Bigode e o Márcio Jr. [vocalista do Mechanics] criaram o Noise lá atrás e fizeram o Noise até 2000. Em 2001 estabelecemos uma sociedade comigo e o Fabrício Nobre. Mas depois de um tempo, o Márcio e o Fabrício saíram e eu continuei com o Léo. Quando entrei já tinha uma história, mas esse meu primeiro como sócio também foi o primeiro lá no Martim Cererê, que teve esse formato de dois palcos e os shows se intercalavam (nota do editor: o Centro Cultural Martim Cererê é um complexo cultural criado em antigos reservatórios de água da Empresa de Saneamento do Estado de Goiás. Dois antigos reservatórios, um ao lado do outro, foram transformados em teatros, e intercalam os shows do Goiânia Noise). As edições anteriores foram feitas em lugares meio improvisados, teve até uma que rolou em um cinema pornô. A quinta foi num pub. Eram coisas pequenas. Nesta sétima edição que começamos com essa ideia de fazer algo maior. É lógico que nós tínhamos sonhos e esperanças, mas nunca imaginamos que tomaria uma proporção dessas. Momentos marcantes tem vários, como shows que a gente nunca imaginou que ia conseguir trazer. De 2006 a 2010, foram edições bem grandes e trouxemos nomes como Sepultura [2007 e depois em 2016], Los Hermanos [2002 e 2006], Pato Fu [2007 e 2017], Cordel do Fogo Encantado [2007]. Eram bandas que estavam no auge e o festival teve condições de abrigar na programação. Entre shows gringos que foram muito marcantes, teve o Mummies [2010], o Exploited [2013] e o Helmet [2008]. Tudo isso faz parte da história.
Léo Bigode: É emocionante, a gente se sente honrado de ter feito isso. Nossa geração não tinha aprendido a fazer a parte técnica de nada ou de mercado, a gente era totalmente autodidata e foi fazendo do nosso jeito. Acho que o Noise ainda é um dos poucos festivais que consegue manter esse conceito. Mesmo no meio independente, muitos festivais abriram muitas concessões por causa do que estava rolando no mercado naquele determinado momento. E a gente pode se orgulhar de não ter aberto tantas concessões assim, podemos nos orgulhar das bandas que tocaram lá no começo dividir o mesmo palco que o Sepultura, porque a gente não faz distinção entre as atrações. Mas sobre momentos marcantes… Ah, se fizer uma linha do tempo, todas as edições tem alguma coisa assim. Até a primeira edição, que choveu, teve briga de torcida e a gente saiu quebrado sem dinheiro, foi legal, porque foi uma sementinha plantada. Mesmo quando o evento acabava e a gente podia falar “caraca, nunca mais”, daí no outro dia já pensava na próxima edição (risos). E na história do festival isso aconteceu pelo menos umas vinte vezes (risos). São coisas que definem muito e marcam a essência do Noise.
Leonardo Razuk: Nessa exposição sobre o festival a gente está revendo muita foto. Então tem momentos assim que a gente lembra das bandas e dos shows e traz umas lembranças muito divertidas, é muito prazeroso ver a história que se criou. E como o Léo falou, até mesmo quando deu errado, a gente tira algo que mexeu com a gente. No Instagram do Noise está rolando uma campanha que a gente fez que chama “Todo Mundo Tem Uma História no Noise”. Então em um festival com 30 anos, tem muita história de quem frequentou o festival no início e dos filhos dessas pessoas. São outras gerações. A gente tem estimulado as pessoas a mandar suas histórias. E isso dá uma força e motivação pra gente seguir. Não dá pra parar. Tem história de gente que conheceu a esposa no festival, gente que não conhecia a cidade e mudou pra Goiânia depois dele. Isso é impagável.
Quais mudanças vocês percebem no público e nas bandas ao longo dessas três décadas?
Leonardo Razuk: O público mudou bastante, por conta da forma de consumir música também. Mas quando as bandas vem tocar aqui, elas percebem que tem um público do festival, não necessariamente por causa do headliner. É um pessoal que vai para ver e descobrir coisa nova e vivenciar o que está acontecendo. Tem gente que vem pela música independente em geral, que não se prende a um gênero. Também tem gente que reclama porque não é mais tão “rock roqueiragem” como antes, mas pra gente é tudo rock. A Layse por exemplo é rock, com influências da música paraense, toca bateria do jeito dela, mas é rock, tem uma atitude no som dela e é foda. As bandas também mudaram, no próprio modo de como gerir a carreira. As bandas tem maior consciência de que precisam estar mais à frente de sua produção, dos processos, de participar e de correr atrás. Antes era mais difícil gravar, divulgar. Hoje todo mundo consegue lançar um som, tem acesso a estúdio caseiro, rede social. Isso democratizou, mas também aumentou a competição.
Léo Bigode: O modo de consumir música mudou e o perfil de quem consome música mudou também, em comparação a 30 anos atrás. Hoje em dia o público ouve de tudo. Essa coisa de timeline, de excesso de informação, fez com que os jovens consumissem um volume de coisas muito grande. Não tem mais aquele apego ao que era antes. O próprio Mateus Fazeno Rock é um exemplo disso. Ele é um cara absurdamente talentoso e com sua própria linguagem. Não é aquela coisa careta de é só indie, é só rock, é só banda de metal. Isso não vai mais ser uma coisa importante. E mesmo que não exista mais apego a isso, essa geração está mais consciente musicalmente e no discurso também. Pessoal está mais inteligente e isso se reflete na música e no jeito de produzir.

Como foi montar a curadoria dessa edição especial? O que vocês priorizaram?
Léo Bigode: A curadoria todo ano é um ato de filtrar as coisas. É muita gente. A gente também recebe uma pressão muito grande da cena local. Por conta da Monstro Discos, muita gente deve achar que só porque faz parte do cast do selo vai tocar no festival, mas não é bem assim. Acaba gerando muito melindre e tal, mas tem que saber fazer esse trabalho de separar as coisas e administrar isso. A gente procura ser mais amplo, ter a característica de ser uma vitrine do que tem de mais legal no cenário e trazer isso pros palcos, misturar tudo.
Leonardo Razuk: Acho que a grande preocupação nossa é sempre não se tornar velho. Apesar da gente colocar o Ratos de Porão e o Garotos Podres que são bandas que a gente realmente gosta e que tem uma carreira e entrega ótima nos shows, a gente faz um esforço muito grande de estar de olho nas coisas novas, de ver o que está acontecendo, de ampliar e sair desse rock de 30 anos atrás e abrir para outras vertentes. Daí por isso tem um frescor e de não estar preso no passado ou só na história desses 30 anos. Claro que tem as coisas que nos acompanham e fazem parte da essência do que é o Noise, mas ele não está preso nesse passado. Ele está sempre tentando se modernizar, se atualizar. É equilibrar memória e novidade.
Vocês sempre fizeram questão de abrir espaço para a cena local. Qual é o peso disso para o festival e para a cidade?
Léo Bigode: Aho que tanto a Monstro Discos quanto o Noise transformaram a cena da cidade. Aconteceu uma coisa legal que é assim: a gente não inventou nada, mas quando o Noise surge ali em 95, deu uma interferência absurda na cidade. Teve a importância da MTV nisso também, além de outros festivais em outras cidades complementando essa influência, mas isso tudo foi enriquecedor no sentido de mudar o panorama das coisas. Goiânia tem 90 anos e o Noise tem um terço dessa idade. A minha geração e do Razuk é a primeira tipicamente nascida em Goiânia. Então é uma cidade muito nova, a gente sente como se tivesse saído quebrando tudo para formar as coisas do nosso jeito. Isso aqui era uma terra só de música sertaneja em pleno anos 90, pensa nisso. Então a gente tinha uma interferência da mídia completamente contrária ao que a gente fazia. Daí com um festival de música alternativa, de barulheira, isso foi absolutamente fundamental para que acontecesse essa cena. Teve Black Drawing Chalks, e hoje temos o Boogarins como expoente, e isso tudo não veio do nada, tudo isso aconteceu do que a gente vem construindo.
Leonardo Razuk: O Márcio Jr. tem banda até hoje, o Mechanics está na ativa. O Leo teve outras bandas. Então sempre tinha essa preocupação de tentar mostrar pro resto do país o que estava sendo feito aqui em Goiânia, ou de criar algum tipo de ligação ou intercâmbio de bandas. Então a gente sempre valorizou mesmo as bandas locais. E não sei se foi uma coisa intuitiva ou acidental, mas quando a gente viu, todos os dias tem bandas de Goiânia fechando o festival. E essas bandas tem nome e condições de fazer isso em qualquer festival no Brasil inteiro, pela história delas. Tipo o Carne Doce, o Violins, o Black Drawing Chalks, o Hellbenders. No começo, eram bandas tentando mostrar alguma coisa do seu trabalho, mas as gerações foram passando e elas mostraram que realmente tem condições de serem headliners. E acho que é muito forte o que aconteceu em Goiânia por causa do Noise. O Abril Pro Rock lançou um monte de banda de vários lugares do Brasil. E a gente tem esse orgulho de ter essa marca, de ter lançado ou projetado artistas pro resto do país.

Qual é o papel de festivais como o Goiânia Noise na formação de público para novas bandas?
Leonardo Razuk: Na nossa época tinha MTV e algumas rádios que tocavam bandas independentes, festas como a Maldita no Rio de Janeiro. Hoje esses espaços são mais reduzidos e a oferta é muito grande. Você pega ali no Spotify quantas milhares de músicas são lançadas toda semana. E como se destacar no meio disso tudo? É no palco. E o festival serve para isso: para ser um panorama do que está acontecendo. Por isso que temos uma responsabilidade e preocupação muito grande com a curadoria, de tentar achar esses artistas que estão fazendo trabalhos relevantes mas que às vezes não está sendo ouvido ou está preso a um determinado nicho. E a gente quer tentar dar uma amplitude pra isso. E como aqui em Goiânia a gente tem um público que é interessado em conhecer e buscar essas coisas, muitos artistas saem daqui de uma forma diferente da que quando chegaram.
Léo Bigode: Acho que o Noise sempre foi um festival que teve a característica de manter o artista muito próximo do seu público – uma coisa que grandes festivais por aí não tem. Então o jovem que vai no Noise, a experiência sensorial dele é muito diferente de um grande festival, no sentido da relação dele com o artista. Acho que esse é um diferencial que festivais independentes conseguem ter e manter para construir público. E acho que é muito mais fácil a pessoa vir ao Noise e pirar com aquela pessoa próxima dele no palco do que ir em eventos maiores nas grandes capitais e sentir a mesma coisa. E a gente se alimenta disso, de continuar trazendo as bandas e fazendo o festival.
Leonardo Razuk: Na nossa curadoria, por mais que a gente fique de olho nas coisas novas, a gente não se baseia em algoritmos ou seguidores de Instagram ou Spotify. Claro, a gente observa a agenda da banda, conversa com amigos e produtores de outras cidades para entender aquele artista. E a gente se baseia muito mais nessas impressões reais.
Vocês acham que a descentralização da produção cultural no Brasil avançou ou ainda estamos presos aos eixos Rio-SP?
Leonardo Razuk: Acho que teve um movimento muito forte no passado com a coisa toda de Recife, a música do Pará e aqui no Centro-Oeste teve também. E como ainda existem festivais importantes em todas essas regiões, acho que mostra que o consumo de cultura realmente mudou, não está restrito só ao Sudeste ou eixo Rio-São Paulo. Tanto que o festival esse ano tem artistas de quase todas as regiões. E poderia ter muito mais; a gente só não traz mais coisas porque o fato de estarmos no centro do país encarece demais a logística. Então às vezes a gente acaba tendo que deixar de lado um artista que seria super foda ter no festival por razões orçamentárias. Por exemplo, infelizmente trazer uma banda do Nordeste ou do Norte é caríssimo pra gente porque não tem vôo direto ou uma série de outras complicações.
Léo Bigode: Só pra complementar: acho que avançou muito a descentralização, mas ainda tem uma deficiência muito grande em vários pontos, como na questão de políticas públicas. Falando na Lei Rouanet e tal, acho que a participação de outros estados mais periféricos, é discrepante. Isso precisava ser mexido, com políticas de nível nacional, abrir para descentralizar isso. Acho que isso fica muito na parte de gestão cultural dos estados e municípios que na maioria das vezes cometem erros absurdos em editais públicos ou como dividir esses recursos. Acho que a Política Nacional Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo vieram para ajudar a descentralizar isso, mas ainda falta muito a ser feito e isso precisa ser falado, cobrado mais benefícios para quem está fazendo cultura, não só música, mas em outros lugares do Brasil.

O que mais dá trabalho na produção do festival – logística, patrocínio, curadoria, negociação com bandas?
Leonardo Razuk: Acho que patrocínio é o principal. A gente não tem tantas dificuldades como no início, mas ainda tem. Hoje temos mais acesso a esses mecanismos de incentivo, mas ainda existem essas dificuldades, que variam muito de governo para governo. É complicado você não ter uma constância na abertura de editais, então você sempre tem que estar tentando trabalhar num limite muito grande de datas e etc. Acho que essa é uma questão que ainda pega muito: o patrocínio, a questão financeira e a logística de trazer o artista para Goiânia. Os altos custos de passagem aérea e disponibilidade de voos e horários atrapalham muito. Tem uma outra coisa: Goiânia tem poucos espaços adequados para fazer festival. Então ou você está no Martim Cererê, que é de pequeno-médio porte, ou você tem que ir para um lugar muito grande, não tem um meio termo. E isso também dificulta e nos trava a curadoria. Às vezes a banda até tem um público, mas não para aquele lugar.
Como surgiu a ideia do Estúdio Noise e o que vocês esperam colher desse projeto?
Leonardo Razuk: A primeira edição que fizemos do Estúdio Noise foi em 2007, se não me engano. Mas ele não teve em todas as edições de lá para cá. Mas em 2007, a gente tinha um patrocínio de uma grande rede varejista daqui do estado, chamada Novo Mundo. E aí surgiu o conceito de “Novo Mundo, Nova Música”, então era de ter espaços para que bandas que ainda não tinham músicas gravadas ou carreira consolidada pudessem se apresentar e também servir de laboratório para pinçar aquelas bandas para o selo ou para tocar em outras edições do festival. Por questões orçamentárias esse projeto voltava ou descontinuava e também já teve vários formatos: de gravar uma música, de fazer um pocket show, de fazer um vídeo. Então como a gente precisa dar vazão a várias bandas locais e não cabe na programação, ele acaba servindo como um terceiro palco.
Com 30 anos de bagagem, ainda rola frio na barriga antes do evento começar?
Leonardo Razuk: Sempre rola. A gente fica sempre atento a questões como segurança das pessoas no festival, repercussão nas redes… Sábado mesmo a gente teve um evento mensal que fazemos, chamado Cidade Rock. São sempre cinco bandas locais, mas nem sempre é somente rock. Nesta última edição, um cara reclamou nas redes sociais porque não era “rock o suficiente”.
Léo Bigode: O problema é que ele não leu a programação, nem viu as bandas. A gente entende o rock de forma mais ampla. Tem artistas que, mesmo não soando como rock tradicional, carregam muito mais a atitude e o espírito do gênero do que alguns “roqueiros” por aí. Antigamente, a galera aceitava mais as coisas. Hoje, qualquer comentário ou decisão pode gerar muitas críticas na internet.
Leonardo Razuk: Mas assim, um conceito que temos trabalhado nos últimos anos é que não é só “rock”, é música independente. No passado, dizíamos “Goiânia Noise, a grande festa do rock independente”. Hoje falamos “a grande festa da música independente”. E não é ceder ou abrir concessão, é acompanhar o momento da música, no Brasil e no mundo. As formas de produzir e se expressar mudaram, e isso também é rock.

Qual é a importância da Monstro Discos para o Goiânia Noise e para a cena local?
Léo Bigode: Acho que o papel da Monstro e do Noise é fundamental para a cena. As bandas se programam para lançar material pensando no Noise, porque sabem que tocar lá é uma vitrine importante. Então gera uma expectativa de ser parte do selo e de tocar no festival. Porque as bandas sabem que existe uma possibilidade delas tocarem no Noise do que em um festival maior em São Paulo. Então a cena meio que se movimenta já pensando no festival. É uma oportunidade que todo mundo quer participar.
Leonardo Razuk: Tem uma coisa que a gente gosta de falar que mesmo não sendo a mesma coisa, Monstro e Noise são feitos pelas mesmas pessoas. Mas estar no selo não garante vaga no festival. A banda precisa estar ativa, produzindo e circulando. Quando o momento é bom, faz sentido colocá-la na programação. Não é só “sou do selo, então já estou garantido” (risos). A relação existe, mas não é obrigatória.
Vocês acreditam que o legado do Goiânia Noise vai além da música? Que tipo de transformação cultural ele causou na cidade?
Léo Bigode: A existência do Noise tem a ver com várias coisas da cultura e subculturas da cidade. Design gráfico, fotografia, marketing para cultura independente, moda, gestão de projetos, literatura independente, tudo isso. Estúdios, equipamentos, produtores… Não existia nada disso neste nosso universo antes de 1995. Existia música independente, existiam estúdios, mas era outro foco. Para este tipo de som mais alternativo, não existia. Provavelmente só para sertanejo.
Leonardo Razuk: Na questão do design mesmo, se você pegar os cartazes do Noise no início, dá uma grande análise de como essas artes eram feitas antes e são realizadas hoje. Tem grandes designers em Goiânia. Não vou dizer que eles foram criados pelo Noise, mas é lógico que eles orbitaram ali. O festival também abre espaço para isso, para que produtores independentes mostrem o seu trabalho ali porque tem uma feira no festival com histórias em quadrinhos e publicações independentes. É difícil falar disso sem parecer pretensioso, mas a história está aí. O Noise ajudou a movimentar e conectar diferentes áreas da cultura independente em Goiânia.
Tem alguma banda ou artista que vocês ainda sonham em trazer?
Léo Bigode: A gente já trouxe muita banda que sempre quisemos, mas ainda tem muitos nomes…
Leonardo Razuk: O nome que sempre me vem à mente quando fazem essa pergunta é o Melvins. A gente sempre sonhou muito com o Cramps, mas infelizmente não é mais possível [nota do editor: a banda se desfez em 2009, com a morte do vocalista Lux Interior]. Também gostaríamos muito de trazer o Peter Hook [ex-Joy Division e ex-New Order]. Volta e meia ele aparece no Brasil para tocar o repertório das ex-bandas. Ele até já veio aqui em Goiânia e tocou em um pub. Tem outros nomes que sonhamos em ter e, quem sabe, um dia aconteça. Mas já vieram outros que a gente nem imaginava, como o Exploited, Helmet…
Leonardo Bigode: Toy Dolls [em 2018]. Vários artistas que eram sonhos e acabaram dando certo. Então nunca se sabe!
Pra terminar: o que vocês diriam para alguém que vai ao Noise pela primeira vez este ano?
Leonardo Razuk: Vá de cabeça aberta. Vai preparado para ver, se divertir, sair do padrão, ver coisa diferente, coisa nova. Pra entender que a música é muito mais ampla que os rótulos que as pessoas insistem em colocar. Pra viver música, para curtir, conhecer gente e banda nova, ouvir som diferente. Não fique preso no seu mundo.
Léo Bigode: Eu diria a mesma coisa: pra só ir, sem preconceito, pra experimentar a sensação de ver o João Gordo a um metro de distância – um cara que tem 40 anos de história. Pra ver o Skylab pedir cigarro no palco (risos). E pra ver uma banda nova no mesmo dia. Vai pra se entregar, tem essa questão sensitiva. É essa mistura que faz o festival ser único.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.
Porque não colocaram o nome do festival de GOIÂNOISE ?