entrevista de João Paulo Barreto
“Aos mais sensíveis – que nem deveriam estar por aqui – alertamos que esta revista é de terror, contém altas doses de violência e absurdos físicos, morais, psicológicos e sociais. Mas não enquanto apologia e, sim, como elementos para causar asco e repugnância. Se você quer final feliz e um mundo perfeito onde todos são legais uns com os outros e plenamente conscientes e integrados com aquele tal universo que conspira a nosso favor, vá ler outra coisa.”
A escrachada recomendação acima abre “Pandemonium 2“, sequência do homônimo quadrinho baiano de terror lançado durante a pandemia. A energia é a mesma. Ao focar em histórias de terror fantástico que remetem às clássicas páginas de quadrinhos produzidas a partir da década de 1950 até o início dos anos 1980 por editoras como EC Comics, Warren e pela própria Marvel (em uma época de maior ousadia e riscos assumidos), “Pandemonium 2” dosa com precisão o mesmo tipo de conceito.
Após o lançamento da edição de cinco anos atrás, Val Oliveira, idealizador e um dos desenhistas e roteiristas com histórias presentes nas duas revistas, reuniu uma nova equipe criativa, mas mantendo alguns dos nomes que ajudaram na criação do volume 1. O que não mudou, como já frisado na citação que abre esse texto, foi a proposta ousada de abordar um tipo de narrativa fantástica que utiliza sem privações de violência e com uma premissa de narrativas calcadas na influência da literatura macabra e do cinema de gênero de terror slasher e, também, tragicômico.
Neste papo com o Scream & Yell, Val Oliveira, um dos autores e idealizador do projeto, aprofunda o processo de criação para Pandemonium 2. Confira!

Após o lançamento do primeiro número em 2020 como foi voltar à lida para o número 2?
Essa segunda edição da “Pandemonium” estava programada para ser lançada em 2024, tendo sido praticamente finalizada em 2023. Mas por conta de atrasos de autores e constantes mudanças em seus materiais, só entramos este ano no financiamento coletivo. Também teve o fato que a maioria tem suas outras atividades, e isso impacta na produção do material. A atual campanha do Catarse (que já se encerrou), em relação à campanha anterior, foi mais lenta e com apoios espaçados. Não tentamos edital, pois creio que a revista não se encaixaria em um devido ao seu teor, capa, etc, mesmo a anterior tendo sido indicada para o 34º Prêmio HQ Mix.

Mesmo processo criativo?
Esse foi bem mais livre que a edição anterior, mas com o foco em fazer quadrinhos de horror, ficção, fantasia, onde a inspiração eram os quadrinhos produzidos pela EC Comics, Warren e Marvel nos anos 1950, 1960, 1970 e inicio dos anos 1980. Mas sem se prender à estética do período.
Você citou a não inscrições em processos de editais e eu queria aproveitar a deixa para lhe perguntar sobre o cenário dos quadrinho com temática de terror no Brasil. Como é focar nessa liberdade criativa em tempos de tamanha vigilância puritana?
A abordagem da “Pandemonium” não se encaixa muito na produção da maioria dos quadrinhos nacionais. Pelo menos na forma que procuramos gerir as histórias e o direcionamento da revista. O que procuramos é tentar contar boas histórias, onde o leitor possa se envolver, se divertir ou até mesmo se espantar. Tem muitos autores brasileiros que abordam temas atuais, buscando o fator de representatividade, tratar de temas atuais, que são extremamente importantes, e eles fazem isso muito bem. No nosso caso, o fator que procuramos é a diversão do leitor, que ele se divirta, leia e releia e que possa escolher suas historias ou autores preferidos em nossa publicação.

E a equipe criativa para essa nova empreitada?
Nesta segunda edição, a equipe se alterou um pouco, mantendo a presença de autores premiados como Hector Salas, Hélcio Rogério e Romeu Martins, e tendo como novidade a contribuição de Luan Zuchi, Daniel Paz, Rafael Oliveira, Sandro Zambi, Joe Santos e Lui C.Q. A dupla Romeu e Zambi lançou recentemente a adaptação de “Nosferatu”, baseada no clássico alemão expressionista, e que está recebendo ótimas criticas no mercado editorial brasileiro. O Zambi (que também é colorista), juntamente comigo e com o Romeu, fomos premiados pela adaptação em quadrinhos do conto “A Cor que Caiu do Espaço”, lançado em 2020 pela Editora Skript. A HQ conquistou o Troféu Odisseia Fantástica de Melhor Adaptação na categoria quadrinhos e concorreu ao Troféu HQ Mix de 2021 de melhor adaptação para os quadrinhos.
Após a concretização desse lançamento, quais são os planos para os novos projetos?
Após a “Pandemonium”, pretendemos lançar futuramente outro projeto, com um foco mais amplo do que a da revista atual. Ainda estamos no processo de financiamento da segunda edição, mas posso adiantar que já temos algumas histórias prontas, mas vamos um passo de cada vez. A “Pandemonium” é uma empreitada minha, do Rodrigo Vinicius e Hector Salas, através do coletivo Quadrinhos de emergência. Ela surgiu para suprir a falta de quadrinhos de horror no mercado editorial baiano. Infelizmente, temos pouco apoio ao quadrinho de gênero produzido na Bahia. Mas seguimos firmes. A revista também tem o apoio de meu outro projeto, a Mostra de Cinema Cine Horror, que este ano chega em sua décima edição, esperando ir além. Após esta o encerramento da edição deste ano, e da campanha da “Pandemonium”, vamos parar para avaliar tudo e ver o que se desenha para o futuro.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.