entrevista de Fabio Machado
Os griôs (griots) são figuras de grande relevância na cultura africana, responsáveis por propagar mensagens para o povo através de histórias, canções e rituais. Ser griô é uma profissão de fé: é algo que não se escolhe fazer, e sim parte de uma linhagem ancestral com uma responsabilidade maior do que o mero fazer artístico. Nesse sentido, Seun Kuti (nascido Oluseun Anikulapo Kuti) se impõe como um griô de importância singular: é o filho mais novo de Fela Kuti, cujo nome é sinônimo tanto de música como de revolução e que marcou a história do século XX consolidando um estilo próprio – o afrobeat.
Com o falecimento de Fela em 1997, Seun assumiu o legado do pai como líder do conjunto Egypt 80, e a partir daí seguiu a trajetória familiar não somente por meio da música, mas também pelo posicionamento político levando ao mundo a mensagem da “libertação africana”, como prefere dizer. A atividade política é, portanto, natural para um homem que tem não apenas Fela Kuti como exemplo: Seun sempre procura reforçar que a mensagem das suas músicas não é simplesmente um legado de Fela, e sim do continente africano como um todo, mencionando inclusive outras personalidades conhecidas por sua voz ativa contra o opressão e colonialismo, como Patrice Lumumba, Bobi Wine e Julius Malema.
Em seu canal no Youtube, é mais fácil encontrar vídeos com opiniões sobre o cenário político local do que videoclipes e bastidores de shows. E em um mundo onde manifestações de artistas sobre temas como o genocídio palestino sofrem censura no Brasil e no resto do mundo, é um alívio saber que ainda é possível se posicionar e ao mesmo tempo navegar pelas águas um tanto turvas da indústria musical.
Seu disco mais recente – “Heavier Yet (Lays the Crownless Head)”, que ganhou versão deluxe em 2025 – não deixa de ser uma constatação bem-sucedida dessa navegação. Um trabalho que busca ampliar os horizontes de Seun para o resto do mundo mas ainda mantendo a força das letras, com uma produção pop a cargo de Lenny Kravitz (apoiado pela direção artística de Sodi Marciszewer, que já havia gravado com o próprio Fela Kuti) e convidados de peso que representam a abrangência e influência da música negra global: Kamasi Washington, Adi Oasis, Damian Marley, Weedie Braimah e muitos outros que contribuem para trazer um sentido mais moderno e cosmopolita para a fundação afrobeat do Egypt 80.
A colaboração com artistas de outros países não é novidade para Seun, que inclusive fez jam sessions com as brasileiras da Funmilayo Afrobeat Orquestra. Em entrevista feita por e-mail para o Scream & Yell, Seun Kuti dá mais detalhes sobre a relação com o Brasil (ele desembarca no país com a Egypt80 para uma turnê entre 29/10 e 16/11 com shows já confirmados em Brasília, Rio, Florianópolis, BH, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e SP – mais informações aqui) e também sobre a dimensão de seu legado e posicionamento como artista.
Ouça “Heavier Yet (Lays the Crownless Head)” na integra abaixo
Scream & Yell: Recentemente um vídeo seu no festival INMusic teve repercussão global nas redes sociais: em seu discurso, você se dirigiu ao público europeu para que além do “Free Palestine” (Palestina Livre) eles também agissem para “Free Europe” (Europa Livre). Você acredita que o atual cenário político na Europa – onde a xenofobia em relação a pessoas imigrantes e refugiadas e pessoas negras se torna mais presente – contribuiu para a repercussão desse vídeo?
Seun Kuti: Acho que o sucesso do vídeo… eu nem mesmo chamaria de sucesso porque não foi algo planejado. Eu não disse aquilo por ter pensado que iria se tornar um viral. Eu nem sabia que iriam postar aquilo, e depois meio que colaborei com isso.
Acho que (o vídeo) repercutiu porque foi algo honesto, e as pessoas queriam ouvir algo que fosse honesto, e que também pudesse oferecer um espaço para auto-reflexão. Porque é isso que está faltando no mundo. Auto-reflexão. Ninguém está pensando sobre nada de uma forma profunda. Estamos confusos por conta da mídia e das redes sociais, sabe? Precisamos criar mais espaços para reflexão.
Você tem uma vida onde arte e resistência política estão intimamente ligados, mas muitos artistas preferem não se envolver com manifestações ou expressar opiniões, seja por medo ou preocupação em relação às suas carreiras. O que diria para esse tipo de artista?
Acho que a maioria dos artistas simplesmente escolhem o lado em que querem estar. Eu não acho que qualquer pessoa, por conta da sua carreira ou não, tipo… o que você quer da vida? Acho que a maioria das pessoas quer tudo da vida, sabe, e nada é tudo. Então, tudo é nada. Não procuro por aquela vida onde estou buscando por tudo: as melhores coisas, todas as mulheres, todos os carros, todas as casas, todos os lugares para passar as férias. Não. Então, muitos artistas querem isso, e você não pode ter isso e ao mesmo tempo ser revolucionário, sabe? Então, o que penso é que eles escolhem seu lado.
Agora, falando sobre seu disco mais recente “Heavier Yet (Lays the Crownless Head)”: No vídeo de making of do álbum, você é enfático ao dizer que a mensagem que carrega não é necessariamente a mensagem do seu pai, e sim a mensagem da África como um todo. O quanto essa associação ao legado de Fela Kuti ainda afeta a forma como percebem a sua carreira?
O meu legado é basicamente o que fundamenta a minha carreira. É o meu legado que me guia, direciona e auxilia a navegar neste mundo através da minha música. Não tem um jeito de separar isso, sabe, mas tem um erro que as pessoas cometem ao dizer: “ah, isso é a mensagem de Fela (Kuti)”.
É por isso que eu faço questão de dizer que Fela não criou essa mensagem do nada. Essa é a mensagem da libertação da África. Minha avó também trazia essa mensagem. Nkrumah (Frances Kwame Nkrumah, teórico político e ex-Presidente de Gana) trazia essa mensagem. Lumumba (Patrice Émery Lumumba, sindicalista, político e líder congolês) trazia essa mensagem.
Meu pai trazia essa mensagem e eu herdei essa tocha, essa bandeira, não só do meu pai, mas de todos os grandes africanos. Julius Malema (parlamentar sul-africano) está espalhando essa mensagem hoje em dia. Bobi Wine (líder político, cantor e ator) em Uganda também, até certo ponto. Ele está lutando por isso, sabe? Então é isso, não é só a minha mensagem.
Você também afirma a intenção em expandir sua sonoridade para outras formas de música que vieram da diáspora negra, como o reggae, o funk e o hip hop norte-americano, o samba brasileiro e a música afro-latina. O quanto esses estilos te influenciaram na sua formação musical ao longo da vida?
Bem, minha criação em Calcutá com meu pai foi muito especializada no sentido de ser mais voltada para o afrobeat. Mas, ao longo da vida, também fui influenciado por todo tipo de música africana enquanto crescia. A música latina, jamaicana, americana… todas elas vieram das raízes africanas. Sempre fui influenciado por essa conexão.
As participações nesse disco também refletem a proposta de trazer outros elementos da música negra global, com nomes tão diversos como Adi Oasis, Alborosie, Damian Marley, Don Letts & Gaudi, Kamasi Washington, Posdnuos (De La Soul) e Sampa The Great. Houve algum critério específico para trazer esses nomes? Como se deu a colaboração com os artistas? Vocês trabalharam juntos sobre ideias pré-estabelecidas ou o processo criativo foi mais espontâneo?
O principal foi compreender o escopo do que nós queríamos desenvolver nesse trabalho. E dentro desse escopo, todos tinham permissão para ser criativos, ser espontâneos e improvisar. Foi interessante. Sou muito grato a todos (os participantes do discos). E também gostaria de lembrar o nome de Weedie Braimah, que tocou as percussões em todo o álbum.
Ainda sobre a produção do disco, é inevitável não falar sobre o papel de Lenny Kravitz como produtor. Como se deu essa aproximação entre vocês? Houve alguma preocupação da sua parte em trabalhar com alguém que é tão associado a uma sonoridade mais voltada para o som mais pop norte-americano?
Nós trabalhamos juntos nesse projeto porque nos tornamos amigos, ele fez amizade comigo durante a pandemia. E começamos a conversar em detalhes sobre o que gostaríamos de fazer. E ele me garantiu que, quando eu estivesse pronto, ele estaria disposto a me ajudar e ter uma grande participação nesse álbum. Foi assim que a coisa toda se desenvolveu.
E eu sei que as pessoas conhecem Lenny, sabe, ele é um músico pop, um artista de rock, na verdade. Mas isso não tira a musicalidade dele. Lenny é um dos maiores músicos vivos, um dos maiores instrumentistas vivos atualmente. E sendo a minha música algo vivo, ele também é um mestre em compreender o som nesse aspecto. Lenny Kravitz é um músico, acima de tudo.
Em 2024 você teve oportunidade de fazer uma gravação com o conjunto brasileiro Funmilayo Afrobeat Orquestra, que tem uma sonoridade bastante influenciada pelo afrobeat. Quais são suas lembranças dessa experiência? Alguma previsão para parcerias com outros músicos brasileiros no futuro?
Ah, a orquestra, minhas irmãs. Conheço elas faz um bom tempo. Então, foi um bom momento. Na verdade foi uma jam session que acabou virando uma coisa à parte, tomou vida própria. Foi algo tão cru, sabe, e todo mundo adorou aquilo. Então estou feliz por ter dividido isso com o mundo. As garotas na banda são todas minhas irmãs. Nós partilhamos uma relação muito musical e pessoal como família. Amo todas elas. E claro, também quero trabalhar ainda com Seu Jorge, sabe? Porque ele é meu irmão também.
Finalmente, qual a expectativa para a turnê no Brasil? O que podemos esperar das apresentações? Deixe uma mensagem para os fãs brasileiros.
Sim, eu mal posso esperar para vir ao Brasil novamente. Amo o país e nossas conexões culturais e artísticas como africanos e brasileiros. Então estou sempre buscando trazer a mensagem da libertação africana para meus irmãos e irmãs na América do Sul, especialmente no Brasil. Mal posso esperar para chegar aí.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.