entrevista de Alexandre Lopes
Sete anos após o álbum de estreia, “Jardineiros de Concreto”, a banda paulista A Olívia chega a um novo momento com o lançamento de “Obrigado por Perguntar” (2025), seu segundo disco cheio, agora com o selo da ForMusic Records. Além de uma continuação da trajetória do quinteto atualmente formado por Louis Vidall (voz e guitarra), Pedro Lauletta (teclado e percussão), Pedro Tiepolo (baixo), Marcelo Rosado (guitarra) e Murilo Fedele (bateria), o trabalho soa como uma espécie de primeiro recomeço: marca a consolidação de uma sonoridade mais coesa.
Entre o primeiro disco de 2017 e este novo lançamento, a banda passou por mudanças de integrantes, uma pandemia e uma identidade que vinha sendo trabalhada com singles e os EPs “Output” (2020), “Input” (2022) e “Selva Rock Brasileira” (2024). “Obrigado por Perguntar” reúne 13 faixas que transitam entre o indie rock, pop alternativo, flertes com samba, reggae, punk e uma clara sensibilidade melódica. Canções como “Incêndio em Mim”, “Hora Extra”, “Histórias Que Não Escrevi” e “Alma” evidenciam essa nova personalidade, além dos singles “Entretenimento”, “Ensaio Aberto” e “Hasta Luego”.
Gravado entre os estúdios DaHouse e Flap e takes de guitarra na Serra da Cantareira, com produção de Kaneo Ramos e mix/master de Zeca Leme (BTG), “Obrigado por Perguntar” também aponta para um amadurecimento nas letras. O disco traz reflexões sobre a superficialidade dos dias atuais e vulnerabilidades emocionais, passando por ansiedade, relações partidas e a sobrevivência em meio ao caos; mas tudo isso com uma energia ensolarada. “A gente está indo cada vez mais pra fora. Fomos tão pra fora que chegamos em Buenos Aires. Quem sabe pra onde vamos depois…”, brinca Louis.
A escolha do título “Obrigado por Perguntar” também refletiu essa temática. “Em ‘Boa Tarde’ tem uma pista na letra, que é ‘Obrigado por não perguntar, mas eu não vou nada bem’”, diz Louis. “Hoje, com a correria, as pessoas até têm boa intenção, mas querem que a resposta seja rápida. ‘Me conta como você está… mas resume, porque eu tenho mais o que fazer’. Então a frase virou essa mensagem que transborda, porque ninguém perguntou de verdade como elas estão”.
A escolha de gravar um álbum cheio também trouxe outras experiências ao grupo. “É muito louco, porque duas músicas a mais não são só ‘duas músicas a mais’. Às vezes são dois, três meses a mais de trabalho”, explica Louis. Pedro Tiepolo completa: “Hoje em dia tem muito álbum curto… Acho que a diferença é que, como o Louis falou, a gente chegou num conceito. Esteticamente e sonoramente, o som está mais completo”.
Recentemente, A Olívia levou esse novo repertório para Buenos Aires, onde gravou clipes e sessões ao vivo em locais icônicos como La Trastienda e o estúdio Romaphonic. A passagem pela capital argentina confirmou um novo passo na trajetória da banda: um som expansivo, que carrega o espírito solar da América Latina, mas sem abrir mão das angústias do presente. “Esse disco de rock brasileiro fala pra fora, com cores muito vivas, como na capa, pensando em América Latina, em algo mais solar”, resume Louis.
A seguir, você confere o papo completo que Scream & Yell teve com Louis Vidall e Pedro Tiepolo, no qual ambos detalham mais sobre o álbum, os bastidores das gravações, os novos caminhos d’A Olívia e um pouco do que vem pela frente.
Ouça o álbum na integra abaixo
Já faz um tempinho que vocês lançaram o primeiro álbum, “Jardineiro de Concreto”, em 2017. Depois disso vieram singles e EPs. Por que resolveram lançar um álbum completo agora?
Louis: Cara, acho que tem muito a ver com a história da formação da banda. Quando lançamos [o disco de estreia] em 2017, sentimos a necessidade de ter teclado, porque no estúdio colocamos teclado em músicas que originalmente não tinham. Aí o Pedro Lauletta, o tecladista, entrou na banda e fez o show de lançamento do primeiro álbum. Pouco tempo depois, a gente já estava produzindo um novo repertório. Gravamos o primeiro EP “Input” à distância, durante a pandemia. O EP “Selva Rock Brasileira” veio quando o baixista original saiu e entrou o Pedrinho Tiepolo. Começamos a ensaiar também meio à distância e depois presencialmente, lá em Mairiporã [SP]. Daí lançamos o “Selva Rock” dizendo: “Esse é o novo som da Olívia”. Aí chegou o momento de lançar um álbum, porque sentimos que, além das mudanças na formação, houve uma maturidade sonora. A gente chegou no som da Olívia e pensou: “Está na hora de lançar um álbum completo”. Acho que é por aí, né, Pedrinho?
Pedro: É isso. Já estava na hora mesmo. Até antes de eu entrar, já fazia um bom tempo do primeiro disco. E mesmo os EPs que a gente lançou, tipo o “Selva Rock” e o “Input”, se a gente colocasse mais duas músicas, já dava pra chamar de álbum. Hoje em dia tem muito álbum curto… Acho que a diferença é que, como o Louis falou, a gente chegou num conceito. Esteticamente e sonoramente, o som está mais completo.
Então também serve para marcar algo como: “agora essa é a formação da banda e a gente está 100% confortável com isso”?
Louis: Mais do que a formação, é o próprio som. A verdade é que ele aparece em “Selva Rock”, quando a gente pensa “pô, isso é A Olívia”. Aí a gente pensou: “agora que a gente sabe o que é, bora fazer um álbum”. É muito difícil chegar num som mudando de integrantes, mudando vibe. A gente, no geral, é uma banda mais ‘pra cima’, mais ‘pra fora’. Aí veio a pandemia… Não é que não éramos nós, mas não era nosso estado natural. Então, é um pouco da formação, mas mais da nossa vibe mesmo.

E como uma banda que já tinha lançado singles e EPs, como foi a diferença de trabalhar focados num disco longo?
Louis: Ah, foi grande. É muito louco, porque duas músicas a mais não são só “duas músicas a mais”. Às vezes são dois, três meses a mais de trabalho. A gente sai de um EP com cinco faixas para um álbum que hoje em dia é considerado grande, com 13 faixas. Normalmente tem 10 ou 11, nem toda banda lança 13 faixas. Mas começamos esse trabalho há bastante tempo. Acho que foi em novembro de 2023 que começamos a pré-produção pra valer.
Pedro: Tinha música mais antiga ainda, né?
Louis: Sim, tem música de 2017, da época do primeiro disco. “Boa Tarde”, por exemplo.
Pedro: Foi uma das primeiras que a gente tocou quando começamos a ensaiar à distância, na pandemia em 2021. Ela era cotada pra entrar no “Input”, dois EPs atrás, mas só agora saiu. Então foi um processo longo. E se considerar todo o entorno, foi ainda mais longo.
E comparado aos discos e EPs anteriores, o que vocês acham que fizeram de diferente?
Louis: Acho que a parte técnica mudou muito. Produção musical, mixagem, masterização, nosso próprio processo. Já em “Selva Rock” a gente começou a investir em pré-produção e ensaiar muito. Sempre fomos uma banda que ensaia, mas com foco maior em shows. Aí começamos a ensaiar com cronograma pro disco. O produtor Kaneo Ramos falou: “Vamos fazer várias pré-produções, aí quando chegar na gravação vai fluir bonito”. Então essa parte técnica é bem perceptível: todo mundo dominando bem o instrumento, canto… A gente não é uma banda muito fácil de rotular. Temos um pé no indie rock, mas a gente transita muito entre sonoridades. No primeiro álbum tem “Arruda”, que pedem até hoje, e é claramente um samba. “Boa Tarde” é meio que uma marchinha. A gente pega referências antigas… Tipo David Bowie que fazia de tudo, mas dividindo por fases. A gente meio que faz tudo ao mesmo tempo, porque somos várias cabeças. Então lançamos de tudo. Bem mal comparando, tipo o King Gizzard & the Lizard Wizard, eles são uma máquina. Mas esse não é nosso primeiro punk, nem nosso primeiro samba, nem nosso primeiro hardcore. Mas acho que esse volume de canções nos fez chegar no melhor resultado possível.
Pedro: E acho que a diferença do álbum pros EPs é que no “Selva Rock” já tinha uma variedade de sons e depois a gente juntou as músicas e organizou uma narrativa. Já no álbum, teve mais cuidado. A intenção foi fazer algo com vários estilos, mas tudo conectado como um disco.
Louis: Realmente, e o álbum teve uns três, quatro nomes antes de virar “Obrigado por Perguntar”. O repertório tinha 19 músicas, a gente reduziu para 10. Aí surgiram mais três faixas novas. Teve um momento em que o produtor falou: “Está faltando mais uma”. Aí fiquei mais duas semanas maluco tentando escrever, porque já estava perto de gravar. Então teve todo um trabalho de conceito.
Pedro: “Histórias Que Eu Não Escrevi”, por exemplo, surgiu disso: a gente queria algo com outra vibe pra complementar. Isso não aconteceu nos EPs.
E por que o nome do disco é “Obrigado por Perguntar”?
Louis: Em “Boa Tarde” tem uma pista na letra, que é “Obrigado por não perguntar, mas eu não vou nada bem”. Muitas músicas nasceram na época em que eu trabalhava com suporte, via chat e telefone. Isso foi uma aula, porque você vê como tem gente esquisita, difícil e complicada no mundo. Você vê como muda a relação entre quem está do outro lado da linha e quem atende. E a ideia veio de um surto criativo do tipo: imagina se alguém perguntasse “tudo bem?” para esses funcionários e eles respondessem de verdade? Tipo: “Na real, está acontecendo isso, isso, isso…” Hoje, com a correria, as pessoas até têm boa intenção, mas querem que a resposta seja rápida. “Me conta como você está… mas resume, porque eu tenho mais o que fazer”. Então a frase virou essa mensagem que transborda, porque ninguém perguntou de verdade como elas estão (risos).
A música “Ensaio Aberto” tem um clipe com vocês em Buenos Aires. Como foram esses shows pela Argentina?
Louis: Cara, os shows foram muito legais. La Trastienda é uma casa muito importante para eles. Talvez o mais próximo no Brasil seja uma mistura de Circo Voador [RJ] com a Audio [SP]. Já passaram por lá artistas como Fito Páez, Charly García. Melhor palco, melhor luz, melhor camarim que a gente já teve. E o Mitos Argentinos, que era mais pub, a gente aproveitou pra fazer algo mais “Capital Inicial tocando Soda Stereo”. Foi uma vibe mais intimista, mesas, mezanino, a galera vibrando. Então claramente a rivalidade entre Brasil e Argentina ficou só no futebol. Eles adoram a gente. Eu cantei um espanhol bem questionável e eles amaram. E o clipe foi uma aventura porque não estava planejado.
Pedro: É, a ideia foi: “já que estamos aqui, vamos registrar tudo”. Já soltamos o clipe de “Ensaio Aberto”, tem outro de “Ideia Maluca” que a gente está editando e deve sair nas próximas semanas. E já dando spoiler, também gravamos duas live sessions: uma com músicas do disco, tocando ao vivo no estúdio Romaphhonic, que é famosíssimo lá, e outra com surpresas inéditas que depois vamos revelar.
E sobre “Entretenimento”? A letra fala “o mundo tá acabando e a gente nem aí”. Tem a ver com a pandemia ou com os hábitos atuais?
Louis: A gente escolheu essa música pra abrir o disco porque ela resume a vibe geral do álbum. É essa coisa assim de estarmos sempre nos entretendo, mas falta alguma coisa no meio disso tudo. É sobre procurar sentido. A ansiedade talvez seja a doença do momento, mas essa falta de sentido ou de ver verdade nas coisas. E a pandemia só escancarou isso. “Entretenimento” é sobre isso: vamos nos entreter, mas vamos falar sério também. Porque a gente pode empurrar algo com a barriga, mas o mundo inteiro não. Não sei se foi uma baita resposta, mas é isso (risos).
Tem algo que vocês gostariam de dizer sobre o disco que eu não perguntei?
Louis: Cara, acho que uma coisa legal de comentar é que esse álbum tem mais parcerias: minhas com o Pedrinho, com o Marcelo… E que reflete nossa vibe de achar nossa identidade e nossa vontade de passar uma visão coletiva do mundo. A pandemia isolou muito a gente no nosso mundinho e agora a gente volta com um disco de rock brasileiro que fala pra fora, com cores muito vivas, como na capa que a Rafa fez, pensando em América Latina, em algo mais solar. A gente está indo cada vez mais pra fora. Fomos tão pra fora que chegamos em Buenos Aires. Quem sabe pra onde vamos depois…
Vocês têm planos de tocar em outros lugares da América do Sul?
Louis: Com certeza! Queremos voltar pra Argentina. Foi animal. Fizemos amigos, conhecemos outras bandas, isso abriu nossa cabeça. Igual quando tocamos fora de SP pela primeira vez, em Curitiba. A cabeça abre e a gente percebe que Buenos Aires não é tão longe, e que a vida é uma só. Estamos fazendo o nosso corre!
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.