Entrevista: Fiéis ao thrash metal mineiro, Payback apresenta “Rataria”, novo EP todo composto em português

entrevista de Bruno Lisboa

Formada em 2011, a banda mineira Payback está lançando um EP novo, “Rataria” (2025), composto por cinco faixas totalmente em português, canções que mergulham em temas urgentes e incômodos ligados a degradação mental provocada pelas redes sociais, o genocídio sionista e, principalmente, o reacionarismo promovido pela extrema-direita no Brasil.

Fiéis ao thrash metal, Daniel Tulher (vocal e baixo), Igor Gustavo (guitarra), Pedro Klized (guitarra) e Thiago Pena (bateria) também se aproximam do death metal em “Rataria”, algo que Daniel observa com naturalidade: “O flerte com o death metal sempre esteve presente no som da banda”, destaca. “Sempre que houver espaço e inspiração, o death metal estará presente (no nosso som”, completa.

Na conversa abaixo, feita por e-mail, Daniel Tulher fala sobre a nova fase do Payback, com o repertório cantado em português, analisa o legado e a tradição do metal mineiro, o tom político das letras e a necessidade de se posicionar, a importância de coletivos artísticos na construção da cena independente e os desafios do mercado fonográfico na atualidade, entre outras coisas. Leia abaixo.

“Rataria” marca o primeiro registro totalmente em português da Payback, em uma cena mineira historicamente marcada por bandas que flertaram com o inglês. Qual foi o ponto de virada para vocês optarem por um trabalho integralmente em português, e o quanto essa escolha potencializa a mensagem política do disco?
Cantar em português totalmente foi um processo. Não sei se houve exatamente um ponto de virada, mas um momento importante foi quando observei que algumas letras que eu escrevia em inglês passavam batidas, ao passo que as pessoas se lembravam das letras em português, algumas até mais simples. Mesmo assim, a fonética ainda me incomodava, mas, gradativamente fui me acostumando, assim como os caras da banda, até chegar na migração total. Hoje, me sinto mais instigado a escrever em português, além de facilitar a transmissão de nossa mensagem. Sinto que as pessoas absorvem melhor e sinto que várias barreiras no exterior foram superadas. Várias bandas brasileiras estão migrando para o português, tocando dentro e fora do Brasil e isso é incrível.

A cena metal mineira carrega um legado de contestação social desde os primórdios do Sepultura e do Overdose. Em que medida vocês enxergam “Rataria” como uma continuidade ou uma ruptura dessa tradição?
O thrash metal combina muito com o Brasil, pois temos ainda mais familiaridade com alguns temas abordados pelo estilo. Aqui em Minas Gerais isso se intensifica. A relação do estado com o cristianismo, o conservadorismo, a monotonia com certeza influenciaram como resposta forma de resposta dessas bandas pioneiras, ainda mais nos anos de ditadura, quando elas surgiram. Hoje, alguns dilemas mudaram, mas muita coisa, infelizmente, permanece. Continuamos no anseio pela evolução da sociedade.

A escolha de temas como a trama golpista no Brasil e o genocídio palestino reforça um tom de denúncia. De que forma vocês equilibram a urgência política nas letras com a construção musical extrema?
Acho que esses dois aspectos conversam muito bem e essa convergência é extremamente natural. A formação do metal extremo como sonoridade está intimamente ligada ao questionamento ao status-quo, à inquietação diante às injustiças, às opressões políticas, religiosas, financeiras. Até o intervalo musical que foi essencial na criação harmônica do heavy metal, foi rejeitado primeiramente pela igreja católica, que o apelidou de “trítono do diabo” e o proibiu durante um longo tempo de ser tocado nas composições religiosas. Tudo isso é política, mesmo que alguns tentem – estupidamente – despolitizar o rock ou heavy metal

A aproximação do instrumental com o death metal aponta para um aprofundamento sonoro, fugindo do thrash tradicional. Esse caminho mais sombrio e dramático reflete uma mudança estética definitiva para a banda ou foi algo pontual, ditado pelo momento?
O flerte com o death metal sempre esteve presente no som da banda, em maior ou menor escala, mas principalmente nos primórdios. Na demo “Toxic War”, por exemplo, tem muito daquela sonoridade raw do death metal feito em BH, do “Bestial Devastation” do Sepultura e “Immortal Force”, do Mutilator. Somos fãs do estilo, de suas evoluções e de sua versatilidade, que proporciona uma ambiência muito interessante para tratar de temas mais obscuros. Sempre que houver espaço e inspiração, o death metal estará presente, mesmo que em menores doses.

No release, vocês citam a necessidade de “se manifestar” contra injustiças globais e locais. Como vocês percebem a recepção do público metal atual a essas narrativas políticas, num momento em que muitos preferem um discurso “apolítico” ou escapista?
Percebemos esse discurso apolítico mais presente numa parcela mais desinformada e mais rasa do público, mais ligada ao mainstream. De uma forma geral, as pessoas que estão na linha de frente das produções da cena, do underground ao “midstream”, dos coletivos e das bandas, têm um entendimento muito mais sóbrio e entendem a necessidade do enfrentamento às injustiças, monopólios, opressões ao conservadorismo, etc. Isso está no espírito do rock ‘n’ roll desde sempre, e se alguém não entendeu, volte 10 casas.

A arte de capa, criada por Luís Felipe Loyola, traduz visualmente a brutalidade do disco. Como se deu a colaboração com ele, e em que medida vocês consideram o aspecto visual tão essencial quanto o musical para impactar o público?
Foi bem tranquilo o trato com o Luís, pois ele já é nosso parceiro há algum tempo e já queríamos fazer uma capa com ele, que é um grande artista. Passamos o conceito das letras, principalmente a “Rataria” e o deixamos bem livre para desenvolver a ilustração. O resultado que ele chegou foi bem próximo do que estávamos esperando, que é uma capa bem ao estilo do clima obscuro do EP. A identidade visual é um dos trunfos do heavy metal. As capas, logos, fontes, encartes têm um papel fundamental na construção do estilo e nada melhor que aliar a construção sonora à identidade visual, então artistas como o Luís e tantos outros que a cena brasileira dispõe são essenciais nessa construção estética.

O metal mineiro sempre foi visto como uma cena “unida” e, ao mesmo tempo, marginal. Como a Payback se posiciona hoje dentro desse ecossistema? Há um sentimento de pertencimento ou uma busca por romper com os rótulos locais?
Não sei se eu concordo com essa afirmação sobre a união. Até mesmo nos anos 80, nos tempos áureos da Cogumelo (Records), houve históricos de rixas e rivalidades, como Sepultura x Sarcófago, a mais famosa delas. Acho que a cena sempre foi complexa e multifacetada, e controversa, influenciada pelas territorialidades e os contextos socioeconômicos, mas isso é um longo debate. Fato é que temos um riquíssimo ecossistema onde surgem vários artistas e bandas e algumas redes de pessoas nesse meio que se organizam e fazem as coisas funcionar, e nos integramos a algumas dessas redes por compactuarmos visões similares, como o coletivo Metalpunk Overkill (que transformou a cena belorizontina nos últimos anos), o Grindisgraça, Rock Generator, Fúria, Cerco Grotesco, o Punk No Park, enfim. Nós fazemos parte porque, acima de tudo, somos parte de um todo e não somente banda que toca.

O EP surge após mudanças na formação e experimentações de estúdio. O quanto essas transformações internas impactaram na coesão criativa da banda? “Rataria” pode ser lido como um recomeço ou um fechamento de ciclo?
Impactaram diretamente, pois a condução da composição do novo EP foi desenvolvida, principalmente, pelo Pedro Duarte, que entrou em 2023, A sua entrada deu um precioso impulso à capacidade criativa da banda, e me deixou mais livre para focar nas temáticas, embora eu também tenha colaborado na criação musical. Não consideramos um recomeço, pois a identidade da Payback está lá (e o Pedro, como já era admirador de nosso trabalho, soube absorver essas influências e incrementá-la com sua identidade), nem um fechamento de ciclo, pois ainda há muito a ser oferecido.

Finalmente, em um cenário musical cada vez mais segmentado e dominado por playlists e consumo rápido, onde vocês acreditam que um trabalho denso e político como “Rataria” pode encontrar eco?
Bom, se formos observar o formato em si, “Rataria” até que estaria alinhado à lógica mercadológica, pois a hype do momento são os singles, e, no máximo, EPs, e foi isso que fizemos, lançamos um single e depois o EP completo. Mas isso foi só uma coincidência, pois gostaríamos de lançar algo pontual, antenado com a urgência de alguns acontecimentos. Ademais, um álbum custa mais, e estávamos limitados financeiramente, então foi a saída que encontramos. O que esperamos com esse trabalho é o que já tem acontecido nos shows, com as pessoas absorvendo as músicas, se sentindo representadas com as nossas indignações e proporcionando a troca de energia, que é sempre o que importa no final das contas.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br.

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