Crítica: Fernando Coimbra vai da comédia ao mais absurdo gore em “Os Enforcados”

texto de Renan Guerra

Na hora do casamento, os votos reforçam: juntos na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza; e tanto Valério (Irandhir Santos) quanto Regina (Leandra Leal) levam isso bem a sério, tanto que poderíamos incluir aí alguns itens como “juntos no crime, nos segredos e no caos”. O casal protagonista de “Os Enforcados” (2025) vive confortavelmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, graças ao império do jogo do bicho construído pelo pai e pelo tio de Valério, que acredita ter mantido suas mãos limpas dentro desse universo violento. De todo modo, os jogos de poder do crime estão sob mudança e o casal precisará lidar com pendências familiares e financeiras, tudo isso em um meio que obedece a leis bastante próprias. Esse é o ponto de partida do novo filme de Fernando Coimbra, uma espécie de thriller tragicômico à moda carioca.

Coimbra estreou em 2013 com o longa-metragem “O Lobo Atrás da Porta”, trabalho também em parceria com Leandra Leal, e que mostrava de forma sofisticada seu talento para contar histórias que fisgam o espectador na poltrona. De lá pra cá, o brasileiro trabalhou na direção de episódios de séries internacionais como “Narcos”, “Outcast” e “Perry Mason” e no filme “Castelo de Areia” (2017), com Nicholas Hoult e Henry Cavill. Por isso, “Os Enforcados” marca um retorno do cineasta ao Brasil e ele faz isso da melhor maneira possível: utilizando seus talentos para construir um bom thriller ambientado no coração do crime carioca.

Por mais que Zeca Pagodinho possa se surpreender com a ilegalidade do jogo do bicho, essa modalidade de loteria é ilegal desde a década de 1940, fato que não diminui a sua marca sócio-cultural no imaginário dos brasileiros nos últimos 100 anos. O jogo do bicho está nas esquinas dos bairros, está nas escolas de samba e está no imaginário pop recente – em 2023 a série documental “Vale o Escrito”, do Globoplay, se transformou em sucesso nas redes, rendendo cortes, memes e debates. Por tudo isso é interessante pensar no caminho que o longa “Os Enforcados” resolve assumir: esse é um filme sobre negócios escusos, sobre criminalidade e também sobre a violência urbana, mas é acima de tudo um filme sobre família, sobre este casamento de Valério e Regina, e sobre como eles irão meter os pés pelas mãos na tentativa de honrar seus votos matrimoniais.

A partir da ganância de Regina, o casal acaba mergulhando mais do que gostaria no jogo sujo da família e isso levará a consequências inimagináveis – e que levam o espectador do riso ao espanto em poucos segundos. Para tanto, Coimbra foi buscar inspiração em um clássico de William Shakespeare: a maldita peça “Macbeth”. O jogo moral e a decadência desencadeada pela ambição e o poder são matérias centrais da obra shakespeariana e serviram de base para delinear muito do universo de “Os Enforcados”, que teve seu roteiro iniciado ainda em 2015. Naquele ano, o roteiro de Fernando Coimbra participou do laboratório de Sundance, sendo premiado dois anos depois com o Sundance Global Filmmaking Awards, prêmio de reconhecimento e apoio a cineastas independentes emergentes. No entanto, a carreira internacional de Coimbra combinada com a pandemia de covid-19 acabaram adiando o projeto. Indo e voltando neste roteiro em todos esses anos, Fernando acabou conseguindo construir um universo extremamente bem amarrado, com nuances e complexidade para o universo ficcional de seus personagens.

Valério é magistralmente construído por Irandhir Santos, merecidamente um dos mais celebrados atores de sua geração. Santos navega com firmeza entre as inseguranças e os arroubos de violência de seu personagem, dando a nuance clara de alguém que poderia ser monstruoso, mas que aqui se mostra apenas humanamente perdido em seu próprio universo de valores morais. Já sua parceria Regina é defendida com unhas e dentes por Leandra Leal, atriz que já tinha entregado uma de suas melhores atuações em sua parceria anterior com Fernando Coimbra. Leandra cresceu nas telas, era sempre a personagem doce de filmes e novelas e sua monstruosidade em “O Lobo Atrás da Porta” a colocou em um outro campo de visão do público, e aqui a atriz alcança novamente outro patamar. Sua maturidade e seu corpo são colocados à serviço de sua personagem. Não seria exagero em brincar que Regina é o “momento Michelle Pfeiffer em ‘Scarface’ (1983)” de Leandra Leal, mesmo que, curiosamente, o filme de Coimbra leve Regina em caminhos até mais próximos da espiral Tony Montana (Al Pacino) de descaralhamento.

Ao lado dos dois protagonistas, brilham as presenças de Ernani Moraes e Stepan Nercessian, dois atores de talento humorístico único e que se encaixam de forma maravilhosa no jogo quase farsesco que cerca o ambiente do casal de protagonistas. Além disso, temos a presença certeira de Irene Ravache como mãe de Regina. Uma das grandes damas da atuação, Irene se joga no tom absurdo de sua personagem e entrega alguns dos momentos mais divertidos de “Os Enforcados”, tudo com a segurança e a firmeza de uma atriz que sabe o tom certo de cada palavra, de cada olhar. Todos esses atores brilham dentro de uma embalagem cuidadosa, com uma riqueza técnica que auxilia na criação desse clima de tensão que habita toda a narrativa. Para completar, a trilha sonora assinada por Thiago França dá o arremate final, trazendo uma crueza estética muito forte que dialoga de forma interessante com o uso de músicas populares em importantes momentos do filme.

Indo da comédia ao completo absurdo gore, “Os Enforcados” nos entrega um interessante espetáculo de violência e decadência moral. E é quase cínico como esse universo de absurdos se conecta com um mar de notícias reais da violência urbana brasileira – especialmente no submundo do crime carioca; a realidade nos lembra que o filme de Fernando Coimbra nem é tão surreal assim. De qualquer modo ainda falamos de cinema e ficção aqui, por isso quando nos suspendemos do real por duas horas somos presenteados com uma das experiências mais incorretamente saborosas de 2025!

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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