Crítica: “Juntos” peca por falta de sangue, excrementos e vísceras

texto de Leandro Luz

Psicótico, neurótico, todo errado. Assim é “Juntos” (“Together”, 2025), de Michael Shanks, tal qual o refrão da música que abre o grande disco “Eu Não Peço Desculpa” (2002), de Caetano Veloso e Jorge Mautner. Os versos da canção de autoria de Mautner continuam: “Só porque eu quero alguém / Que fique vinte e quatro horas do meu lado / No meu coração, eternamente colado”. Misturando comédia e terror, o filme de Shanks apresenta inúmeras imagens que colocam determinada ideia de relacionamento em evidência, utilizando-se de elementos tradicionais do body horror e fazendo do próprio corpo a principal fonte de sua monstruosidade.

“Juntos” começa com o casal Tim e Millie – interpretado pelo casal da vida real Dave Franco e Alison Brie – demonstrando dificuldades em seu cotidiano a dois. Ele é um músico frustrado, ela uma professora da educação infantil que acabou de aceitar um novo emprego em uma cidade do interior. A mudança parece servir como um impulso para que eles consigam dar um passo além em seu relacionamento e para que resolvam os seus principais conflitos, sobretudo a falta de desejo sexual e profissional de Tim. A ideia de abandonar o sonho de rockstar mexe com a sua cabeça, que acaba aceitando fazer parte de uma turnê com a antiga banda, ainda que isso custe longas viagens de trem e o distanciamento de sua companheira.

No entanto, diante de um evento sobrenatural vivenciado pelas personagens logo nos primeiros dias na nova vizinhança, Tim jamais consegue partir em direção ao sonho adolescente. Embevecido por uma recém-adquirida e inexplicável atração por Millie, o seu corpo toma o controle, impedindo que se distancie, ainda que por breves momentos, de sua amada. Algumas pistas pavimentam o caminho e sustentam a tese de que as personagens estão lidando com um tipo perigoso de culto. Sinos adornados com frases misteriosas, um antigo templo soterrado pela floresta, um vizinho misterioso e histórias de seitas que habitavam a comunidade atravessam o caminho de Tim e Millie que, aos poucos – ele primeiro -, vão tomando consciência do perigo no qual estão metidos.

Em seu primeiro longa-metragem, o diretor australiano aposta todas as fichas no carisma de seus protagonistas e na inconsequente combinação entre a comicidade e a repulsa. As interpretações de Dave Franco e de Alison Brie funcionam até certo ponto, e em raríssimos casos provocam uma faísca verdadeiramente excitante (como no suspense criado para a cena asquerosa do banheiro na escola). Franco adota uma postura angustiada, tentando trazer camadas de realidade para justificar, desnecessariamente, a aproximação com o sobrenatural. As suas crises de pânico se confundem com os eventos bizarros protagonizados pelo seu corpo. Brie, por sua vez, aposta no semblante da mulher frustrada e segue monótona até os momentos finais do filme.

À medida em que avança, “Juntos” soa cada vez mais presunçoso. Como longa-metragem, falta consistência tanto para as personagens quanto para a mitologia criada para emoldurar a história. Michael Shanks ganhou reconhecimento há alguns anos, na ocasião do lançamento de “Rebooted” (2019), premiado curta-metragem, disponível no YouTube. O curta conta a história de um esqueleto criado em stop-motion que enfrenta dificuldades para encontrar novas oportunidades de carreira em Hollywood, até que se depara com a produção de um reboot do seu filme de maior sucesso, uma mistura de peplum e fantasia. A impressão final é que a premissa de “Juntos” também poderia dar um ótimo filme de curta duração, mas ao estruturar as ideias em um longa-metragem, algumas lacunas importantes não preenchidas atrapalham o seu desenvolvimento. Notem, por exemplo, como Jamie, o vizinho interpretado por Damon Herriman, é pouco aproveitado e completamente esquecido no desfecho.

Em comparação com experimentos recentes que aproveitam do mesmo imaginário – e podemos citar “Maligno” (“Malignant”, 2021), de James Wan, como um dos principais expoentes -, o filme de Michael Shanks se perde em sua própria inconsistência. O uso da escatologia para tecer um comentário filosófico a respeito da humanidade e da vida a dois é rasa tal como um pires. Inclusive, é frustrante como há uma negação pelo uso do horror gráfico no decorrer de quase toda a obra, não no sentido de acumular tensão e preservar o espectador para um grande acontecimento posterior, mas abdicando mesmo de uma relação mais intensa com o gore. Em certo sentido, parece querer repetir o choque que “A Substância” (“The Substance”, 2024) causa em seu ato final, sem ter a habilidade para tal. Goste-se ou não do filme de Coralie Fargeat e da interpretação de Demi Moore e de Margaret Qualley, é inegável como os seus vinte minutos finais são implacáveis no que tange ao grotesco.

Falta sangue, excrementos e vísceras em “Juntos”, e não porque isso seja esperado de uma obra conectada às tradições do body horror, mas principalmente pela própria natureza da sua narrativa. O filme faz questão de, a todo momento, nos lembrar de que estamos vendo algo físico acontecer, não deixando dúvidas para uma interpretação de viés mais psicológico. Quando os braços e as pernas de Tim e Millie começam a se misturar uns com os outros, cortando a pele e atravessando a carne, não se vê uma gota de sangue sequer. É apenas o ato do corte, da separação, que dá origem a alguma consequência espúria, imoral ou obscena. Um contrassenso crítico, aliás, já que é justamente no oposto, ou seja, no ato da comunhão, que se esperaria encontrar a manifestação da mais perversa violência.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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