Entrevista: Gabriel Leal, ex-Scracho, prepara primeiro álbum solo ancorado em ritmos brasileiros

entrevista de Júlia Tetzlaff Rosas

Gabriel Leal está em um momento de virada. Conhecido por seu trabalho como guitarrista e compositor na banda carioca Scracho, o músico agora apresenta seu primeiro álbum solo, inaugurado pelo single “Versão Limitada”. A faixa marca o início de uma nova fase construída a partir de composições guardadas ao longo de anos e é um misto de sonoridades brasileiras e contemporâneas.

Hoje morando em Berlim, Gabriel encontrou no contraste entre o cotidiano europeu e as referências musicais brasileiras o ponto de partida para este novo trabalho. O resultado? Um misto de baião moderno com arranjos orgânicos e uma atmosfera muito, muito solar. “Versão Limitada” fala sobre recomeços e identidade, o que tem tudo a ver com essa nova fase dele, e vale muito a pena conferir.

“‘Versão Limitada’ é um baião com aquela mensagem de coração partido, um quase ‘forremo'”, explica Gabriel. “Por morar fora do Brasil faz muitos anos, foi crescendo a necessidade de viver a minha brasilidade de alguma forma e as músicas tem refletido isso. Eu posso dizer que estou muito feliz com o resultado”, revela o músico. Para inaugurar esse momento de transformações, Gabriel conversou com o Scream & Yell.

Muitas pessoas te conhecem da época da banda Scracho. O que você poderia dizer que mudou daquela época para cá em seu trabalho e o que você acha que continua?
Nossa, muita coisa mudou daquela época! O meu último trabalho lançado com a banda foi em 2012. Desde então eu casei, fui morar fora, tive filho, separei… Foram muitas vidas vividas na mesma vida desde então, o que influencia como a gente enxergar o mundo, o que é, de fato, importante e tal. E tecnicamente você vai se aprimorando. Eu tenho a sorte de sempre ter sido compositor e o compositor não se prende a uma identidade, porque ele pode ser gravado por artistas diversos. Acho que isso me ajudou a continuar desenvolvendo o que eu fazia lá atrás. E como tudo acaba se conectando, não seria possível se não fosse a base que a banda me deu. Uma coisa é você fazer uma música no seu quarto e achar que ela tem potencial. Outra coisa é você ver na prática o que as pessoas curtem ou não. Isso vai te dando confiança no seu próprio feeling. Então, respondendo à pergunta, o que eu acho que continua é o meu estilo de compor músicas. Continua existindo em mim o emo de “Você Mudou” e “Canção Pra Te Mostrar” ou o “Reggae de Divina Comédia” e “Cuida de Mim”, a idade só tem me ensinado a achar outros caminhos para falar o que eu penso e sinto.

Você pode nos contar brevemente sobre seu novo projeto? Para quem ele é?
Que pergunta interessante… eu, quando em banda, nunca pensei em para quem um disco era para ser. Penso que esse é para mim, antes de tudo. Acho que arte é isso. Algo que vem de dentro e precisa ver o mundo. Se outras pessoas vão gostar, é outra camada. E aí vem um lance de validação que o artista também acaba se encontrando. Estamos eternamente caminhando nesse espectro entre o puramente artístico/pessoal e a busca pela validação. Esse projeto nasceu de uma necessidade minha de ouvir músicas que foram se acumulando ao longo dos anos e que eu estava vendo que iam morrer na gaveta. Eu ficava esperando alguém gravar, por achar que eu não conseguiria gravar as minhas próprias músicas e aquilo ia me incomodando. Até que decidi gravar. Tem também aquilo do feeling que falei. Além de  gostar muito dessas músicas, sinto que elas vão tocar outras pessoas também de alguma forma. Claro que não vai ser dentro da embalagem Scracho que as pessoas estão acostumadas, mas mesmo assim acredito nelas. E por morar fora do Brasil faz muitos anos, foi crescendo a necessidade de viver a minha brasilidade de alguma forma e as músicas tem refletido isso. Eu posso dizer que estou muito feliz com o resultado, então boa parte do público-alvo já foi alcançado.

Se você pudesse realizar um sonho hoje, qual seria?
Engraçado, a paternidade cria um deslocamento do objeto dos nossos sonhos. Você deixa de sonhar para você e torce/sonha para que seu filho alcance o que ele quiser/puder, criando projetos que possibilitem isso. Acho que é natural eu ter deixado de sonhar para mim nos últimos anos, mas esse projeto reacendeu isso. É um sonho, que eu deixava de acreditar ser possível por medo de fazer isso “sozinho”. As aspas são porque, apesar de ser um trabalho solo, eu pude contar com muita gente, que fez esse trabalho acontecer.

Você pode nos contar três influências musicais fortes de hoje para você?
Muito difícil diferenciar entre o que tenho escutado e o que acaba virando influência. Pode ser que o que eu escute hoje vire referência numa música em cinco anos, pode ser que me dê vontade de fazer algo parecido agora. O que eu tenho escutado bastante é o novo disco do Xamã, Chico César e Jota.Pê. E tem um artista novo, que eu tenho ouvido as músicas e curtido muito, chama Gabriel Leal.

Você tem um álbum preferido, que você diria que é o melhor de todos?
Tem muito disco que marcou a minha vida, não vou conseguir nomear só um, mas outro dia lançaram o do Farofa Carioca, “Moro no Brasil” (1998), no Spotify, e eu escutava muito quando mais novo, e me toquei que é um disco que eu colocaria no meu Top 5 brasileiros de todos os tempos. Então com o risco de ser injusto com 80 outros discos, eu diria: “Acabou Chorare”, dos Novos Baianos, “Refazenda”, de Gilberto Gil, “Moro no Brasil”, do Farofa Carioca, “Tábua de Esmeralda”, do Jorge Ben e vou por o “Nadando com os Tubarões”, do Charlie Brown Jr. pra representar o rock brasileiro.

Júlia Tetzlaff Rosas é bacharel em Letras – Português/Francês USP, english teacher e curadora do Groover

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