texto de Renan Guerra
Na periferia de São Paulo, somos apresentados a Gal (Shirley Cruz), uma mulher que atua como catadora de materiais recicláveis e que inicia o filme fazendo uma denúncia de violência doméstica contra o seu marido. Na busca de reconstruir sua vida após fugir desse relacionamento abusivo, Gal parte em uma jornada pelas ruas da capital paulista levando consigo seus filhos, Rihanna (Rihanna Barbosa) e Benin (Benin Ayo). A catadora pretende ir ao encontro de sua prima Val (Luedji Luna), que mora no outro extremo da cidade. Esse é o ponto de partida de “A Melhor Mãe do Mundo” (2025), o mais recente trabalho de Anna Muylaert, que estreia nos cinemas brasileiros neste dia 7 de agosto, dia em que a Lei Maria da Penha completa 19 anos de existência.
Para falar deste filme, é importante pensar na trajetória de Anna Muylaert, diretora que desenhou uma inventiva carreira com filmes que, muitas vezes, por diferentes caminhos falavam sobre as possibilidades amplas de maternidade, indo da exacerbadamente afetuosa mãe de “Durval Discos” (2003) à complexa maternidade de quem tem que deixar seus filhos para cuidar dos filhos dos outros em “Que Horas Ela Volta?” (2015). Nesses muitos anos, o cinema de Muylaert foi se politizando cada vez mais e, atenta ao seu tempo, a diretora busca levar para a tela discussões caras para se repensar os protagonismos femininos no cinema.
De todo modo, enquanto seu “A Melhor Mãe do Mundo” circulava por festivais internacionais, seu nome se viu em uma celeuma com o público brasileiro. Trabalhando na produção de uma adaptação cinematográfica de “Geni e o Zepelim”, canção clássica de Chico Buarque, Muylaert anunciou a escolha de uma atriz cis para o papel principal de Geni. Personagem da “Ópera do Malandro”, Geni sempre foi claramente uma travesti dentro da peça e, com o passar dos anos, se tornou um símbolo queer extremamente importante, então foi natural que os questionamentos em torno dessa escolha se tornassem aquecidos, levando o filme a modificar sua rota e voltar a respeitar a identidade de gênero da personagem, substituindo a atriz protagonista por uma atriz trans.

Essa discussão em torno da produção futura de Muylaert acaba também por respingar em seu atual lançamento: até que ponto precisamos pensar em quem conta determinadas histórias e por que as conta? Quem são os corpos e narrativas que esses narradores visam observar? Anna é uma mulher branca de classe média fazendo aqui um filme com um elenco essencialmente negro e que apresenta a via crúcis de uma mulher negra da periferia de São Paulo. É natural que essa história seja real e de viés e, enquanto público, acabamos propensos a determinadas leituras a partir disso. E é aí que entram as nuances de “A Melhor Mãe do Mundo” e acabamos nos debatendo com diferentes questões durante a sua projeção.
Essencialmente, como alicerce central do filme temos um elenco magistral. Shirley Cruz entrega uma atuação deslumbrante, ela é o coração do filme e sua presença na tela rememora as grandes atrizes do cinema que entendem as nuances e as delicadezas de se dialogar com a câmera. Ao seu lado, os pequenos Rihanna Barbosa e Benin Ayo atingem uma naturalidade e um carisma encantador. Seu Jorge e Luedji Luna, por sua vez, interpretam personagens cheios de realidade e, por isso mesmo, conseguem nos transmitir raiva, rancor e outros sentimentos confusos – Seu Jorge consegue captar com magistralidade a complexidade dos homens que são ao mesmo tempo sedutores e violentos, charmosos em um segundo e destrutivos em outro.
Num primeiro momento, “A Melhor Mãe do Mundo” parte dessa trajetória feita por Gal ao lado de seus filhos por São Paulo para criar uma jornada ampla, lúdica e cheia de compaixão, que nos apresenta a fragilidade dessa mãe – ela não é uma super-heroína, ela é uma mulher de carne e osso tentando dar conta de ser a melhor mãe do mundo, apesar do mundo! Num segundo momento do filme, já somos confrontados com a experiência da violência doméstica no meio dessas relações familiares de Gal: a experiência de ter seus medos diminuídos, de ter suas questões confrontadas frente a uma necessidade de preservação de uma fajuta família nuclear. Essa parte é a mais dolorosa de se assistir, por que se mostra extenuantemente real. Parece uma marca usual dos filmes de Muylaert, essa coisa de lado A e lado B de um disco, desde lá de sua estreia em “Durval Discos”: no lado A passamos pelas belezas imaginativas dessa mãe pelo centro da cidade para depois, no lado B, sermos confrontados com a complexidade das relações familiares que nos aprisionam em aparentes becos sem saída.
Fato é que “A Melhor Mãe do Mundo” não é um filme de fácil digestão: é incômodo e mexe com nossas perspectivas, pois, de um modo muito inteligente, o seu roteiro consegue humanizar todos esses personagens e, por isso mesmo, os torna tão palpáveis – é aquele tio que bebe demais nas festas de família, aquela prima que esconde hematomas, aquela sobrinha que tem medo do pai. Com isso o filme trafega num limiar perigoso em que poderia se transformar apenas em uma exploração desse sofrimento feminino negro, mas há uma sabedoria de felizmente inflar a história com outras possibilidades, com respiros e são nesses momentos que o olhar e a delicadeza de Shirley Cruz brilham como nunca.
“A Melhor Mãe do Mundo” não é leveza, pelo contrário, é um chacoalhão para que a gente debata e reflita sobre tudo que está dito na tela e tudo aquilo que fica subentendido nas entrelinhas. Infelizmente, há temas em que não há jeito suave de se tratar e que a crueza se faz necessária.
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– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava.