Faixa a faixa: a Jupta cristaliza sua identidade e abraça o pop em “Ultra”

texto e entrevista por Davi Caro

A palavra “pop” pode ser quase ofensiva para muitas bandas que surgem, diariamente, do underground. Não é o caso, no entanto, da Jupta. O quarteto jundiaiense lançou, no último dia 30 de julho, seu terceiro álbum, “Ultra” (2025) – um trabalho que reafirma a identidade musical do grupo, consolidando a sonoridade explorada nos dois discos anteriores (“Um Pouco de Paz Antes que Tudo Acabe”, de 2018, e “Minha Casa É Longe Daqui”, de 2020) e dando uma guinada sonora decidida, madura e bem estruturada.

Para Mateus Flores (vocais), Marcus Vinícius (guitarra), Daniel Martinho (baixo e vocais) e Henrique Oliveira (bateria e vocais), essa aproximação com timbres e estética mais modernos passa longe de soar deslocada. Pelo contrário: se os dois discos anteriores já sinalizavam o potencial de uma das mais promissoras e interessantes bandas em atividade no momento, “Ultra” escancara o talento dos quatro em compor canções que miram na atemporalidade, ao mesmo tempo em que tocam em elementos e questões atuais mais pertinentes (e intimistas) do que nunca.

“Essa é a personalidade que nós quatro temos, e acho que não vamos ficar tentando nos adaptar a algo completamente falso”, disse Flores na conversa que a Jupta teve com o Scream & Yell, no ano passado. E “Ultra” não poderia ser mais fiel a este pensamento. “Por mais que esse álbum seja mais trabalhado, o processo de fazer o disco foi mais livre, mesmo”, revela Henrique. E foi mais colaborativo, quisemos jogar tudo nas músicas. E o disco saiu desse jeito por causa da liberdade que tivemos”, completa o baterista.

O release de “Ultra” afirma que as novas faixas falam sobre transformação, intensidade e libertação. “Hoje, mais do que nunca, existe a necessidade de se livrar de todo tipo de preconceito, e do peso que faz parte da rotina de qualquer pessoa”, pontua Daniel. “É se aceitar como você é, independente da bandeira que você carrega, e se conhecer”, diz o baixista. Flores completa: “É sobre se libertar e se aceitar também. Se libertar dos medos e seguir em frente”. Abaixo, o grupo passeou pelo disco novo na íntegra, faixa a faixa. Acompanhe.

01) “Sangue” –

Daniel: Muito desse disco foi composto na casa do Henrique, que mora mais longe. E essa quase não entrou no disco, vale citar.

Flores: Sim, ficamos entre “ACORDAR” e “Sangue”, para começar o disco.

Daniel: Isso, e as duas “brigaram” muito entre si, porque eram muito parecidas, no começo. E hoje é uma faixa da qual gostamos tanto que, além de termos colocado no início do disco, já experimentamos abrir shows com ela. Achamos que não ia ter muito destaque, e acabou já sendo bem importante.

Flores: Eu sempre confiei nela (risos). Realmente trabalhamos ela na casa do Henrique, que já tinha um arranjo de cordas, e eu até já tinha comentado com o Marcus sobre o que eu buscava, esse estilo mais “palhetado”. Não tínhamos nada assim antes. E até pela temática, já que é uma das poucas letras que já fiz depois de estudar, li livros de poesia para me inspirar, e já sentia que seria uma faixa forte. Por isso pensei nela para a abertura, para começar do jeito certo. Tem uma agressividade, que eu precisava para, como um homem gay, expressar minha incredulidade diante de tantas coisas que acontecem. E em “Sangue” eu quis falar tudo direitinho, pra não me arrepender depois (risos). Está no meu Top 3 das músicas que já fizemos.

Daniel: Ela não tem muita progressão melódica, e acabamos ficando felizes do jeito que ela ficou.


02) “Ultravioleta”

Essa também já foi testada ao vivo, e fica a impressão de que foi uma das primeiras nesse repertório a ser trabalhada. Essa ideia é real?

Flores: Sim, inclusive o plano de lançamento já contava com “Ultravioleta” como primeiro single, mesmo antes de começarmos a gravar. E queríamos reunir todos os elementos possíveis para poder resumir o disco. Tem uma atmosfera meio “punkzinha” nas guitarras, tem o baixo com [o efeito] chorus, tem os sintetizadores…

Daniel: A própria letra já é quase um resumo da trajetória da Jupta até agora, e tem referências a “Chuva” (de “Um Pouco de Paz Antes que Tudo Acabe”). Até por isso foi pensada em abrir os lançamentos, e como uma abertura de portas tanto pra nós, para trabalhar o material novo, quanto para o público captar as transformações da banda.


03) “Cansei”

Flores: Essa foi o Marcus que trouxe.

Daniel: Acho que era uma espécie de residual que ele tinha dos primeiros anos, por isso o timbre de guitarra. Porque, nas outras músicas, todos se esforçaram para criar essa nova identidade, mas essa tem essa cara do Marcus, nesse som mais cru. Claro que ela foi trabalhada para entrar no “Ultra”, tem os sintetizadores e o jeito que o Flores canta. Até na criação do baixo, quis seguir aquilo que ele criou, sem variar tanto.

Marcus: Dá pra ver que ela tem muito a cara do primeiro disco, até porque, na época, eu segurava a parte de cordas sozinho. Por isso não é tão melódica, e sim mais percussiva. Ela tem uma vibe parecida com “Tarja Preta” (do primeiro álbum). Mas levamos um tempo para trabalhar ela.

Daniel: A música ficou pronta só na pré-produção, mesmo. Antes ela era crua até demais, mas, com paciência, completamos a faixa.


04) “Quem Foi”

Flores: “Quem Foi” começou com uma “loucurinha” que o Henrique tinha feito, tinha uma letra diferente.

Henrique: Mas a “alma” dela continuou a mesma. Tiveram coisas que acrescentamos, e outras que complementamos.

Daniel: E ela tem um groove diferente. Na época que íamos até a casa do Henrique, ele estava trabalhando bastante no iPad, e tem várias músicas nossas que começam assim. E ele tomou a dianteira, fez a melodia do refrão. E, para fazer os slaps, nem precisei pensar muito, já que a música já pedia aquilo. E, de todas as que estávamos feito, essa é, de longe, a mais diferente. E mesmo sendo muito diferente, acabamos incorporando isso, e acho que as pessoas vão conseguir escutar a identidade da Jupta aqui.

Henrique: No começo eu achei que era diferente demais do resto das músicas. Mas mostrei pros caras e eles disseram “vamos colocar no disco”. Até a faixa da bateria é a mesma da primeira versão, e só adicionamos uma ou outra coisa. Mas não tinha como trocar, porque senão perderia toda a identidade da música.

Essa realmente é a faixa mais decididamente pop do repertório. Essa guinada musical, que aparece no resto do disco também, foi algo planejado, ou totalmente espontâneo?

Flores: Era para ter sido até mais pop (risos).

Daniel: Sim, e mais eletrônico. Tentamos colocar o máximo de elementos eletrônicos possível.

Marcus: Logo no começo, o Flores e eu tínhamos o plano de fazer o disco todo assim. Mas no final, ele acabou ficando mais “roqueiro” do que a gente imaginava. E “Quem Foi” acabou sendo uma das últimas que finalizamos. Tínhamos a referência do último disco do Nothing But Thieves, uma pegada bem anos 1980. Só que não conseguíamos aplicar, e aí o Henrique chegou meio incerto com a faixa, que era exatamente o que eu precisava. Mas chegamos a ficar duas horas de ensaio só trabalhando ela, até que o Chapola (produtor) chegou com algumas ideias de variações, e passamos mais um tempo mexendo na estrutura. E o Flores teve vários insights bons.


05) “Lapso”

Essa é a primeira vez que escutamos os vocais filtrados de uma forma mais distorcida, mais dúbia. Flores, como foi para você experimentar com esses tipos de ideias?

Flores: Eu adoro. Assim, depende da música. Eu sou muito chato com minha voz, mas pensei que “Lapso” tinha que ser uma coisa mais “podreira”, mesmo. Não acho que sou um bom cantor, e penso que conto histórias mais do que canto. Mas aqui eu queria ter um pouco mais de drive. E nessa tem aquela raiva, um ódio sendo resolvido. Falando sobre o disco como um todo, ela é tipo um clímax, um momento de destruição. Por isso tem uma sonoridade quase industrial, com o breakdown, e toda aquela sujeira.

Daniel: Essa não foi tão pensada. Ela nasceu do que fazíamos nos intervalos entre uma música e outra.

Marcus: Sim, foi até em um final de ensaio de pré-produção, veio a ideia do riff e liguei todos os pedais. Gostamos do efeito, e aí gravamos só aquela parte, na época. No começo não gostei muito, achei muito simples e tal. Mas o Daniel veio e complementou a melodia.

Flores: Até o solo já saiu nesse primeiro ensaio.

Henrique: Sempre pensamos em adicionar coisas novas. Já estávamos mexendo com o som do piano, os efeitos de teclados, a bateria eletrônica: tudo descoordenado, mas já gravavamos. Ela teve nome mesmo antes de estar pronta (risos).


06) “ACORDAR”

Daniel: Ela vem do mesma época em que fizemos “Sangue”.

Flores: “ACORDAR” é como se fosse minha filha. Pela primeira vez na Jupta eu trabalhei uma faixa além da letra, sabe? Foi uma ideia que eu tive, depois de um dia em que eu simplesmente acordei inspirado, peguei o teclado e fiz. Já tínhamos a ideia de que seria um disco mais pop, daí fomos ensaiar e levamos ela.

Marcus: Ela é de antes da pré-produção. Na verdade, é uma das que finalizamos antes da pré com o Chapola. O Flores tinha todos os versos e não tinha refrão, aí fiquei com a missão de fazer os refrãos.

Daniel: Falando da música em si, ela ficou do jeito que o Flores trouxe, sem nenhuma alteração. Até na própria atmosfera dela.

Flores: O Chapola deu uns toques em algumas linhas que eu fiz. É legal, porque realmente se encaixa no conceito do disco: se “Lapso” veio pra destruir, um momento de revolta, acabar com pessoas tóxicas, “ACORDAR” é uma música na qual a gente se olha, se pega pela mão e diz, “vamos seguir.” Ela segue como que a mesma linha de “Ultravioleta”, é tipo um salmo (risos). É um lembrete do que nós somos e do que queremos ser.


07) “Seu Cheiro”

Henrique: “Seu Cheiro” é uma música bem pessoal, mesmo. Talvez seja tão pessoal que ela até mudou. Até o nome da cidade onde eu moro estava na letra (risos) e acabamos mudando.

Flores: Eu queria manter o nome na letra (risos).

Daniel: Foi o Henrique que começou a compor a faixa, e por isso é tão pessoal. Tanto que, na minha concepção, isso é o mais interessante sobre ela: é o produto de um coração romantizado, não foi algo que fizemos juntos. É uma música criada por um cara apaixonado, e abrimos todo o espaço para que o Henrique se destacasse mais no refrão. É ele que conduz, porque simboliza o que ele quis dizer. Então tem toda uma verdade romântica por trás dela.

Marcus: Tanto que toda a melodia, os refrãos, tudo veio dele. Só estruturamos, e fomos mexendo nela ao ponto de termos que pedir pro Chapola refazer algumas partes.

Henrique: Nós tínhamos prazo. Faltava uma música para fechar o álbum, aí ela apareceu. Tinham duas músicas do Flores, que precisavam de mais trabalho. Mas fui testar um equipamento em casa, sozinho, e todas as partes da música vieram sozinhas. Já tinha falado para a minha namorada que queria fazer uma música para ela, então já tinha alguns versos que guardei pra mim, mas já estava praticamente completa. Aí guardei, e pensei “acho que não vai com a cara da Jupta. Apesar de ter um refrão bem chiclete. Até bati o carro por causa dela: estava escutando enquanto dirigia e fiquei impressionado. Foi aí que resolvi mostrar pra banda, afinal a música quase me custou um parachoque (risos). Mostrei primeiro pro Flores, e a reação dele foi a melhor possível. Aí mostrei pros outros.


08) “Meu Lugar”

Flores: Além de ser a mais curta do álbum, também foi a mais rápida de se fazer. No final de um ensaio da pré, quando o Marcus começou a improvisar, eu lembrei de um verso que tinha no celular e pensamos “vamos tentar?”. No dia seguinte sentei na frente do computador para tentar fazer uma letra, e ela ficou pronta super rápido, quase psicografada. Ela é como a irmã mais nova de “Ultravioleta”; na hora de fazer o setlist, temos até que pensar em uma distância entre uma e outra (risos). Mas essa similaridade é totalmente espontânea.

Marcus: As duas tem algumas semelhanças musicais, mesmo. Falando de ritmo e melodia, são mais voltadas para o punk e para o pós-punk. Eu estava na vibe de escutar o Bad Nerves, que é uma banda muito legal, e também tem algumas coisas a ver com The Hives, o pessoal com um som bem “guitarrado”. Não sabia se cabia no repertório, mas o Flores insistiu que cabia. Até por isso, ela é mais crua, tem menos presença de sintetizadores. Eu penso nela como uma irmã mais nova de “Helena”, do primeiro disco, bem rápida, e bem certeira.

Daniel: Ela e “Cansei” são realmente mais parecidas com os trabalhos anteriores. Tem aquela coisa das palhetadas rápidas, umas entradas inesperadas… acho que até o acorde é o mesmo de “Helena”, é quase uma versão 2.0.

Marcus: E ela também tem um synth que o Matheus trouxe, me lembrou um pouco do Turnstile. Sem querer comparar, mas uma galera que curte, e for escutar, vai pensar “ah, faz sentido!”.

Flores: E eu adoro que vocês falam do Turnstile quando o objetivo era Legião Urbana (risos).

Daniel: E é uma música bem pessoal para o Flores. Inclusive no show ele faz questão de comentar sobre isso, por causa da temática. Tem muito a ver com a questão de pais ausentes, e acho que é porque saiu tão fácil para ele. E muita gente pode se identificar com ela, ou mesmo ressignificar a ideia da música. Ela é rápida e objetiva, mas também sentimental.

Flores: E pra mim serviu como uma cura, inclusive. Eu estava muito chateado, e assim que terminei me senti mais leve. É disso que a letra fala: minha consciência está tranquila, mesmo que ela não tenha resolvido minhas questões. Inclusive, minhas próprias relações são mais leves depois de ter feito essa letra. Então ela é realmente sobre cura.

Henrique: E além de tudo é uma música bastante animada.


09) “Espiral”
É interessante perceber que a faixa mais curta do disco é seguida pela mais longa. Além da duração, o que também surpreende é perceber que “Espiral” seja, talvez, o mais próximo que a Jupta já chegou de um som mais voltado para o prog. E parte disso pode ter a ver com a percepção de que a música foi a somatória de várias outras ideias muito diferentes, e depois mescladas. Vocês concordam?

Flores: Ela foi uma das primeiras a serem pensadas, mesmo antes de o Marcus voltar para a banda.

Daniel: Tudo começou na época do “Minha Casa É Longe Daqui”, nós ainda estávamos nos conhecendo, aprendendo a trabalhar naquela combinação bateria-baixo-vocais, e veio bem no início. Eu tinha acabado de começar a usar um pedal de phaser, deu para experimentar bastante com levadas diferentes. Talvez por isso ela seja mais prog, porque partiu de uma coisa bem experimental, e o Marcus voltou no meio do processo. Por isso, até na própria música, a guitarra vai aparecendo aos poucos. Por isso acho que, junto com “Quem Foi”, ela destoa um pouco do resto do repertório.

Flores: “Espiral” inicialmente não fecharia o disco, tínhamos pensado em encerrar com “ACORDAR”. Precisamos ouvir muito e entender cada música. Eu sou muito pirado com esse negócio de ordem das músicas. Pra mim, é quase uma religião. E isso foi acertado, porque “Espiral” é uma ode ao tempo, e fala sobre perdoar. Isso é importante para o conceito de libertação, é preciso perdoar. Por isso escolhemos ela para fechar. Aliás, o refrão veio de um trecho de “De Saída” (de “Minha Casa É Longe Daqui”), a faixa que usávamos para encerrar os shows da turnê anterior. Então também tem um easter egg ali. Tanto musical quanto conceitualmente, é uma música bem completa, e por isso precisamos trabalhar bastante com ela.

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

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