Entrevista: “Senti muita saudade dessa atitude destrutiva (da Cachorro Grande ao vivo)”, revela Beto Bruno

entrevista de Homero Pivotto Jr.

O documentário “A Última Banda de Rock” (2025) retrata a trajetória de 25 anos da Cachorro Grande, conjunto gaúcho que adotou São Paulo como base. Se o título do filme se justifica, cabe ao prezado leitor/ouvinte decidir. Mas a brincadeira, que dá margem a interpretações, certamente tem a ver com a postura debochada que permeia a história do grupo – aquele lance de se levar a sério, pero no mucho. A obra audiovisual retrata, em meio a desavenças internas e conquistas (entre elas, abrir o show dos ídolos Rolling Stones em Porto Alegre, em 2016), como o conjunto implodiu, ficando em hiato por cinco anos.

Mas o ofício criativo e o gosto pelo palco são uma cachaça difícil de largar. Então, desde o ano passado, a Cachorro Grande retomou as atividades, revigorada. “Continua sendo um show diferente do outro. Cada apresentação é imprevisível, o que era uma coisa que diferenciava a banda e senti muita saudade dessa atitude destrutiva”, confessa o vocalista Beto Bruno em entrevista ao Scream & Yell.

Além do cantor, o time atual conta com os integrantes originais Marcelo Gross (guitarra) e Gabriel “Boizinho” Azambuja (bateria), além de Pedro Pelotas (teclado, na formação desde 2004) e o recém-agregado Eduardo Barreto (baixo).

Com mais de dez álbuns e DVDs lançados, a Cachorro Grande tem uma obra relevante no cenário musical brasileiro deste século – sendo considerada a mais importante banda de rock’n’roll de sua geração pela MTV Brasil, o que justificaria o nome do doc citado no começo deste material. Porém, como diz o ditado: quem vive de passado é museu. Por isso, a banda promete não apenas shows com clássicos de outrora, mas também material inédito. “Estamos preparando um disco novo a ser gravado no início do ano que vem pra voltarmos definitivamente”, adianta Beto.

Na entrevista a seguir, feita via troca de mensagens com o vocalista, o músico trata sobre a retomada dos trabalhos, a mudança do sul para o sudeste, além de revelar artistas novos do Rio Grande do Sul que considera interessantes.

Como tu percebes o retorno da Cachorro Grande aos palcos após um hiato de cinco anos? O que acredita ter mudado na banda e o que permanece da mesma forma?
A grande verdade é que eu estava morrendo de saudades de dividir o palco com o resto da banda. E acredito que eles também. É só olhar nossas caras de felicidade nesses shows da turnê de 25 anos que vão saber do que estou falando. O que mudou é o respeito que temos entre nós nesse momento, e o que não mudou, é o altíssimo volume em cima do palco .

Aliás, em perspectiva, acredita que a pausa foi positiva? Tipo: era algo necessário ou talvez tenha sido algo que não precisava rolar?
Esse hiato de quase seis anos foi muito importante pra todos na banda porque aprendemos a valorizar tudo que aconteceu nesses anos todos de estrada. As feridas cicatrizaram.

E como tem sido as apresentações dessa nova fase, depois de um tempo parado? Do que tu mais sentias falta?
Os shows estão incríveis! E continua sendo um show diferente do outro. Cada apresentação é imprevisível, o que era uma coisa que diferenciava a banda e senti muita saudade dessa atitude destrutiva.

A Cachorro ficou conhecida pela energia dos shows. Foi fácil retomar essa característica no retorno? E, depois de tanto tempo na estrada – do rock e da vida –, como fazer pra manter o vigor na hora de subir no palco?
Acho que o grande segredo é respeitar o público e cada palco em que pisamos. Ainda temos uma cobrança entre nós de fazer sempre um show melhor que o outro. Assim nunca vamos deixar de curtir cada momento no palco e entregar a plateia tudo o que a gente consegue fazer com total respeito sendo totalmente verdadeiros .

A Cachorro Grande é uma banda que nasceu no RS e adotou São Paulo – ou foi adotada pela Terra da Garoa. Contudo, manteve o sotaque gaúcho, literalmente. Mais uma vez em perspectiva, como essa troca de endereços impactou a convivência entre os músicos e a própria sonoridade do grupo?
Foi necessária a mudança pra capital Paulista pra maior repercussão em todo país, pois tudo que a gente faz aqui reflete no Brasil. Eu amo SP e desde moleque já queria morar aqui. Sermos abraçados por essa cidade incrível nos abriu as portas, foi uma das melhores coisas que aconteceu pra banda. A sonoridade da banda com certeza foi afetada pela cena rockeira local, tanto no underground como no mainstream. Com certeza aprendemos muito.

Recentemente saiu o documentário “A Última Banda de Rock”, que mostra parte da trajetória da banda até a pausa nas atividades. Na produção, tu dissestes que, após abrir para os Stones, teve uma epifania de que a banda já tinha dado o que tinha de dar. Por que isso?
Eu sempre falei brincando que se um dia a Cachorro Grande abrisse um show dos Stones a banda já podia acabar. Mas nunca imaginei, e claro que nunca quis de verdade, que isso acontecesse. Sempre foi uma piada interna que profetizou o fim. Depois de assistir ao filme, consegui ver como a história da banda é bonita e valorizo cada momento quando estamos juntos.

Interessante o título do doc, pois brinca com a ideia de que talvez não existam mais bandas de rock como “antigamente”, como a Cachorro. Tu achas que deveras não há mais artistas com essa atitude rocker de outrora?
O título foi sugerido pelo diretor Lirio Ferreira e todos acharam muito legal. Tem essa coisa debochada que a banda sempre adotou de nunca se levar muito a sério pra não deixar de ser divertido .

Complementando a questão anterior: sentiram-se confortáveis com o rótulo de última banda de rock?
Não saberia te dizer ao certo. Sinto falta de bandas que realmente são apaixonadas pelo que fazem.

Tenho um projeto chamado Novo Rock Gaúcho (www.novorockgaucho.com), que busca reverberar a produção de artistas autorais do Estado. Tem acompanhado o cenário do RS? O que tem achado?
Infelizmente, não consigo acompanhar o cenário gaúcho, porque moro em SP e só vou pro sul quando vou fazer shows. Mas tem uma banda de POA que gosto muito chamada El Negro .

Quais bandas da terrinha acredita que merecem destaque?
Além da El Negro, tem a Projeto Shawn. São as únicas bandas novas que conheço. Acho as duas o maior barato!

Pra fechar: como a Cachorro Grande deve funcionar daqui pra frente?
Estamos preparando um disco novo a ser gravado no início do ano que vem pra voltarmos definitivamente. Estou mais uma vez apostando todas minhas fichas na banda que eu mais amo, que é a Cachorro Grande.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.

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