texto de Leandro Luz
Uma das melhores reflexões em “Amores Materialistas” (“Materialists”, 2025), de Celine Song, dá-se no momento em que a protagonista Lucy, interpretada por Dakota Johnson, compreende estar diante de uma fantasia impossível, ou de um “unicórnio”, para usar o termo preciso do ramo das agências de namoro. Essa mulher moderna, solteira convicta após inúmeras desilusões amorosas, se desestabiliza quando Harry, o tal “unicórnio” vivido por Pedro Pascal, cruza o seu caminho. Com uma crença cega – resguardado o seu quinhão de interesse econômico – na ideia de que toda pessoa um dia vai encontrar a sua cara metade, com a exceção dela própria, Lucy se mostra relativamente tranquila com a sua independência, financeira e emocional, e aproveita para celebrar com as companheiras de empresa o seu 9º casamento arranjado. Será justamente na festa de núpcias de uma de suas clientes que ela precisará convencer a “amiga” a casar, utilizando como estratégia uma espécie de retórica para demonstrar que o real motivo de um relacionamento é a maneira como uma pessoa se sente valorizada pela outra. Os diversos conceitos que sobrevoam o substantivo “valor”, aliás, serão elencados pelo filme para provocar um debate a respeito, entre outras coisas, do casamento e do amor enquanto utilidade, negócio, mérito, estima e, no final das contas, fundamentos éticos que norteiam o comportamento humano.
Cidadã do mundo, Celine Song é uma diretora e roteirista de cinema nascida na Coréia do Sul e radicada no Canadá, país que a acolheu desde os 12 anos de idade e que é, portanto, a tradução do sentido de “lar” para ela. Ainda assim, Song vive e trabalha majoritariamente nos Estados Unidos hoje e, de uma maneira ou de outra, toda essa discussão a respeito das raízes e, consequentemente, dos valores de uma pessoa, muito presente em sua própria vida, também está entranhada em seus dois primeiros longas-metragens.
Em “Vidas Passadas”, hit de 2023 que conquistou corações mundo afora, a questão geográfica, atrelada à ideia de raízes, está posta de maneira mais evidente, com um enredo complexo o suficiente para transitar entre décadas e continentes. Para os desavisados que perderam o filme na ocasião de seu lançamento no Brasil, é importante aludir que o seu enredo se concentra na amizade e no romance em potencial postos em hiato por décadas entre Nora e Hae Sung, separados geograficamente quando ela se muda de Seul para Nova York. Já em “Amores Materialistas” (2025), segundo tijolinho semiautobiográfico na carreira já muito celebrada de Song, as personagens de Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal pouco exploram a cidade onde vivem (Nova York) em termos territoriais, mas mergulham com alguma profundidade em reflexões em torno de suas próprias origens.

Os três astros que seduzem o espectador no cartaz do filme vivem personagens em um triângulo amoroso previsível: Lucy é uma típica new yorker millennial girl com um emprego de “casamenteira” (profissão exercida pela própria diretora na vida real), funcionária de uma empresa que promete deixar os aplicativos de relacionamento no chinelo; John, o ex-namorado, nos é apresentado vestido de pinguim, fazendo bico de garçom enquanto a sua carreira como ator não deslancha – ele tem 37 anos de idade e não parece muito preocupado com a cruel dinâmica estabelecida em sua profissão (ainda que para homens a idade avançada seja um problema infinitamente menor do que para mulheres); Harry, por fim, é o príncipe encantado “perfeito” que rapidamente faz a nossa heroína suspirar. As linhas que desenham esse triângulo vão se construindo aos poucos, sem pressa e contam até com a ajuda de um flashback mal ajambrado – Lucy e John, quando ainda formavam um casal, brigam dentro de um carro e a discussão evidencia como a falta de perspectiva profissional e de dinheiro dele afetam a maneira como ela enxerga o futuro do relacionamento dos dois.
Ancorado no lastro das décadas de existência do filme de romance, “Amores Materialistas” é uma obra que caminha na corda bamba. Ainda que tenha a sua dose de cinismo e proponha certo discurso crítico com relação ao modo como as pessoas se relacionam no século XXI, por muitas vezes se deixa contaminar por uma ingenuidade indesculpável. Nesse sentido, as duas cenas que emolduram a abertura e o encerramento do filme são canhestras, afirmando um discurso a respeito do amor – cristão, binário – capaz de espantar até mesmo o último dos românticos. Apesar do primeiro plano possuir uma beleza desconcertante, mobilizando o nosso olhar em direção à natureza silenciosa – nos dando uma breve colher de chá antes de sermos arremessados dentro da montanha-russa urbana e verborrágica de todo o restante do filme -, logo a cena nos revela que estamos nos “tempos da caverna”. Somos apresentados aos primeiros humanos da era pré-histórica a firmarem o que a sociedade convencionou, posteriormente, a chamar de casamento. Um tropeço inicial difícil de superar.
Consciente dos clichês do gênero, Song constrói a sua obra em camadas, lançando ao vento temas de interesse os quais raramente se mostram bem explorados, ainda que mantenha a habilidade, demonstrada desde o seu primeiro longa, para conduzir de forma elegante e dinâmica o seu filme. De início, Dakota Johnson precisa escolher entre o pobretão Chris Evans e o ricaço Pedro Pascal, mas a cegueira da binariedade não compromete apenas a dramaturgia que se quer construir. O chavão que apresenta de um lado o candidato perfeito e do outro a pessoa instável com defeitos aparentes é muito pouco subvertido para um filme que se pretende minimamente lúcido como esse. Outras questões mais complexas também são postas em jogo, como a comparação entre a busca pelo amor romântico no mundo contemporâneo e o modo fútil, egocêntrico e frio inflamado pela presença cada vez mais impiedosa do capitalismo em nossas vidas.
É por meio dos clientes de Lucy, homens e mulheres sedentos para encontrarem a sua alma gêmea, que o debate chega em conceitos como o de “amor líquido”, por exemplo. A maior parte dessas personagens – à exceção de uma cliente de Lucy que acaba sendo usada como um (frágil) impulso narrativo -, surgem e desaparecem muito rapidamente, e todas apresentam as restrições e as expectativas mais estapafúrdias ao responderem ao questionário que determina as “caixinhas” nas quais elas buscam se enquadrar ou encontrar. Um quarentão afirma querer conhecer mulheres mais maduras, mas quando Lucy oferece uma candidata de 31 anos, ele diz que não estava pensando em alguém com mais de 27. Uma mulher apresenta um discurso racista, outra expõe caprichos que não contaria nem na terapia. São frases e expressões rasas, quase sempre sinceras, expostas por pessoas frequentemente filmadas com muito rigor por Song, se aproveitando de enquadramentos simétricos e frontais para evitar quaisquer ruídos na composição desses retratos.
Apesar do charme evocado pelo filme e seu elenco, é difícil engolir a maneira desastrada como a diretora tenta argumentar sobre pelo menos quatro coisas absolutamente distintas entre si, colocando tudo no mesmo balaio: a instituição casamento, a debilidade das relações humanas no século XXI, a manifestação do desejo e a abstração do amor. A diretora e roteirista mantém um pulso firme para controlar a mise-en-scène, sabendo exatamente como orquestrar personagens e atores sedutores, cenários e figurinos bem desenhados – reparem como a maneira de Lucy se vestir muda na medida em que se conecta emocionalmente com o seu passado – e uma trilha sonora que valoriza a atmosfera do flerte e da comédia romântica – dá para se deliciar por um par de horas escutando The Velvet Underground, Cat Power, Japanese Breakfast, St. Vincent, Neil Diamond, The Ronettes e Françoise Hardy.
Apesar da habilidade de Song para evocar imagens belas e por vezes surpreendentes, os assuntos se misturam freneticamente, sem que haja tempo para que compreendamos as particularidades de cada coisa. Lucy, por exemplo, demonstra desde o início não acreditar mais no “amor romântico”, estando mais interessada na possibilidade, ainda que remota, de encontrar um homem rico para casar. Mesmo assim, esse cinismo é suplantado em prol de um final particularmente inverossímil para a história que estava sendo construída até então. Contradições essas que vão enfraquecendo o filme a cada nova volta do parafuso.
No clássico “Iracema – Uma Transa Amazônica”, filme brasileiro de 1975, de Jorge Bodanski, relançado recentemente nos cinemas, lê-se, em um para-choque de caminhão, a seguinte sentença: “se casamento fosse bom não precisava testemunha”. Ou seja, se até o Brasil dos anos 1970 já sabia se posicionar com ironia diante das imposições sociais da instituição casamento, como é possível os habitantes de uma Manhattan em pleno 2025 ainda acreditarem em conto de fadas?

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.