Assista: “Gig Gerais – Por Dentro dos Festivais Underground de Minas Gerais”, documentário de Rodrigo Carvalho

entrevista de Bruno Lisboa

A cena undeground brasileira pode não estar na capa de jornais ou em destaque em programas de televisão, mas ela é extremamente ativa, criativa e potente. Como escreveu certa vez o jornalista Homero Pivotto Jr., aqui mesmo no Scream & Yell, “as cenas locais de música independente em distintas cidades compartilham mais afinidades do que diferenças”. Por isso, documentar essas cenas é de suma importância, não só como registro, mas como reforço de comprometimento, de ideais e de resistência.

Nessa toada, a cena mineira ganha um valioso registro com “Gig Gerais – Por Dentro dos Festivais Underground de Minas Gerais” (2025), documentário de Rodrigo Carvalho que potencializa iniciativas realizadas por coletivos de produção de festivais no estado voltados ao metal extremo e ao punk/hardcore como Kasa Soul (Divinópolis), Instituto Helena Greco (BH), Sete Lagoas Undeground (Sete Lagoas), Coletivo Grindisgraça (BH),  Fúria Coletiva (BH), Rock Generator (Ouro Preto) e Bom Despacho Underground (Bom Despacho), entre outros.

Produzido pelo coletivo Underground Noise Fest (Sete Lagoas) com edição e filmagem de  Davidson Mainart (baixista do Eminence) e disponibilizado gratuitamente no Youtube (assista abaixo), “Gig Gerais” promove um olhar interno de cada coletivo, apresentando, em minúcias, seus respectivos modus operandi que, de forma geral, vão muito além da música em si, pois articulam, em paralelo, diversas ações político-sociais visando transformar e conscientizar o público. O longa aborda os desafios de se atuar em tempos nos quais o combate a ideias reacionários são atuações necessárias.

Na entrevista abaixo, feita por e-mail, Rodrigo fala sobre o processo de produção do documentário, a importância das leis de incentivo, o mercado independente mineiro (“Acredito que há uma espécie de ‘sobrevivência coletiva’”), o papel do underground em tempos de ideais reacionários (“Acreditamos que tudo é político e não tem por que no meio underground, um pequeno recorte da sociedade, ser diferente”) e a busca por um novo público e de alternativas para fazer com que os eventos ocorram de forma sustentável, entre outras coisas. Assista ao doc e leia o papo abaixo.

Ps. No final do texto, assista aos três primeiros episódios do podcast “Fale Você Mesmo”

Como surgiu a ideia de produzir o documentário “Gig Gerais”? Houve um estopim ou foi algo que nasceu da convivência com a cena?
A ideia veio mesmo da convivência com a cena. Estar inteiramente inserido neste contexto despertou o interesse em contar a história de que anda pelos bastidores da produção underground. Outro ponto preponderante também, que faço questão de destacar, foi o investimento em cultura que estamos vivendo por parte do atual governo federal. Leis de incentivo – como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc – serviram de propulsoras para tirar essa ideia do papel.

O filme aborda uma ampla gama de coletivos espalhados por Minas Gerais. Como se deu a curadoria dessas iniciativas? Houve algum critério específico para definir quem entraria no recorte do documentário?
Queria registrar o máximo de estilos e coletivos possíveis, seja na questão da vertente, formato de produção, composição do coletivo. Como critério defini que fossem coletivos que estivem na ativa e cujos representantes fossem pessoas que tenham uma visão de mundo inclusiva, antifascista.

A cena underground mineira é retratada como diversa, plural e politizada. O quanto essa articulação política foi algo que você quis enfatizar desde o início do projeto?
Sempre que tivermos a oportunidade de reafirmar essas posições, iremos fazer. O próprio Underground Noise Fest foi criado num contexto político de golpe em 2016 e já era notório que o fascismo estava em ascensão no Brasil e no mundo. Acreditamos que tudo é político e não tem por que no meio underground, um pequeno recorte da sociedade, ser diferente. Logo não vejo problema em estar passando o recado para o pessoal que frequenta os eventos. Fico feliz em poder registrar tantos coletivos diversos e não ter dificuldades em encontrar posições políticas firmadas de uma maneira tão clara.

Na sua opinião, qual é o papel da música extrema nesse cenário de resistência?
Uma coisa está atrelada a outra. Tão importante quanto promover o som é poder impactar de forma prática o meio ao qual vivemos e o documentário conseguiu registrar bem essas iniciativas. Não só a música extrema, mas a arte em geral tem a função de mudar o nosso meio seja através da mensagem difundida, seja através de ações organizadas por estes coletivos.

Quais foram os maiores desafios de produção do documentário?
O maior desafio, na minha opinião, foi a questão de agenda. Foi bastante difícil conciliar a disponibilidade do entrevistado, com a locação, com o cinegrafista e a minha. Muitas vezes uma variante não batia e toda a agenda era modificada e nisto os prazos iam se apertando. Um segundo ponto foi como editar tanto material para que coubesse em um certo limite de tempo de duração ao mesmo tempo que se tornasse interessante e não cansativo. Isso inclusive impactou em não entrevistar coletivos que em um plano inicial estavam inclusos, mas por outro lado abre brecha para tentar, quem sabe, uma parte dois do documentário.

Muitos dos coletivos retratados enfrentam dificuldades para manter a cena ativa e sustentável. O filme aponta alternativas, mas houve algo que te surpreendeu positivamente nesse sentido?
Uma dificuldade quase que unânime foi a financeira, fazer os eventos serem viáveis economicamente é praticamente o desafio de todos. O underground está muito mais organizado e profissional, temos acesso a melhores backlines, por exemplo, mas isso eleva o custo para se fazer um evento. Várias bandas exigem com razão uma ajuda de custo mínima e que muitas vezes nem cobre o investimento da banda e foi-se o tempo em que se tocava por bebida e um colchão na casa de um brother. Dentre as alternativas citadas e algumas já em prática, é a criação de “coletivos dos coletivos”, criação de rotas dentro de Minas Gerias e o compartilhamento de backline entre os coletivos.

Você acredita que existe uma espécie de “consciência coletiva” entre essas iniciativas mesmo em cidades distantes?
Acredito que há uma espécie de “sobrevivência coletiva”. Mesmo com essas iniciativas de colaboração a cena como um todo tem dificuldades para se manter, logo sem essas ações seria muito mais difícil continuar o rolê. Com o passar do tempo e a manutenção dos eventos no sentido de periodicidade, faz com que se crie instintivamente uma série de condutas que tendem a garantir ao máximo a colaboração com todos os envolvidos.

Com a ascensão de ideais reacionários no Brasil nos últimos anos, como você percebe o papel da cena underground como contraponto político e cultural?
Acho que a cena underground nunca perdeu essa função. O que infelizmente temos agora, justamente como mencionado, é a ascensão do reacionarismo, fazendo com que as posições contrárias a estas ideias sejam entoadas de forma mais veemente. Porém o underground nunca deixou de se posicionar do lado certo da história.

A colaboração com Davidson Mainart, baixista do Eminence, foi essencial para a construção do filme. Como foi essa parceria e de que maneira a vivência dele na música pesou na estética do documentário?
O Davidson é um grande amigo de longa data. Para quem não sabe, ele é conterrâneo de Sete Lagoas e temos mais de 20 anos de amizade. Na primeira edição do Underground Noise Fest, lá em 2016, ele já estava trabalhando com audiovisual e foi um grande incentivador para que eu sempre registrasse o evento, e de lá para cá foram vários os trabalhos em parceria. Além da vivência na música, que de fato contribuiu para o sucesso do documentário, o Davidson tem uma larga experiência no audiovisual, trabalhando com artistas renomados em todo o Brasil, e essa bagagem foi primordial para a estética do documentário. A parte de fotografia no geral, animações, praticamente toda a trilha sonora, foi um trabalho minucioso do Davidson. Sugiro a quem queira produzir algum tipo de material audiovisual que dê uma pesquisa no vasto currículo dele, trampo de qualidade e acessível ao underground. Já estamos tramando os próximos trabalhos!!

O título “Gig Gerais” é, ao me ver, potente e simbólico. Como vocês chegaram a esse nome e o que ele representa para você?
Confesso que, até os 45 do segundo tempo, o documentário ainda não tinha nome. Jogando na roda tudo quanto é tipo de nome que vinha na cabeça, resolvi buscar ajuda de alguém que não estava inserido diretamente no processo e o Derlone (do coletivo Sete Lagoas Underground) sugeriu o Gigs Gerais. Mesmo em cima da hora o nome ainda ficou no stand-by, mas dentre os vários sugeridos este foi o que soou melhor. Ele faz um trocadilho com Minas Gerais, ao mesmo que representa todo o estado e representa também o rolê em si. Deixar claro que o documentário era sobre o nosso estado era um dos objetivos principais do trabalho e “Gigs Gerais” atendeu com sobra este objetivo. Por mais que os coletivos apresentados em sua grande maioria estejam concentrados na região central de Minas Gerais, o nome nos dá margem para uma parte dois e percorrer com tranquilidade por outras regiões do estado.

Você acredita que o filme pode servir como inspiração para outras regiões organizarem suas cenas ou documentarem seus movimentos?
Te confesso que não foi essa a intenção em um primeiro momento, mas se isso acontecer ficaria muito feliz. Quanto mais pessoas produzindo no underground, seja qual for a maneira, como audiovisual, bandas, eventos, merchandising, páginas, zines, selos etc, o movimento só tem a ganhar.

O que você espera que o público – especialmente quem não está diretamente envolvido com o underground – leve consigo após assistir ao filme?
Que o público de uma maneira geral compreenda o grande esforço que há por trás de quando se chega a em um evento e encontra ele pronto. O quanto há de trabalho sério, histórias, dedicação e sonhos envolvidos por trás de tudo. E outra coisa que mais espero é a valorização, mas valorização no sentido de comparecimento presencial, sair da internet, sair das reclamações, dar espaço para o novo, isso sim é valorizar!

Para fechar: quais os próximos passos? Há planos de exibir o filme em mais festivais ou pensar em uma sequência, talvez abordando outras regiões ou desdobramentos da cena mineira?
O documentário foi exibido na Mostra Grampo, em Ouro Preto e estamos abertos a convites! Uma sequência está sendo planejada, Minas Gerais é muito grande e há muita gente legal com boas iniciativas trabalhando sério em todo o estado, espero conseguir abranger mais regiões e dar visibilidade a mais coletivos.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br

 

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