introdução por Diego Albuquerque
Faixa a faixa por Y3ll
Y3ll, codinome de Daniel Oliveira, vive entre Guaianases e Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo. Desde 2016 está na vivência do hip hop e, nessa caminhada de quase 10 anos, fez parte de um grupo com amigos chamado Retângulo de Ouro e lançou alguns trabalhos. “Minha relação com rap sempre foi de fazer o que eu gostaria de ouvir e ter liberdade em fazer o que eu acho certo”, comenta Y3ll.
Entre seus lançamentos estão “Diaz dy Baile”, de 2019, feito em colaboração com produtor / trapper Sloope, e a coletânea solo “ART INpopular” (2021), que conta com diversas participações. Y3ll ainda lançou dois EPs: “Jazzchave” (2021), uma colaboração com o rapper Alamim e com produção de Trempa Palace, é focado em rimas sobre bases de jazz. Já o EP solo “Material pra Descarte” (2023) é todo formado por faixas não terminadas e experimentos.
Agora é a vez de “Entre Samples Roubados & Cerveja Barata” (2025), um álbum cuja sonoridade surge mais atrelada ao rap alternativo com ecos de city pop, indie, animes e música brasileira. Na caneta, o trabalho discorre sobre liberdade em tempos de redes sociais e o tempo todo online com versos sobre o capitalismo exploratório e o trabalho, tudo para pagar boletos. Uma ode a zona leste de São Paulo, região que ele ama, apesar de tudo.
Nos samples, “Entre Samples Roubados & Cerveja Barata” vai de Chaves a Tony Bizarro, passando por J Dilla, pela trilha sonora do filme “Shaft” e por falas de Zeca Pagodinho. “Fiquei feliz com resultado desse experimento, indo talvez a lugares não tão previsíveis em 15 minutos. Vejo a música como um experimento onde eu gosto muito de testar e tentar coisas… Sempre tento trazer um pouco da minha identidade nas minhas coisas”, avisa Y3ll, que abaixo comenta sei disco faixa a faixa!
Ouça o álbum na integra abaixo
01) “Livre” – Tive a ideia de “Livre” por conta de “Estou Livre”, música que Tony Bizarro lançou em 1983 (mas usamos a versão de 2015). Sampleamos o começo da faixa original e a ideia mesmo do som. “Estar Livre” é muito atual, ainda mais hoje em dia, em que somos refém das redes e de certas coisas fúteis que até perdemos nossa identidade no meio disso. Veio dai a ideia desse som.
02) “não se vão” – Gosto muito de city pop, música japonesa dos anos 90, 80 e 70. Ali tem muita coisa boa, principalmente pra mim, que gosto de colocar rimas em coisas mais groovadas. Daí ouvindo de maneira aleatória algo nessa linha, achei a faixa “On The Move”, do álbum com mesmo nome que Jun Fukamachi lançou em 1978. Foi um prato cheio pra eu colocar rimas que já estavam guardadas a um tempo. Só foi necessário adequar ao ritmo.
03) “coral (Part Sloope)” – Nessa faixa trago mais o meu dia dia, que é igual, provavelmente, ao de muita gente: casa / trabalho, trabalho / casa. Por morar no extremo leste de São Paulo, utilizo muito a linha Coral (da CPTM), que é a que liga Guaianases ao centro e demais locais de São Paulo. Tudo pra pagar os boletos que sempre tão aí, faça sol ou faça chuva. Essa faixa conta com produção do Sloope, 100% dele, sem samples (somente o recorte do Agostinho Cararra falando que a “cerveja tá boa” que foi adicionado juntamente com aquela intro das séries da HBO, porque achei que cairia bem).
04) “comerciais” – São comerciais tirados do Youtube através da seguinte busca: “comerciais anos 90”. Daí apareceu uma página que tem um acervo desse tipo de coisa! Pra mim isso aí é ouro! Pretendo usar em outras coisas!
05) “andando pela leste” – Gosto muito do meu bairro e da Zona Leste, apesar de muita gente achar um lugar perigoso e ter pensamentos errôneos sobre o extremo leste de São Paulo. É um pensamento que, infelizmente, se estende a provavelmente qualquer área mais extrema e periférica pelo Brasil afora. Faço questão (de prestar minha homenagem à minha área) não só nessa faixa, mas também em outras de projetos já lançados meus. Eu amo minha Zona Leste! Essa faixa combina dois Type Beats com phonk Memphis e, na segunda parte, algo que Pharrell Williams produziria, tudo isso mesclado a sons roubados do Youtube e modificados “ali e aqui” com o recorte do João Kleber dizendo “PARA TUDO AI”. kkkkkk Curti muito o resultado!
06) “dono do pedaço (Part Alamim)” – Para essa faixa convidei meu amigo rapper Alamim, com quem já dividi um EP focado em jazz (“Jazzchave”), aonde ele rima na base de uma produção do lendário J Dilla pra outra lenda MF Doom. “dono do pedaço” tem uma colagem do Chaves, na qual Seu Madruga dá um cascudo nele e fala: “Toma!”. Esse pra mim foi o gatilho de que “toma que lá vem pedrada”. Aí se inicia o som! Gosto muito de Chaves, até hoje ainda dou risada (a dublagem do Chaves é patrimônio nacional).
07) “Sábado a noite” – Base instrumental do som “Get Down Saturday Night”, que Oliver Cheatham lançou em 1983. As rimas foram idealizadas em um sábado a noite…
08) “Interlúdio (Part AK’him)” – Nessa conto com meu amigo AK’him pra rimar nesse interlúdio, um Type Beat estilo Conductor Williams achado na grande biblioteca do Youtube e modificado levemente com uma colagem do anime Yu Yu Hakusho, com o vilão icônico Toguro falando pra vir na maciota antes do som iniciar.
09) “Não sei” – Recorte inicial de uma entrevista aleatória no Youtube falando sobre estar equilibrado seguido de um coral do álbum “Nesse Inverno” (1977), de Tony Bizarro (mais uma vez), especificamente da faixa “Enquanto a Gente Viver”, aonde esse coral pavimenta a estrada pra faixa se iniciar com um sampler do álbum “The Don & Eye” (2022), do produtor 9th Wonder, faixa “Sun Child”. Nela, 9th Wonder sampleia alguém, mas não sei qual o artista ele sampleou. Então basicamente é um sample de um sample. Nessa música falo sobre estar cansado de uma rotina igual todos os dias, porém, sei que isso é a vida. Falo também sobre essa era que vivemos em que pessoas acreditam em contos de fada como polícia que não mata, influenciadores que querem te empurrar uma vida mentirosa de plástico e essa era de coachs que te prometem uma vida de sucesso financeiro se você comprar o “curso”, entre outras coisas. É uma faixa bem curta, mas a reflexão sobre ela até hoje me pega, tipo, eu não sei o que vai ser das crianças sem o futuro! Sempre foi me dito que as crianças são o futuro e tipo se elas não tiverem um futuro como vai ser o futuro? É, eu não sei meu mano.
10. “Viva a vida é um velório” – Um loop melancólico da faixa “Trouble Man”, da trilha sonora do filme “Shaft” (1972), feita pelo monstro sagrado Marvin Gaye combinado aqui com Zeca Pagodinho falando sobre a sua memória afetiva sobre velórios e suas boas recordações sobre um evento que todos veem como algo fúnebre e cinza, mas ele já vê de outra maneira, e isso me fez um paralelo com aquele desenho lá da Disney, “Viva – A Vida é Uma Festa” (2017). Não quero dizer que morrer é bom, mas que, querendo ou não, a morte é um processo inevitável da vida, início, meio e fim. Claro que ninguém quer morrer, mas isso uma hora ou outra vai chegar pra todos de alguma maneira.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.