Uma conversa com Aaron Cometbus sobre ethos punk, jornalismo independente e (Na China com o) Green Day

entrevista de Bruno Lisboa
foto de Skott Cowgill

Em 2010, uma superbanda do primeiro escalão do rock mundial se preparava para uma turnê pela Asia. Junto com eles parte um amigo que, 20 anos antes, havia trabalhado como roadie, vendedor de merch e, esporadicamente, assumia a bateria da banda em um ou outro show. O caminho deles bifurcou: a banda virou um negócio ultra milionário enquanto aquele amigo segue batalhando (até hoje) no underground. O resultado desse reencontro foi “Na China com o Green Day”, livro de Aaron Cometbus que a Editora Terreno Estranho e o selo Mondo Massari lançam no Brasil com prefácio e tradução de Álvaro Dutra.

Desde 1981, Aaron Cometbus mantém na ativa o zine Cometbus, que começou mapeando a cena musical da Baía de São Francisco ao compilar entrevistas com bandas, diários pessoais e reflexões sobre a vida no movimento punk, além de uma visão crítica sobre o mundo e a sociedade. Com o tempo, a Cometbus tornou-se um veículo de expressão de autor, que passou a publicar edições temáticas do zine. Em um deles, por exemplo, Aaron narra a história da Moe’s Books, uma das livrarias (ainda na ativa) mais importantes da Baía de São Francisco. Em outro, disserta sobre arte, quadrinhos e os primórdios do punk em Nova York em meados da década de 1970.

Na China com o Green Day” foi lançado originalmente como a Cometbus #54, em fevereiro de 2011. “O livro não é, no fundo, sobre o Green Day”, avisa Aaron. “É sobre compartilhar uma vida, e uma viagem, com amigos que fizeram escolhas muito diferentes das suas, e olhar para trás para ver onde os caminhos se separaram e o porquê — e se ainda é possível encontrar terreno comum e alegria”. Definido pela Thrasher Magazine como “uma instituição literária do punk rock”, Aaron também tocou em diversas bandas de destaque na cena de São Franscisco (Crimpshrine, Pinhead Gunpowder, Screeching Wease) e, hoje, vive em Nova Yorke, tocando alguns sebos (Book Thug Nation, Human Relations, Codex Books).

Nesta conversa, feita por e-mail, Aaron relembra o início do zine Cometbus (“Ele era minúsculo quando começou”), diz que o ethos punk “é como simpatia e compreensão: escasso quando mais se precisa, mas abundante — e presente em pessoas improváveis — quando menos se espera”, e não vilaniza os meios digitais, mas explica que é um homem que ama o papel (jornais, fanzines, panfletos e livros): “É o que faço melhor, então é onde concentro meus esforços”. Ele também comemora o lançamento de “Na China com o Green Day” no Brasil, e avisa: “Uma pequena editora independente é o lugar perfeito para um livro sobre navegar entre o underground e o mainstream”. Leia a conversa na integra abaixo!

“Na China com o Green Day” oferece uma perspectiva inesperada — o Green Day em turnê, mas pelos seus olhos, longe do glamour dos estádios. O que te motivou a escrever essa história em particular?
Seja escrevendo ficção ou não-ficção, é difícil criar personagens memoráveis, críveis e envolventes com os quais o leitor possa se identificar. Pensei: “Que divertido seria começar do lado oposto, com figuras que todos já conhecem.” Em vez de pintar um retrato composto e coerente, eu poderia jogar todas as qualidades e manias contraditórias que supostamente não podem coexistir — mas que existem em todos nós. O Green Day era o candidato óbvio, então desejei que eles me convidassem para a turnê.

O livro captura um momento de contraste cultural — ideais punks em um ambiente altamente controlado. Que tipo de tensão você sentiu durante aquela turnê e como ela moldou o livro?
Foi uma luta em jaula, meus ideais punks contra o sucesso deles e a abordagem mainstream, sem vencedor claro.

Como você acha que os leitores brasileiros — muitos dos quais vivenciam o punk como forma de resistência — vão se relacionar com “Na China com o Green Day”?
Eu também vivencio o punk como uma forma de resistência — e de engajamento e acolhimento. Mas o livro não é, no fundo, sobre o Green Day. É sobre compartilhar uma vida, e uma viagem, com amigos que fizeram escolhas muito diferentes das suas, e olhar para trás para ver onde os caminhos se separaram e o porquê — e se ainda é possível encontrar terreno comum e alegria.

Ao longo dos anos, você assumiu muitas funções — escritor, músico, roadie, editor. Você vê um fio condutor que conecta todos esses papéis?
É bom assumir várias funções para exercitar as diferentes partes da nossa personalidade. Com sorte, quando vierem atrás de roadies, não vão me reconhecer como editor — e quando vierem atrás dos editores, eu estarei à beira de alguma estrada desolada com fumaça saindo do capô da van.

Olhando para trás, como você começou a escrever zines, e o que fez o Cometbus se destacar na cena de publicações DIY?
O Cometbus era minúsculo quando começou em 1981, só quatro polegadas de altura por três de largura, o que era um ótimo jeito de começar. Eu não precisava ficar autocrítico com a escrita, já que poucos conseguiam ler as letras microscópicas. Eu também era bem pequeno naquela época.

Você edita e publica o Cometbus há décadas. Como você vê a evolução da publicação independente e da cultura zine na era digital?
Os diferentes meios coexistem, cada um com suas vantagens e desvantagens. Mas você não pode fazer tudo ao mesmo tempo, pelo menos não bem feito. Eu sou um cara que ama papel — jornais, fanzines, panfletos e livros. É o que faço melhor, então é onde concentro meus esforços.

Como baterista, você tocou em várias bandas. Como suas experiências como músico influenciaram sua escrita — e vice-versa?
Quando estou escrevendo e publicando, tenho controle total. É uma atividade solitária, passada sozinho à escrivaninha por anos a fio. Tocar em bandas é o oposto — é algo muito social, físico e colaborativo, com gente o tempo todo dizendo que estou errado ou me forçando a melhorar, o que é importante, mesmo quando dói.

Pinhead Gunpowder, banda formada em 1991 por Aaron Cometbus (letras, bateria), Bill Schneider (baixo), Billie Joe Armstrong (guitarra, vocal) e Jason White (guitarra, vocal).

Qual foi o ponto de virada em que você percebeu que seu trabalho como escritor e zineiro ganhou vida própria, além do underground?
Existe algo além do underground?

O que você acha do ressurgimento dos zines e livros impressos entre as gerações mais jovens? É nostalgia ou algo mais profundo?
É algo mais profundo.

Como você concilia seu papel de editor e escritor, especialmente ao dar espaço para vozes que não a sua?
Tenho mais orgulho do meu trabalho como editor e publicador do Cometbus, ajudando a dar vida à escrita, arte e fotografia de mais de quinhentas pessoas. Quando os colaboradores não entregavam os textos prometidos, eu tinha que contar suas histórias por eles. Foi assim que comecei a escrever e, em grande parte, ainda é assim.

Na sua visão, quais são os maiores desafios enfrentados por editoras e livrarias independentes hoje?
A palavra “desafio” sempre aparece quando se fala de livrarias e publicações, mas não deveria. Estou na publicação há 40 anos e trabalho em livrarias há 25. Os fracassos em ambos os campos geralmente não são culpa do público volúvel ou da economia em mudança, mas sim de má gestão e falta de ação decisiva.

Você faz parte da cena punk há mais de quatro décadas. O que mais mudou — e o que não mudou nada?
Se você tem duas boas bandas locais tocando toda semana, e uma plateia que dança sem se importar com nada, você está no paraíso. Isso nunca muda.

Você acha que o ethos punk ainda está vivo hoje?
O ethos punk é como simpatia e compreensão: escasso quando mais se precisa, mas abundante — e presente em pessoas improváveis — quando menos se espera.

Como você responde àqueles que dizem que o punk virou mais uma estética do que um movimento?
Eu diria que eles estão certos. Mas o punk é uma estética poderosa, flexível, multifacetada, sexy, com muitas aplicações e uma grande história. Uma estética pode ser melhor do que um movimento, porque não tem líderes e não pode fracassar.

O que te mantém motivado a continuar escrevendo e documentando o underground, depois de todos esses anos?
É o que eu amo. Sou um homem de sorte por estar cercado do que amo por tanto tempo.

Que conselho você daria a um jovem que queira começar um zine ou criar fora dos sistemas tradicionais?
Gostaria de ser lembrado como um adulto que não tem conselhos para os jovens de hoje, apenas encorajamento. Desejo o melhor a todos eles!

Você imaginava que um livro como esse, sobre uma turnê com uma banda gigantesca como o Green Day, seria publicado em um país como o Brasil por uma pequena editora independente?
Ser traduzido para uma nova língua e publicado em outro país é o maior presente que um escritor pode sonhar. Sou profundamente grato ao Álvaro Dutra e à equipe da Terreno Estranho pela oportunidade. Uma pequena editora independente é o lugar perfeito para um livro sobre navegar entre o underground e o mainstream.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br

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