entrevista de Alexandre Lopes
“Vamos simplificar tudo / Pra todo mundo entender… certo? / Tentando fazer o mais estúpido possível”. A crítica afiada à sociedade do espetáculo abre caminho para o décimo álbum da banda francesa The Inspector Cluzo, lançado em junho de 2025. Intitulado “Less is More”, o trabalho marca mais um capítulo na trajetória da dupla formada por Laurent Lacrouts (guitarra, vocais) e Mathieu Jourdain (bateria, vocais), dois músicos que dividem a vida entre os palcos e a rotina diária em sua fazenda orgânica no coração da Gasconha, no sudoeste da França.
Gravado ao vivo em apenas quatro dias no estúdio de Vance Powell, em Nashville/EUA (o mesmo produtor do trabalho anterior e conhecido por colaborações com Jack White, Clutch, Buddy Guy, Willie Nelson, entre outros), o disco pretende refletir a energia de suas apresentações, sem uso de artifícios. “Queríamos soar o mais próximo possível dos nossos shows ao vivo, mas sem fazer um álbum ao vivo em estúdio”, explica Laurent. “Escrevemos as músicas no violão, bem ao estilo antigo, sabe? Porque é assim que trabalhamos: se a música funciona bem sozinha, só com letra e violão, aí sim começamos a adicionar os outros elementos, fazer barulho mesmo”.
O conceito de “Less is More” vai além do som: é uma filosofia de vida, sustentada tanto na musicalidade do blues quanto na prática cotidiana dos músicos em sua fazenda, Lou Casse. Lá, desde 2013, os dois produzem seu próprio alimento, cultivam sementes, criam animais e vivem sem depender de grandes estruturas capitalistas. “Está ligado à ideia de pós-crescimento (post-growth). Vivemos na fazenda, somos autossuficientes. Nós mesmos financiamos a nossa música, fazemos tudo por aqui”, diz Mathieu.
O álbum também é carregado de referências filosóficas. A dupla se inspirou em Henry David Thoreau, autor do livro “Walden” (1854), e em Guy Debord, pensador francês que cunhou o conceito de “sociedade do espetáculo” (1967). A faixa “As Stupid As You Can”, carro-chefe do disco, traduz essa crítica à lógica dominante: “Como uma sociedade materialista e consumista pode acabar levando a uma sociedade invertida, onde a verdade se torna apenas um breve momento dentro da mentira. E é exatamente essa a sociedade em que vivemos hoje”, reflete Mathieu.
Mesmo vivendo uma rotina rural, The Inspector Cluzo procura manter uma presença global: o lançamento de “Less is More” dá continuidade a um ciclo de dois anos que a dupla alterna turnês extensas e temporadas na fazenda. A banda tem vontade de retornar à América do Sul em 2026, incluindo o Brasil, onde tocaram no Lollapalooza em 2019 e deram sua primeira entrevista ao Scream & Yell. “Foi incrível! Teve uma tempestade antes do nosso show, e depois a gente entrou no palco. Aí, depois de nós, o Twenty One Pilots foi tocar com um carro no palco! Sinceramente, a gente ficou tipo: ‘Mas que porra é esse carro?’ (risos)”, lembra Laurent. “Vendemos nosso merchandising direto na grade, ali com o público. Foi muito legal!”
Totalmente independentes, os franceses mantêm uma postura crítica sobre o mercado musical atual, especialmente quanto às redes sociais e ao modelo de turnês excessivamente inflado. “O problema é que o mercado da música virou uma mega indústria que não está nem aí pra crise climática. Finge que se importa, faz um greenwashing no palco do tipo: ‘Ei, não comam carne!’, mas aí estão fazendo streaming em massa, viajando em ônibus gigantes com ar-condicionado e tudo mais”, afirma Laurent. “Se você realmente quer fazer algo, venha pra fazenda com a gente, plantar uns legumes”, desafia.
A relação com as plataformas digitais, embora cautelosa, é estratégica: “Temos só Facebook e Instagram, e nada além disso porque já é suficiente para nós. Usamos apenas para informar, divulgar, avisar alguma coisa. Não usamos pra gerar buzz, nem criar conteúdo só por criar”, explica Laurent. O verdadeiro centro de operações é o site da banda, que concentra todas as informações, discos, merchandising e uma newsletter com 20 mil inscritos.
Sendo uma banda que prega a autossuficiência, o novo álbum é uma extensão desse pensamento, com a Inspector Cluzo fazendo um convite provocador à simplicidade como meio de vida. E ao que tudo indica, esse é só o começo de mais uma próxima colheita em possíveis palcos brasileiros. “Estamos muito ansiosos pra voltar. Estamos em contato e tentando voltar pro Brasil, Argentina, pra outros lugares também. Espalhem a palavra, falem sobre isso, porque isso nos ajuda bastante!”, pede Laurent. Enquanto a banda não passa novamente aqui, leia o papo que o Scream & Yell teve com o duo via zoom.
Ouça o novo álbum na integra abaixo
Já faz algum tempo desde o último lançamento de vocês, em 2023. Eu sei que vocês têm a fazenda para cuidar e isso toma bastante tempo. Mas vocês poderiam explicar o que têm feito desde o último lançamento?
Laurent Lacrouts: Bem, a gente faz muitas turnês. Cada lançamento acontece a cada dois anos e, como você disse, temos uma fazenda também. Então, nesse meio tempo, fazemos uma longa turnê, depois paramos, depois mais uma longa turnê, e assim por diante. Sempre seguimos esse ciclo de dois anos, porque leva tempo para ir aos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália, fazer a Europa toda… tudo isso leva tempo. E no próximo ano, estamos planejando visitar o Brasil, esperamos que aconteça! Faremos uma turnê longa até o Natal, depois voltamos para a fazenda por um tempo, e talvez façamos algo pela América do Sul e outros lugares. É isso que tem acontecido nesse meio tempo, sempre.
Esse é o décimo álbum da banda. O que vocês acham que fizeram de diferente neste álbum?
Laurent Lacrouts: Bom, a ideia era soar o mais próximo possível dos nossos shows, mas sem fazer um álbum ao vivo em estúdio, o que sempre é complicado. Então, decidimos fazer este disco bem próximo disso. Passamos dois anos nos preparando. Escrevemos as músicas no violão, bem ao estilo antigo, sabe? Porque é assim que trabalhamos: se a música funciona bem sozinha, só com letra e violão, aí sim começamos a adicionar os outros elementos, fazer barulho mesmo. Então a gente se preparou bastante. Seguimos um processo parecido com o do Nirvana, Pearl Jam ou de outras bandas dos anos 90, que tocavam suas músicas centenas de vezes ao vivo antes de entrar no estúdio. Queríamos capturar esse tipo de energia, esse momento. E foi isso que fizemos. Gravamos tudo ao vivo em apenas quatro dias, sem metrônomo, nada, porque já estávamos bem preparados. E o Vance Powell fez a mixagem.
Ah, então vocês gravaram guitarra e bateria na fazenda ou foi em outro lugar?
Laurent Lacrouts: Gravamos em Nashville, com o produtor Vance Powell, que trabalhou com discos do Jack White e do Clutch.
Ah, o mesmo produtor do último álbum, certo?
Laurent Lacrouts: Exatamente.
Sei que pode parecer uma pergunta óbvia, por causa da história da banda, mas qual é o conceito por trás do título do álbum?
Mathieu Jourdain: Bem, o conceito de “Less is More” (menos é mais) vem obviamente do blues; com poucas notas, você consegue expressar uma música inteira. Mas “Less is More” também se aplica a nós mesmos, aqui na fazenda. Está ligado à ideia de pós-crescimento. Vivemos na fazenda, somos autossuficientes. Nós mesmos financiamos a nossa música, fazemos tudo por aqui. Então, esse álbum fala exatamente sobre isso. E, ao longo das músicas, dá pra perceber essa direção. Também fomos inspirados por dois filósofos: Henry David Thoreau e Guy Debord. O Thoreau foi um dos primeiros ecologistas, no século XIX. Ele se isolou numa floresta, viveu por um tempo lá e depois escreveu o livro “Walden”, onde criticava a sociedade de consumo daquela época. Ele também escreveu “Desobediência Civil”, que nos inspirou muito — especialmente a ideia de que, quando uma regra não é justa, é necessário desobedecer. Esse pensamento também influenciou Gandhi e Martin Luther King. Foi isso que nos inspirou, por exemplo, na música “Rules”. Já o Guy Debord escreveu um livro chamado “La Société du Spectacle” [A Sociedade do Espetáculo], publicado em 1967, pouco antes dos famosos protestos de 1968 na França. Ele demonstrava como levar a sociedade de consumo ao extremo, usando técnicas como a manipulação narrativa, a mentira, etc, levaria a uma sociedade invertida, onde a verdade se tornaria apenas um breve momento dentro da falsidade. Tudo isso nos inspirou muito nas músicas deste álbum.
É engraçado e meio trágico, porque essas ideias vêm de muito tempo atrás, e agora estamos vivendo exatamente o exagero de tudo isso. Eu ouvi o álbum e, pelo que consegui captar das letras, há uma crítica clara às redes sociais e à mídia, certo? Especialmente no single “As Stupid As You Can”. Gostaria que você falasse um pouco mais sobre isso.
Laurent Lacrouts: “As Stupid As You Can” é uma referência direta ao livro de Guy Debord que o Mathieu citou e fala justamente sobre isso: como uma sociedade materialista e consumista pode acabar levando a uma sociedade invertida, onde a verdade se torna apenas um breve momento dentro da mentira. E é exatamente essa a sociedade em que vivemos hoje. Atualmente, não conseguimos mais distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Isso é consequência do excesso, seja de consumo, de informação, de mídia, de tudo. A gente não usou o título “La Société du Spectacle” diretamente, mas escolhemos essa expressão americana, “As Stupid As You Can”, para que as pessoas entendessem melhor. Mas sim, a música é uma crítica direta baseada nas ideias desse livro e desse pensamento.
Há muitas críticas às redes sociais, mas sendo uma banda independente, como é para vocês ter que usá-las para expandir o trabalho e alcançar outras pessoas?
Laurent Lacrouts: É a mesma questão que a gente tem com o streaming. Não temos problema nenhum com isso, desde que o streaming ou as redes sociais continuem sendo só uma ferramenta. Só isso: uma ferramenta, não um mundo inteiro. O streaming não pode ser a totalidade do universo da música, porque ele é gratuito, não nos paga e ainda polui pra caramba. Já o formato físico – CDs, LPs, vinis – isso sim nos paga, e você guarda um vinil pra vida toda. É diferente. Por outro lado, as redes sociais também podem ser interessantes como ferramenta. O streaming é legal, por exemplo, pra descobrir bandas. Mas descobrir de verdade significa: você ouve, vai a um show, compra ingresso, compra um CD, apoia a banda. Aí sim é legal. E com as redes sociais é a mesma coisa pra gente. Temos só Facebook e Instagram, e nada além disso porque já é suficiente para nós. Usamos apenas para informar, divulgar, avisar alguma coisa. Não usamos pra gerar buzz, nem criar conteúdo só por criar. Pra nós, o mais importante continua sendo nosso site: theinspectorcluzo.com. Esse é o nosso refúgio.
O site de vocês é super completo. Acabei de dar uma olhada e tem tudo lá!
Laurent Lacrouts: Ah, obrigado! Sim, é justamente por isso que todo mundo acaba indo até lá. As redes sociais servem só pra isso: ajudar a levar as pessoas até o site. Temos uma newsletter com 20 mil inscritos, e o público acompanha por lá, etc. Construímos isso passo a passo, ao longo do tempo. Então, a gente não tem problema com as ferramentas em si. O problema é a importância que elas acabaram ganhando.
Entendi. Então, depois da pandemia, muitos artistas que vivem de turnês têm enfrentado dificuldades por causa dos altos custos. Como vocês também são uma banda independente, como isso tem sido pra vocês? Está difícil agora?
Laurent Lacrouts: Não, pra gente sempre foi simples, até fácil, porque temos muita demanda. Mas também é porque aplicamos uma mentalidade de pós-crescimento nesse aspecto. Por exemplo, nunca usamos um ônibus de turnê. Nunca usamos caminhões ou coisas assim. Nosso show é só guitarra e bateria. E eu poderia encontrar uma guitarra e uma bateria para tocar no Brasil, por exemplo. É tudo muito simples, eu levo apenas minha guitarra. Às vezes levamos nosso técnico de som, se ele estiver com boa vontade (risos). E é isso. O problema é que o mercado da música virou uma mega indústria que não está nem aí pra crise climática. Finge que se importa, faz um greenwashing no palco do tipo: “Ei, não comam carne!” — mas aí estão fazendo streaming em massa, viajando em ônibus gigantes com ar-condicionado e tudo mais. Se você realmente quer fazer algo, venha pra fazenda com a gente, plantar uns legumes – aí vocês fazem muita diferença de verdade. Então, não temos dificuldade com isso. O problema é outro. São duas coisas: o impacto econômico da COVID, claro, mas também a forma como as turnês são produzidas hoje em dia. Por exemplo, a gente falou isso outro dia pra um jornalista francês: se a gente fosse uma banda contratada por uma gravadora e grande produtora de turnês, estaríamos viajando com 15 ou 20 pessoas na equipe. Mas não precisamos disso. Aí o pessoal reclama: “Ah, não dá pra levar todo o mundo, está muito caro”. Claro que tá caro, vocês são vinte! Então é isso. Menos é mais.
Vocês vieram ao Brasil em 2019. Gostaria de saber quais são as lembranças que vocês têm daquela visita.
Laurent Lacrouts: Foi incrível! Teve uma tempestade antes do nosso show, e depois a gente entrou no palco. Aí, depois de nós, o… [olha para Mathieu para lembrar o nome da banda]
Mathieu Jourdain: Twenty One Pilots.
Laurent Lacrouts: Isso, o Twenty One Pilots foi tocar com um carro no palco! Sinceramente, a gente ficou tipo: “Mas que porra é esse carro?” (risos) A verdade é que a gente ficou tão irritado que queria destruir o carro. A gente pensou mesmo em fazer isso, mas acabou não rolando… Enfim! Mas fizemos uma outra coisa: lembro que vendemos nosso merchandising direto na grade, ali com o público. Foi muito legal! Porque o merchandising oficial estava caro demais, e era proibido vender fora do controle do evento. Mas a gente fez mesmo assim, do nosso jeito francês (risos). Existem regras…
Mathieu Jourdain: …e tem regras que foram feitas pra serem quebradas!
Laurent Lacrouts: Isso, regras que foram feitas pra serem quebradas! E o pessoal do nosso selo, que estava cuidando da gente, até ajudou a vender! Foi um show ótimo, com muita gente, e a gente guarda ótimas lembranças. Estamos muito ansiosos pra voltar. Estamos em contato e tentando voltar pro Brasil, Argentina, pra outros lugares também. Espalhem a palavra, falem sobre isso, porque isso nos ajuda bastante! A gente sabe que o público nos espera, e queremos voltar. É por isso que estamos dando tantas entrevistas, estamos fazendo nossa parte. Vamos ver o que acontece!
Então, pessoal, espero vê-los em breve aqui no Brasil para o show. Parabéns pelo novo álbum, está incrível!
Laurent Lacrouts: Muito obrigado! Até mais, boa sorte para vocês também, e esperamos mesmo vê-los em breve.
Mathieu Jourdain: Até o próximo ano!

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.