Entrevista: “É uma merda depender de algoritmos”, diz Murilo Benites, da swave, que está lançando “foi o que deu pra fazer”

entrevista de Bruno Lisboa

Resultado da união de amigos que decidiram começar um projeto novo, a swave é formada por Cris Botarelli (baixo e vocal) e Rafael Brasil (guitarra), ambos do Far From Alaska, mais Murilo Benites (guitarra) e André Dea (bateria), integrantes do Violet Soda (sendo que Dea também toca na Supercombo e na Sugar Kane), e Aline Mendes (vocal), que também atua em formato solo sob o nome Alinbloom.

O quinteto debutou em março com o disco  “foi o que deu pra fazer” (2025), gravado no Estúdio Costella, em São Paulo, com produção da própria banda e co-produção de Alexandre Capilé (Sugar Kane). Lançado pela Deck, o álbum traz 11 faixas de rock alternativo que não abdicam de refrãos pegajosos enquanto embalam letras existenciais que abordam temas como autoconhecimento, frustração, maturidade e as transformações que o tempo impõe.

Em entrevista feita por e-mail, Murilo fala sobre a formação da banda, o processo de composição do repertório e desabafa: “Muito se fala sobre a democratização da cena independente com a internet, e isso é massa mesmo! Mas pra divulgar o seu trabalho, você precisa estar nas redes sociais, nos streamings, ou seja, na mão de uns 5 bilionários que não estão ligando pra sua arte. É uma merda depender de algoritmos”. Leia a entrevista na integra abaixo:

A swave nasce da união de trajetórias bem distintas, mas com afinidades claras. O que motivou vocês a se juntarem para esse projeto em específico?
Além da nossa relação de amizade, já tocamos juntos em outros projetos e ocasiões e sempre rolou muito legal. Então, quando pintou a oportunidade de reunir todo mundo e fazer um som, foi o pretexto que faltava pra virar uma banda.

⁠Em que momento vocês perceberam que estavam diante de algo que fugia do rótulo de “projeto paralelo”?
Acho que desde o começo a ideia estava lá, porque o lance de tocar junto sempre foi partindo de composições autorais, de uma construção coletiva, de banda mesmo. Mas, é claro que com todo mundo tendo outras prioridades, a gente ia fazendo quando dava, numa boa. Às vezes uma parte da galera adiantava algo, depois outra parte somava num outro estágio da composição… Já era uma banda, só que sem aquela pressão de sair lançando coisa logo. Primeiro, a gente só queria existir.

O título “foi o que deu pra fazer” é, na mesma medida, provocativo e bem-humorado. Como chegaram nesse nome e que tipo de recepção ou reflexão ele gerou entre vocês?
O nome bateu na hora pra todo mundo, porque realmente a gente fez o álbum quando todo mundo podia se reunir pra compor, gravar… Ao mesmo tempo, tem esse olhar bem-humorado sobre o que é ser uma banda hoje em dia, em que se exige uma outra dinâmica, outra velocidade, uma urgência que a gente quase nunca consegue cumprir, por vários motivos. Acho que até por isso escolhemos uma abordagem mais “old school” na hora de mostrar o trabalho pra galera.

Como foi o processo de composição e gravação do novo repertório?
Acho que, nas composições, o segredo foi não se preocupar muito com um caminho específico. A gente foi buscar lá no inconsciente as influências das coisas que crescemos ouvindo, um lugar que fosse confortável pra todo mundo, até pra coisa fluir mais naturalmente. Acabamos fazendo essa falta de tempo jogar a nosso favor, pras coisas acontecerem. O resto, foi questão de ser criativo pra otimizar o tempo que a gente tinha, tipo gravar quatro clipes no mesmo dia, no mesmo lugar, pra aproveitar a diária.

O álbum e os videoclipes passeiam por várias referências do rock alternativo. Que tipo de som vocês ouviam enquanto compunham?
Com certeza toda a galera dos anos 90 e 00 está na mistura, dos clássicos aos “one hit wonders”. Acho que foi menos sobre trazer bandas e sons específicos de referência, e mais uma “vibe”, uma nostalgia de dias mais simples.

⁠Vocês começaram fazendo shows, depois lançaram uma fita cassete, um EP, singles… Foi intencional essa “escadinha”?
A gente quis tirar qualquer pressão que pudesse existir, até pro processo todo ser divertido. Esse rótulo de “supergrupo” naturalmente ia causar expectativas diferentes em geral. Então, ao invés de chegar botando banca, preferimos voltar pro básico, pro caminho das bandas que a gente gostava: compõe, testa as músicas ao vivo, grava uma demo pra sentir mais firmeza, faz mais uns shows, depois vai lançando as coisas aos poucos… Isso tudo faz parte do processo de encontrar uma identidade pra essa banda. Acho, inclusive, que a gente ainda está muito no começo desse processo. Passada a urgência de existir, de lançar o primeiro disco, a vontade agora é produzir melhor, buscar ainda mais a fundo essa identidade. As próximas coisas que a gente fizer vão ser um passo a mais nesse sentido.

Vocês já têm uma longeva trajetória no mercado musical e acredito que ao iniciar um novo projeto seja natural buscar percorrer novos caminhos. Houve algo que vocês quiseram evitar com o swave?
Acho que evitar cair na pilha de fazer as coisas com o propósito de “fazer virar” ou “dar certo”, de atender expectativas. É mais sobre aproveitar o processo, curtir ter banda pelos vários momentos legais que isso proporciona, na companhia dos amigos. E também evitar achar que se deve fazer as coisas de um jeito X ou Y porque “é assim que tem rolado”. Sem essa pressão, as coisas acabam até fluindo melhor.

⁠As letras falam muito sobre angústias contemporâneas: ritmo da vida, pressões internas, relações frágeis, busca por sentido. Como esses temas se impuseram no processo de composição?
Quando a gente compôs essas músicas a Aline estava passando por um período de transformações significativas, tanto emocional quanto fisicamente. E todas essas mudanças influenciaram a composição das músicas.

O disco foi gravado no Estúdio Costella, com coprodução do Capilé. Como foi esse processo e de que forma ele influenciou no resultado final?
O Capilé ajudou a gente a ter uma visão de fora sobre as músicas, dando toques, críticas e sugestões valiosas no processo. Foi ele, inclusive, que gravou as demos, ele estava lá nos primeiros shows, além de conhecer bem a gente de outros vários trabalhos que fizemos juntos, então ele tinha mesmo essa visão.

Como vocês enxergam o mercado independente brasileiro na atualidade? Quais são os desafios de iniciar um novo projeto na atualidade?
É legal essa pergunta, porque muito se fala sobre a democratização da cena independente com a internet, a tecnologia mais acessível, que permite gravar as coisas em casa e tudo mais, e isso é massa mesmo! Mas acho que existe uma segunda camada que frustra a gente e muitos outros amigos artistas: hoje, pra divulgar o seu trabalho e pra que esse trabalho seja minimamente sustentável, o artista precisa estar na internet, nas redes sociais, nos streamings. A grosso modo, isso quer dizer que ele está na mão de uns 5 bilionários, que não tão ligando pra sua arte. Eles querem lucrar e querem que você produza ao máximo e o mais rápido possível. E isso já tem impactado muito diretamente às concepções artísticas.

É uma merda depender de algoritmos pra conseguir algum destaque e mostrar seu trabalho, mas é assim que é o jogo. Quer mais destaque? Pague ou faça uma trend agora mesmo. Você tem 3 segundos pra chamar a atenção de alguém. Se é difícil pra bandas consolidadas, imagina pra uma banda nova? Por isso, acredito cada vez mais em ir contra a maré, sempre buscar maneiras de sobressair nesse cenário. Antigamente já era assim, em uma outra realidade, a diferença é que agora o volume é muito maior e o jogo mais cruel. O que a gente faz é tentar se adaptar, fazer conteúdos que tenham a ver com a gente, fazer as coisas do nosso jeito, buscar ser criativo.

Claro que nada substitui o ao vivo, o contato direto com a galera. E é isso que a gente está buscando agora: viajar bastante, chegar nos lugares, compartilhar experiências. Mas, fora da internet, as estradas são ruins, a estrutura muitas vezes é precária, a gasolina é cara, as passagens aéreas nem se fala. O mercado está inflacionado, está difícil de vender ingressos. É praticamente impossível uma banda nova ser sustentável nesse cenário. Por isso falei ali em cima que o lance é fazer por você, curtir o processo. Se for parar pra pensar, montar uma banda hoje não faz o menor sentido (risos). Tem que gostar muito!

Com o disco na praça quais são os planos futuros da banda?
A gente quer fazer mais shows, compor mais coisas, buscar nossa identidade e, sempre que possível, curtir o caminho.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. Escreve também no www.phono.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *