entrevista de João Paulo Barreto
A chegada ao Brasil de “Absolution”, quadrinho da Editora Poptopia, com texto do britânico Peter Milligan e arte do brasileiro Deodato Taumaturgo Borges Filho, coincide com um momento especial para o desenhista paraibano que assina como Mike Deodato Jr.. Recentemente, o artista, que passou 24 anos trabalhando para a Marvel Comics, compartilhou no Instagram um texto sobre a alegria de ver um personagem seu ganhar vida nas telas. Trata-se de Ironheart, personagem feminina criada por Deodato e por Brian Michael Bendis, que vai estrear sua própria série de TV no Disney Plus.
No desabafo, porém, o desenhista de uma das melhores fases do personagem Hulk nos quadrinhos, falou sobre a necessidade da gigantesca Marvel Comics fazer melhor em relação ao reconhecimento de artistas cujas imaginações trouxeram primeiramente para o papel a origem daquilo que ganha vida (e gera lucro) nas telas. Após a repercussão nas redes sociais, porém, houve uma luz. “Para ser justo, a Marvel entrou em contato comigo e fizemos um acordo”, explicou Deodato em entrevista ao Scream & Yell. “Eu perguntei a eles sobre postar algo nas redes sociais dizendo que fizeram a coisa certa, mas disseram que não era preciso. Achei legal tanto da parte deles, de não quererem se aproveitar do momento para dizer que fizeram a coisa certa, quanto o fato deles terem feito”. comemora o desenhista, mas salienta: “Dito isso, tem muita coisa que precisa ser melhorada, sim. O autor precisa ser melhor tratado”, crava.
Essa contextualização do momento da vida de um artista com décadas de experiência rima com o momento atual no qual seu traço tem sido utilizado com muito mais frequência em quadrinhos independentes. “Absolution” é um deles. Lançado nos Estados Unidos em 2023 pela editora AWA, o gibi representa um dos novos focos de Deodato em uma trilha voltada para projetos autorais.
Nessa entrevista , o artista comenta sobre essa mudança de direcionamento, ao deixar a produção em série de histórias de super-herói das grandes editoras para um foco em trabalhos 100% autorais. No caso de “Absolution“, as amarras criativas impostas por grandes editoras se perderam permitindo a Milligan e Deodato uma abordagem violenta em uma história sobre a espetacularização midiática dos reality shows junto à necessidade insana de agradar seguidores. Aqui, uma assassina profissional precisa angariar uma popularidade medida em porcentagens de likes que lhe garantirão a sobrevivência, uma vez que, ao chegar aos 100%, micro-explosivos instalados cirurgicamente em seu cérebro deixarão de ser detonados. Até lá, no entanto, ela precisará passar por “provas” auto impostas nas quais terá que dar cabo de estupradores misóginos, chefões do crime, molestadores infantis e outros tipos de escória.
No texto sagaz de Peter Milligan é perceptível uma presença crítica à espetacularização da violência a partir da necessidade doentia de se existir na internet. Em tempos nos quais o número de seguidores parece querer definir quem tem talento e os comentários ditos “lacradores” significam os novos 15 minutos de fama, observar a maneira como Deodato representa em imagens a crítica escrita por Milligan causa regozijo. No papo abaixo, Deodato aprofunda as decisões de sua carreira e fala sobre a experiência de trabalho com roteiristas como o próprio Milligan e Brian Michael Bendis. Confira!

Refletindo em retrospecto sobre sua empreitada pelos quadrinhos independentes, que se consolidou a partir de 2019, como você avalia esse processo de deixar uma longa estrada na Marvel para se dedicar às suas próprias criações?
Olha, não foi nada planejado. Foi uma urgência que eu tinha em fazer coisas autorais, simplesmente. Eu já tinha experimentado antes fazendo “Quadros”, que saiu pela Editora Mino em 2014. Aquilo já me tirou do peito alguma coisa, aquela vontade. Eu tinha feito o “A Arte Cartum” (N.E. No Brasil, lançado pela Editora Kalaco), mas continuava com essa vontade de querer fazer quadrinho autoral. Então, quando decidi fazer “Berserk Unbound”, com Jeff Lemire, enquanto eu ainda estava na Marvel, foi difícil porque… Bom, com o nível de qualidade de hoje, um desenhista só consegue fazer uma revista por mês. Então foi muito difícil fazer revista para a Marvel e uma autoral ao mesmo tempo. Foi aí que eu vi que não dava. Estava na hora de decidir o que eu ia fazer na vida. Como já tinha feito 24 anos com a Marvel, pensei: “Agora está bom. Tenho que decidir entre o meu sonho de infância, que era fazer quadrinho de super-herói, e que realizei tudo o que podia, e meu sonho de adulto que é fazer quadrinho autoral. Quadrinho meu, mesmo”. E foi uma decisão acertada. Primeiro, da parte minha profissional, da minha satisfação pessoal. Tenho feito projetos fantásticos com autores fantásticos, dentre eles o Peter Milligan. E o reconhecimento que veio na forma de dois prêmios que eu nunca tinha ganhado antes, o Eisner e o Ringo Awards. O Eisner é o Oscar dos Quadrinhos. Foi a prova definitiva de que tomei a decisão certa. (N.E. Deodato ganhou o Prêmio Eisner pelo quadrinho “Nem Todo Robô”, com texto de Mark Russell). Se depender de mim, não paro mais. Vou continuar fazendo quadrinho autoral. Na verdade, até parei ano passado, porque um projeto meu para a AWA Estúdios teve um problema e precisou ser cancelado de última hora, e eu tinha que decidir o que fazer. Então, fui bati na porta da DC. “Olha, quero fazer coisa aí” (risos). E me passaram o Flash, um trilhão de capas. Passei um ano lá e agora voltei. Mas foi a decisão certa.
Em termos de grana, após tanto tempo no mercado em editoras grandes, muda muito esse aspecto nos quadrinhos independente?
Em termos de grana é a mesma coisa. Não mudou nada. O que pode mudar é se virar filme. E aí eu fico rico (risos). Essa é a diferença. Quer dizer, não rico, mas eu ganho uma grana boa e merecida. Porque são meus personagens. Mas quanto ao preço de página, não mudou nada. Continua o meu padrão de preço de página. O que muda mais é a satisfação pessoal, mesmo. Não quero diminuir os quadrinhos de super-heróis, mas é a qualidade da história, sabe? Por mais que você bote um escritor fantástico fazendo um quadrinho de super-herói, sempre é meio limitado por conta do gênero, por causa da quantidade de coisas que já foi feita, pela continuidade. Você tem que seguir os parâmetros da editora para o personagem. Tem um bocado de amarras. Claro que há muitos exemplos de autores que contornaram isso tudo. Alan Moore, Frank Miller, e uma infinidade de outros caras. (Mas) Isso é próprio do gênero. Ele amarra um pouco. O quadrinho autoral começa com liberdade total. Sou eu e o escritor, ou apenas eu escrevendo e desenhando. Então, é liberdade total. Começo do zero e é algo meu. Não tem nenhuma amarra. E aí é a satisfação pessoal de você criar algo novo. É muito instigante. Por mais que você seja apaixonado por super-heróis, fazer algo seu é diferente. Acho que quadrinho autoral é o futuro. Pouco a pouco, o quadrinho autoral está comendo o mercado, comendo o espaço das grandes editoras. Tem um caminho enorme pela frente, mas em qualidade e quantidade, está começando a chegar lá. Você vê casos como Mark Millar, que vendeu a biblioteca dele inteira para a Netflix. Você vê a Skybound. Um monte de exemplos de pessoas que estão formando a própria empresa autoral. Começando com a Image, lá nos anos 1990, que foi uma história de sucesso fantástica. E até hoje é berço, é casa de quadrinistas autorais. Aí vem chegando no Brasil, também. Você vê um monte de editoras surgindo, como a Poptopia, e publicando quadrinho nacional. E vejo um momento bem marcante na indústria tanto brasileira quanto americana. Europeia já tem uma tradição de quadrinhos autorais desde sempre. Também os japoneses. Mas é bom ver isso se refletindo no Brasil. O Brasil sempre teve, também, mas nunca teve muito sucesso. A quantidade está aumentando, a qualidade vem aumentando. Mas é bom ver isso se multiplicando. Aqui no Nordeste tem Shiko. Meu Deus do céu! E pensar que eu quase levei ele pra Marvel. Não sei que merda eu estava pensando (risos). Aí vem Shiko, completamente genial, independente. Fico feliz por estar podendo presenciar esse momento. Por poder ver essas pessoas surgindo.
Recentemente, você publicou uma carta no Instagram , por ocasião do lançamento do trailer da série “Ironheart”, baseada em uma personagem sua e do Brian Michael Bendis. Na postagem, você falou sobre uma valorização do trabalho do quadrinista em relação à própria obra e em relação às adaptações oriundas dela. Como ficou esse imbróglio?
Primeiro, preciso ser justo. A Marvel entrou em contato comigo e a gente fez um acordo. Eu perguntei a eles sobre postar algo nas redes sociais dizendo que fizeram a coisa certa, mas eles disseram que não era preciso. Achei legal tanto da parte deles de não quererem se aproveitar do momento para dizer que fizeram a coisa certa, e achei legal ele terem feito a coisa certa. Dito isso, tem muita coisa que precisa ser melhorada, sim. O autor precisa ser melhor tratado. Tudo o que eu falei ali continua. Tem muita coisa que ainda precisa ser melhorada. Acho que os quadrinistas deviam se unir mais. Do mesmo jeito que na indústria americana, existem os sindicatos dos diretores, de roteiristas, que são classes bem unidas, que paralisam a indústria para conseguir o que querem, os quadrinistas deveriam se unir também. Mas não sei porque é tão difícil. Já tentei defender a classe, mas sem querer ser líder sindical. No caso dos NFTs, por exemplo. Quando começou, muita gente ganhou dinheiro. E na época eu achei que era uma boa maneira do quadrinista vender o original como um NFT. Só que as editoras grandes começaram a dizer que não podia. Independente das pessoas acharem que NFT não presta, o que estava em jogo não era o NFT. O que estava em jogo era a liberdade do quadrinista de poder ganhar dinheiro com isso. E eu encampei essa causa. Tentei, mas ficou todo mundo contra mim. As editoras e os próprios quadrinistas que eu estava defendendo ficaram contra o NFT. É uma classe complicada. Mas eu acho que a gente precisa se unir. Por que, de que adianta só um aqui e outro lá ser recompensado. E a classe inteira? Eu não vou sair defendendo todo mundo porque, enfim, eu estou fazendo a minha parte. Falo quando é preciso. Quando vejo uma injustiça, eu falo. Mas não vou sair convocando feito um sindicalista. Eu não tenho essa capacidade. Falo porque ninguém está falando. Aí, eu falo. Mas, o ideal seria a gente não esperar deles nada. A gente devia se unir e devia formar um sindicato do que quer que seja. Tudo o que nasce na indústria, vem da gente. Então, falta uma união, uma consciência do quadrinista de seu valor. Não adianta eu falar aqui, um Ed Brubaker falar ali, ou um outro lá. Não vai. São casos isolados que, como um todo, não vão trazer benefícios se ninguém se movimentar.
Recentemente, foi lançado pela Editora Tábula uma edição resgatando histórias do personagem Flama, criado pelo seu pai, Deodato Borges, na década de 1960. O quadrinho “O Flama e Outras Histórias” contou, também, com trabalhos feitos por você. Como foi esse processo de resgate e revisita do legado do seu pai?
Qualquer coisa que seja para resgatar ou para informar a novas gerações sobre o trabalho pioneiro de painho, eu sempre sou a favor. Inclusive, tem até um curta que fizeram, “Campina Noir” (assista abaixo). Bem bacana! Tem até um easter egg logo no começo, que é o prédio onde eu nasci, lá em Campina Grande. Na história do curta, é onde acontece o crime. E é sobre o personagem Flama. E aí veio essa republicação feita pela Editora Tábula. É muito bacana. Porque painho fez isso e passou a vinda inteira escondido. Comecei a trabalhar e ele começou a ser reconhecido, também, como escritor. Quando fui para os Estados Unidos, quando comecei a publicar lá fora, ele não pôde me acompanhar porque não falava inglês. Mas ele viu como o Flama ressurgiu depois de tantos anos. Comparativamente, é uma longa distância, mas é mais ou menos como Will Eisner. Mas, olha, estou dizendo só como exemplo. Não estou dizendo que ele é Will Eisner (risos). Mas se ele tivesse nascido nos Estados Unidos, ele iria ser um Will Eisner ou um Frank Miller. Na mesma época do Will Eisner, ele fez o Flama. Isso nos anos 1940 até meados dos anos 1950. E ninguém viu. E era genial desde sempre. Foi no final dos anos 1960, começo dos anos 1970, que começaram a descobrir painho. Os diretores de cinema, os estudiosos de quadrinhos, e aí ele foi redescoberto. É como aquela história que ele fez do Gerard Snob, aquele que ninguém via voar na história. Ele falava: “Estou voando, estou voando.” Aí tem uma perseguição, dão um tiro nele e ele morre voando. E ninguém o vê voando. É a história de Will Eisner, também. E é um pouco da história de meu pai, que terminou sendo reconhecido somente quando eu fiquei famoso. Aí todo mundo viu que era o autor do Flama, e hoje todo mundo conhece. Acho bacana isso. Muito legal. E ele ainda conseguiu ver isso. Ele foi convidado para participar de uma convenção na época, para ser homenageado. Ele recebeu alguns prêmios. Então, fico satisfeito por ele ainda ter visto em vida seu trabalho sendo reconhecido.
Você já falou abertamente sobre as fases do seu trabalho como desenhista, sobre como algumas dessas fases representaram, para você, um certo declínio. Como você avalia esse período em retrospecto e como você reflete sobre sua fase atual?
Artista nunca está satisfeito. A gente sempre acha que pode fazer melhor. Fico satisfeito na hora que termino. “Ok, bacana!” Mas, após esse momento, isso termina. É quando vem a hora de fazer melhor. Obviamente, eu tenho uma ideia racional de que, realmente, algumas coisas funcionaram de forma melhor do que outras. O problema é que aquela era uma época em que eu estava trabalhando demais. Eu não sabia dizer não. Qualquer projeto que vinha, eu aceitava. Isso porque eu achava que se dissesse não, nunca mais ia trabalhar. Foi o início da queda da qualidade do meu traço por conta do excesso de trabalho. Embora eu tenha muitos fãs daquela época que me dizem que adoram Elektra. Eu não recuso. Não rejeito aquele trabalho. É um produto de uma época. Eu fiz o melhor que pude naquela fase. Mas do mesmo jeito que a própria personagem está renascendo, está em busca de redenção, eu também tive essa jornada de redenção. Eu fui até o fundo do poço. Meu trabalho era rejeitado em tudo que é canto. Eu tive que me reinventar e começar tudo de novo. E isso foi bom para minha carreira, para o meu trabalho. E é uma coisa que persigo até hoje. Persigo sempre estar bem. Estar em um lugar onde eu gosto de trabalhar, onde eu faça o que gosto e o resultado financeiro, o reconhecimento, vem depois. Então, não rejeito essa fase do meu trabalho. Mas vejo, obviamente, um desenvolvimento da minha arte gigante em comparação àquela época. Principalmente no tocante à narrativa. A narrativa é uma coisa que comecei a aprender a partir do trabalho com Hulk, que fiz com Bruce Jones. Foi quando tive uma aula só de ver o roteiro dele e tentar fazer. Aprendi muito sobre narrativa. Fora as aulas que tive com o meu próprio pai no começo. Então, tudo isso vai se juntando. Hoje em dia, narrativa não é uma coisa que eu faço conscientemente. “Ah, eu vou fazer isso por conta disso.” Não é assim. É uma coisa que funciona instintivamente. Eu não penso sobre isso. Tanto que não sei dar aula de nada, porque não sei o que estou fazendo. Faço por instinto. E acho que é o certo. Acho legal quando vejo alguém pegar uma página minha e faz aquelas análises, dizendo que o traço vai em uma direção e mostra como algo funcionou. E eu não tinha a menor ideia do porquê eu fiz aquilo (risos). Mas acho legal a pessoa poder explicar. Mas eu não consigo. Então, houve uma evolução e o que faz essa evolução é minha curiosidade. No dia que parar de querer aprender, ou ficar curioso, ou de admirar o trabalho de outros artistas e querer absorver, é a hora em que eu vou estar estagnado. Acho que ter essa curiosidade é algo que se reflete no meu trabalho.
E como foi retornar ao universo dos super-heróis com a fase recente desenhando Flash na DC Comics?
A pessoa nunca deixa de gostar de super-heróis. Mesmo que eu diga que só vou fazer autoral agora, saudade a gente sempre sente. Mas, no caso, foi uma necessidade, uma coisa que aconteceu. Mas eu adorei. É um personagem que eu nunca tinha desenhado. Nunca tinha desenhado um quadrinho específico dele. Já tinha desenhado uma capa, ou outra coisa. Na verdade, a primeira revista em quadrinho que eu fiz para a DC foi uma arte-final do Flash. Isso foi antes do trabalho com Mulher Maravilha. Eu adorei porque era uma equipe muito boa. O escritor é um Alan Moore mirim (risos). (N.E. O roteirista é o Simon Spurrier). Ele é muito criativo, muito instigante. O editor é alguém muito bacana de se trabalhar (N.E. Chris Rosa). Eu chamei a colorista de Mulher Maravilha, a Trish Mulvihill, para a gente trabalhar junto de novo. Desde aquela fase com Mulher Maravilha que a gente não trabalhava junto. Foi muito legal. Houve alguns problemas durante a produção por conta da continuidade da DC, mas, no final, achei fantástico. Pude criar um monte de personagens novos, do zero, mesmo. Se tivesse chance, se eu não tivesse outro compromisso já voltado para AWA, eu tinha continuado. Eles me chamaram para fazer mais seis números. Mas não dá. Eu tenho que seguir o meu caminho.

Como foi o processo de criação na sua parceria com Jeff Lemire?
Em 90% dos trabalhos que eu faço, das parcerias que eu tenho, o escritor faz a parte dele, eu faço a minha, e a gente se entende. Não tem uma discussão na qual eu sugira mudanças no roteiro dele, do mesmo modo que ele não fala de mudanças nos meus desenhos. A gente se encontra porque somos bons no que fazemos. E esses trabalhos se encaixam. Isso com raríssimas exceções. No trabalho com o Jeff Lemire, nós realmente conversamos sobre o que iríamos fazer e foi diferente. Mas na maioria das vezes, o cara já vem com uma ideia e eu já venho com minha ideia de como vai ser visualmente e isso se encaixa. Eu sei que tem muitos casos de desenhistas e roteiristas que conversam e planejam, mas eu não gosto muito não. Se o cara vier dar pitaco no meu desenho… (risos).
Sempre foi assim com outros artistas? Normalmente como se dá esse diálogo?
O normal nos quadrinhos é o desenhista fazer um layout da página, aí mostra para o editor/escritor ou para o escritor. Aí eles aprovam e a pessoa vai e finaliza. Faz o desenho à lápis e depois faz a pintura. Mas eu sou muito preguiçoso (risos). Lembro que eu estava fazendo um projeto da Marvel há uns vinte anos. E ele estava muito atrasado. Eu disse ao editor que ia fazer direto na página, sem fazer layout. “Qualquer alteração, a gente faz na arte-final”, disse a ele. Desde então, passei a fazer assim, sem layout. É algo que não precisa. Por exemplo, sem querer me comparar, claro, mas na AWA, a gente trabalhou com o (J. Michael) Straczynski. Você vai pegar um roteiro do Straczynski e vai botar nota sobre ele? Dizer que tem que mudar isso ou aquilo? Não! Você não chega nem perto de um trabalho dele. Não faz nem sentido. Então, eu meio que cuido para que não se mude nada no que eu faço. Claro que alguém pode chegar e dizer que um uniforme desenhado está errado. Ou até alguma cena que alguém pede alguma mudança. Em geral, eu aceito. Mas, no normal, ninguém precisa mudar nada. Com todos os anos de experiência que eu tenho, o pessoal já aceita do jeito que está.
Você falou no prefácio de “Absolution” sobre estar se sentindo com vinte anos de idade em relação à sua profissão. Está otimista com o futuro?
Eu estou otimista com tudo. Até com a I.A. Já fiz uma obra que tem um futuro bem terrível. Mas é porque é mais divertido você desenhar panoramas terríveis do que você desenhar todo mundo feliz e bem. Qual é a história que vai ter todo mundo bem e feliz? É preciso ter um drama. Mas, no geral, sou muito positivo. Com minha carreira, com os quadrinhos, com o futuro dos quadrinhos. Eu não sei o que vai acontecer em termos de cenário mundial. As coisas vão mudar. Eu acho que os quadrinhos têm, em termos de mercado, um diferencial. Por exemplo, o mercado de música, que foi destroçado, já que só se sobrevive como músico, agora, com shows e de venda de obras para algum filme. Fora isso, Spotfy e outras coisas não dão o suporte que dava a venda de CDs. Mas quadrinho eu acho diferente. Porque quadrinho é coleção, também. Não é só literatura, não é só ler. É um algo a mais. É um item de colecionador.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.